O que a China está a fazer para conter o coronavírus?

Depois da tardia reação inicial à doença, as autoridades parecem empenhadas e tomaram medidas: cidades de quarentena, novos hospitais construídos em tempo recorde e forte investimento em equipas médicas. Será suficiente? Para já, a OMS está satisfeita.
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Com quase 1.4 mil milhões de habitantes, a China é a nação com mais população e enfrenta um desafiante surto de pneumonia originado pelo novo coronavírus - oficialmente 2019-nCoV" - com a resposta dada pelas autoridades de Pequim a levantar dúvidas mas também a gerar elogios pela forma decidida como encararam a doença, pelo menos após a tardia admissão da sua existência, três semanas depois dos primeiros casos. As medidas tomadas pela China foram de grande dimensão e algumas de difícil execução como a quarentena imposta a cidades como Wuhan, com 11 milhões de habitantes. Foram erguidos hospitais em tempo recorde e colocados à disposição das equipas de saúde milhares de milhões de euros. Mas os reais impactos só serão conhecidos nas próximas semanas.

"Até ao momento, não vimos nenhuma morte fora da China e isso deve-se em grande parte às medidas extraordinárias que o governo tomou para impedir a exportação de casos", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), na semana passada, antes de declarar a emergência internacional de saúde pública.

Foi em dezembro de 2019 que o coronavírus foi detetado na cidade de Wuhan. A origem exata ainda está por determinar mas tudo aponta para que a contaminação se tenha iniciado no mercado de animais vivos que existia na cidade, que agora está encerrado. As autoridades locais admitiram já que podiam ter uma resposta mais eficaz se reconhecessem mais cedo o surto. Mas demorou alguns dias a que o governo central chinês tomasse conta da gravidade da situação e foi com a aproximação do ano lunar, a 25 de janeiro, e com o crescente número de infetados e o registo de mortes, que Pequim atuou de forma decidida.

Os especialistas mundiais admitem que, perante a epidemia em expansão, o governo chinês respondeu com mais rapidez e transparência do que durante o surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) em 2002-2004.

As primeiras grandes medidas foram as quarentenas impostas. Wuhan e várias outras cidades da província de Hubei praticamente fecharam-se ao mundo, com os transportes públicos parados e as populações em quase isolamento. Cidades de ainda maior dimensão, como Pequim e Xangai, impuseram restrições de forma a gerir o enorme fluxo de viajantes. As autoridades optaram ainda por fechar muitos locais turísticos e adiaram ou cancelaram muitos eventos do Ano Novo Lunar em todo o país, estendendo o feriado de Ano Novo por mais três dias num apoio aos esforços de resposta.

Os esforços para isolar e retardar a disseminação do 2019-nCoV incluíram o envio de recursos médicos e financeiros muito significativos para Wuhan e outras áreas afetadas. Seguiram equipas médicas do Exército de Libertação Popular e a Comissão Nacional de Saúde da China enviou mais de 1000 funcionários de todo o país para a área de Wuhan.

Construíram-se hospitais em tempo recorde. Em Wuhan, o novo hospital foi concluído em apenas dez dias, enquanto um segundo hospital com 1.500 camas está já a ser construído. O hospital Huoshenshan tem 25 mil metros quadrados e mil camas. Foi entregue formalmente aos militares, a quem cabe a gestão da unidade e a prestação dos cuidados de saúde. A televisão estatal chinesa destacou que nas equipas médicas enviadas "muitos participaram na luta contra a SARS no Hospital Xiaotangshan, em Pequim, na missão anti-Ebola na Serra Leoa e na Libéria, e têm ampla experiência no tratamento de doenças infecciosas".

Estas medidas foram acompanhadas por fortes investimentos. O Banco de Desenvolvimento da China emitiu um empréstimo de emergência de 2 mil milhões de yuans (261 milhões de euros), enquanto o Ministério das Finanças alocou mil milhões de yuans (U130,5 milhões de euros) no combate ao vírus. Se o Estado agiu, o mesmo aconteceu com o setor privado da China - sempre muito ligado ao poder central -, com empresas como Tencent, JD.com, Lenovo e Xiaomi a oferecerem contribuições em fundos e ajudas médicas.

Macau encerra casinos

Nos territórios autónomos têm sido tomadas medidas excecionais. Em Hong Kong, que registou o primeiro caso de morte pelo coronavírus, as autoridades fecharam quase todas as fronteiras terrestres e marítimas para o continente para impedir a propagação do vírus. Apenas dois postos de controlo de fronteira, a Baía de Shenzhen e a ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, estão abertos.

Em Macau, com mais de 10 casos de infetados, as medidas de contenção chegaram aos casinos, a principal atração do território. Nas próximas duas semanas, os 41 casinos, incluindo os seus teatros, cinemas, salas de jogos e discotecas, estarão encerrados.

A gestão da informação continua a ser problemática por estar muito centralizada em Pequim. Todavia, e apesar das dúvidas existentes sobre o real número de casos, há sinais de que as autoridades chinesas não querem ser acusadas de ocultar informação, como aconteceu em 2002 com o SARS, e agora a comissão central de assuntos políticos e jurídicos do Partido Comunista Chinês alertou: "Quem atrasar e ocultar deliberadamente os relatórios ficará para sempre cravado no pilar da vergonha da história".

Além do território continental da China e das regiões chinesas de Macau e Hong Kong, há mais casos de infeção confirmados em 24 outros países. Este coronavírus vai custar muito milhares de milhões de euros, sobretudo com a paralisação económica de muitos setores na China. Além disso, os EUA impuseram fortes restrições, proibindo a entrada de estrangeiros que tenham estado na China. Uma "guerra" comercial desnecessária, diz a China, mas como o coronavírus e a sua contenção ainda estão por concluir, há quem considere sensatas as posições norte-americanas.

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