A República Democrática do Congo levou a melhor sobre a Jamaica, já no prolongamento do play-off intercontinental, e o 1-0 entregou à seleção africana o orgulho de entrar no certame mundial, embatendo de frente com Portugal, como primeiro adversário do próximo Campeonato do Mundo, a 17 de junho.Apesar de estar num continente diferente, Portugal tem um traço indelével na história africana e teve muitos militares e cidadãos a usarem o rio Zaire, agora rio Congo, para atravessar Angola e fugir a milícias em plena guerra colonial. O país vizinho de Angola, origem maior dos retornados de 1974, tem no francês o idioma, mas nunca dispensou laços com o futebol português. Que se avistam ainda na atualidade.Olhando ao elenco de 26 jogadores escolhidos pelo francês Sébastien Desabre, seis deles tiveram passagem por Portugal. O defesa Dylan Batubinsika, de 30 anos, foi formado no Paris SG e, em 2021, aterrou no Famalicão, cumprindo 23 jogos em 2021/22. Nessa mesma equipa militava Charles Pickel, médio que fez 34 jogos e se valorizou de modo a render 4 milhões após saída para a Cremonese.O ativo principal era Simon Banza que, emprestado pelo Lens, marcou 17 golos pelo Famalicão, sendo depois adquirido pelo Braga, onde somou 37 golos em três épocas, passando até a ser dado como possível reforço para o Sporting. Não se concretizou e após o empréstimo ao Trabzonspor (22 golos), o Al Jazira pagou quase nove milhões para ter o avançado. Tanto Batubinsika como Banza, quando chegaram a Portugal, tinham passaporte francês e esse foi um dos méritos de Desabre, técnico que desde 2022 tem construído uma pirâmide com jogadores cujos pais nasceram na R.D. Congo, mas que já trouxeram os filhos para a Europa.O FC Porto tem, inevitavelmente, papel relevante na reabertura do filão e no conhecimento que Portugal venha a ter do adversário. Kayembe foi contratado por 2,5 milhões quando era júnior promissor no Standard Liège, em 2013, esteve quatro anos com contrato, chegou a fazer um jogo pela equipa principal, mas foi pelos 46 jogos na Equipa B que mais foi dado como aposta sem sucesso. Agora no Genk é lateral-esquerdo, com mais méritos do que nos tempos de avançado.Chancel Mbemba tem cinco participações na CAN e por 5 milhões de euros assinou pelo FC Porto em 2018/2019, alcançando 138 jogos pelos dragões e cinco títulos, entre eles dois campeonatos. Bryan Cipenga completa o ramalhete - o avançado fez parte da formação do Boavista, andou por Freamunde, Famalicão, SC Ideal, Anadia FC, Lank Vilaverdense e Paços de Ferreira, antes de rumar ao Castellón, de Espanha.Vitória Sport Clube apostou forte no filão congolêsNos anos 80 e 90 viu-se semelhante popularidade em Portugal. Tueba Menayame militou 15 anos como profissional no nosso país e esteve duas épocas no Benfica, rumando depois a Vitória de Setúbal, Farense e Tirsense. Nkama, em 1986, marcou 11 golos pelo V. Guimarães, fazendo depois disso uma carreira mais discreta. Mas foi mesmo esse o clube que, principalmente, apostou no filão congolês, recrutando diretamente do AS Vita Club. Basaúla passou cinco anos no Minho, além somar duas épocas muito regulares pelo Estrela da Amadora. Já N’Dinga é um vulto nos vimaranenses - passou lá dez anos e é, ainda, o jogador com mais partidas disputadas pelo clube.A estes, poderíamos juntar Kuyangana Makukula, que militou no Leixões, V. Setúbal, Chaves e Lusitânia Lourosa. Veria o filho, Ariza, crescer como profissional, deslumbrar no Marítimo, ir para o Benfica e depois à Seleção A de Portugal, pela qual marcou uma vez em quatro jogos. Ariza é hoje candidato à liderança à Federação do seu país.Há ainda o caso de Bosingwa, internacional português, vencedor de duas Ligas dos Campeões, que nasceu na R.D. Congo.Não deixa de se notar que a seleção do Congo chegará ao Mundial com mais jogadores a alinhar na Europa do que as Quinas. Portugal deverá ter Rúben Neves, João Félix e Cristiano Ronaldo vindos do campeonato saudita. Paulinho é possibilidade vindo do México. Só Banza joga no Al Jazira e Mayele em África (Pyramids). Há uma forte componente de formação em França e na Bélgica. José Mourinho ajudou a lançar Tuanzebe no Manchester United e hoje está no Burnley. A defesa da equipa africana tem ainda Wan-Bissaka (West Ham) e Ngakia (Watford). No meio-campo, Mukau é um prodígio do Lille, com 21 anos, e há ainda Sadiki (Sunderland). Na frente, Wissa chegou ao Newcastle após 20 golos pelo Brentford e Bakambu, já em fase final de carreira (35 anos), está no Bétis, depois de grandes épocas no Villarreal. É uma seleção com conhecimento dos maiores rivais europeus.Ameaças do ditador marcaram a estreia em 1974A primeira participação da R.D. Congo foi em 1974 ainda como Zaire, país liderado pelo ditador Mobutu Sese Seko, que premiou os jogadores com carros e casas por ser a primeira seleção da África subsariana a apurar-se para um Mundial. Só que o torneio disputado na Alemanha começou com uma derrota com a Escócia (0-2) e Sese Seko ordenou que se retirassem os prémios no valor de 45 mil dólares aos atletas. Por isso, os jogadores tiveram perto de não subir a campo frente à Jugoslávia, mas entraram e foram goleados por 9-0, com Ndaye Mulamba a ser expulso por ter dado um pontapé ao árbitro colombiano Omar Delgado. O ditador ficou ainda pior e avisou que se o Zaire perdesse por quatro ou mais golos com o Brasil, não poderiam regressar a casa. A cinco minutos do fim, o brasileiro Valdomiro tem um livre direto para fazer o 4-0 e é então que, desesperado, Mwepu Ilunga saiu da barreira e chutou a bola para longe, num episódio que provocou o riso de todos. A verdade é que o jogo ficou 3-0 e os jogadores puderam voltar a ver as famílias.* Com Carlos Nogueira.RD Congo será o primeiro adversário de Portugal no Mundial, que volta a não ter a Itália