Cela do EPL, maio de 2026.
Cela do EPL, maio de 2026.FOTO: DR

Que anda Portugal a dizer à Europa sobre as condições no EPL, pergunta Bloco

O protesto ocorrido esta segunda-feira no Estabelecimento Prisional de Lisboa, e que obrigou o diretor da prisão a uma reunião com os reclusos, leva BE a questionar Governo sobre o cumprimento das decisões do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e a informação que o país está obrigado a dar ao Conselho da Europa sobre o estado das prisões portuguesas.
Publicado a

A ameaça de greve de fome dos reclusos da Ala B do Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL) noticiada esta segunda-feira, num protesto contra as condições degradantes em que vivem e do qual resultou uma reunião de urgência com o diretor da prisão, assim como as imagens, divulgadas pelo DN, de celas exíguas, inundadas, cheias de bolor e com sanitas à vista das camas, levam o deputado único do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, em pergunta endereçada ao ministério da Justiça, a questionar que informação vai o país apresentar sobre a evolução das condições nesta prisão ao Conselho da Europa na reunião sobre Direitos Humanos que terá lugar no início de junho.

Nessa reunião, a “1563.ª reunião (Direitos Humanos) dos Delegados dos Ministros do Conselho da Europa, agendada para 9 a 11 de junho de 2026”, como refere o deputado, serão "apreciadas as questões pendentes relativas a Portugal em matéria prisional", nomeadamente relativas ao "problema estrutural de sobrelotação do parque prisional", diagnosticado pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) nas várias condenações de que o país ali tem sido alvo desde 2019, condenações que impõem, além do pagamento de indemnizações aos queixosos (que ultrapassaram já o milhão de euros), o cumprimento de recomendações exaradas pelo TEDH.

Cela do EPL, maio de 2026.
“Há prisões que seriam impróprias até para animais”

Para atestar que está a cumprir as recomendações, Portugal tem de periodicamente apresentar planos de execução ao Comité de Ministros do Conselho da Europa, relatando a evolução da situação. Porém, se a desativação do EPL, há muito prevista, tinha sido aprazada para 2026 — a ministra da Justiça apresentou agora  2028 como nova data para o efeito —, a lotação da penitenciária, que em 31 de dezembro era de 98,4%, a 1 de fevereiro deste ano, segundo o comunicado pelo país ao Conselho da Europa, era já de 115,4%. Isto significa que, ao contrário do que era suposto acontecer -- o progressivo esvaziamento do EPL --, a entrada de reclusos, condenados e preventivos, se intensificou.

Pelo que uma das questões colocadas por Fabian Figueiredo ao Governo, num documento ao qual o DN teve acesso, é justamente "que decisões foram tomadas, ou estão em vias de o ser, quanto ao limite de admissão de novos reclusos no EPL, em particular de presos preventivos, à luz do princípio afirmado pelo Conselho da Europa no Livro Branco sobre Sobrelotação Prisional (...), de que ocupações superiores a 90% da lotação configuram uma situação de alto risco?"

E frisa: "A circunstância de o EPL continuar a receber novos reclusos (…) expõe o Estado Português à reiteração das violações que estão na origem das condenações no TEDH, designadamente quanto ao espaço mínimo por recluso e à privacidade da zona sanitária em celas de ocupação múltipla.”

Cela do EPL, maio de 2026. Notória a inexistência de divisória entre sanita e zona de camas. Essa é uma das causas de condenação de Portugal pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos, pela falta de privacidade que implica numa cela não individual, como é o caso da destas imagens, ocupada por dois reclusos.

Pelo que o parlamentar pergunta: "Qual o ponto de situação, com indicação de datas e metas verificáveis, do novo calendário de desativação do EPL, e que medidas concretas se encontram previstas para mitigar, no período transitório até ao seu encerramento efetivo, as condições materiais qualificadas como degradantes pelo Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura [Provedoria da Justiça] e pelo Comité Europeu de Prevenção da Tortura?”

Recorde-se que esta segunda-feira, com base em informações transmitidas de dentro da prisão, o DN noticiou que na reunião que o diretor do EPL teve com representantes dos reclusos foi comunicado pelos responsáveis que não há muito a fazer quanto à sobrelotação porque “não têm onde pôr-nos. Disseram-nos que os tribunais estão a mandar muitos presos preventivos para o sistema. E também dizem que não têm guardas que cheguem.”

Também para o estado decrépito dos alojamentos e zonas de duches, atestado nas imagens publicadas pelo DN e há muito denunciado nos relatórios do MNP, que fala de “extrema degradação”, e do facto de “o iminente encerramento do EP tem sido invocado como justificação para a não realização de investimentos no edificado”, parece não haver solução à vista, já que quando os reclusos sugeriram serem eles a fazer obras desde que lhes dessem o material necessário, a resposta terá sido "era uma boa medida mas não pode ser por falta de guardas, e porque o orçamento não chega.”

Balneário da Ala B do EPL, onde estarão cerca de 230 reclusos. Estes queixam-se de que há nas zonas de chuveiro, além de bolor como o que se vê nas imagens, fios elétricos expostos.

EPL continua a violar normas mínimas

Sendo uma das razões das condenações reiteradas de Portugal no TEDH o facto de as celas nas prisões portugueses, e nomeadamente no EPL, não terem o mínimo de espaço regulamentar por recluso — o Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura (MNP) relata que há celas nas quais para dois reclusos estejam em pé, os outros têm de estar deitados — nem a divisória, obrigatória nos alojamentos coletivos, entre a zona sanitária e a zona de descanso/estar, Fabian Figueiredo questiona: "Que diagnóstico tem o Governo sobre o incumprimento reiterado, no EPL, dos parâmetros mínimos de espaço por recluso e de separação efetiva entre a zona sanitária e a zona de descanso em celas de ocupação múltipla, parâmetros cuja violação tem sido a principal causa das condenações de Portugal no TEDH, e que medidas imediatas estão previstas para os assegurar?”

O deputado único do BE também nota que as queixas apresentadas pelos reclusos, tal como foram noticiadas pelo DN — degradação acentuada das celas e dos balneários, com humidade, infiltrações, inundações com águas residuais, ausência de divisória entre a zona sanitária e a zona de descanso em celas de ocupação dupla, e fios elétricos expostos na zona dos chuveiros, à insuficiência de produtos de higiene básica (queixam-se de que lhes dão um rolo de papel higiénico por recluso a cada 15 dias), fragilidades no acesso a cuidados de saúde e disfunções no regime de visitas e de comunicações com o exterior —, “não constituem matéria nova nem isolada. Confirmam, na sua essência, um conjunto convergente de avaliações produzidas por instâncias nacionais e internacionais com mandato de monitorização independente.”

Imagem captada numa cela do EPL em maio de 2026, com vísiveis sinais de humidade junto à cama.
Imagem captada numa cela do EPL em maio de 2026, com vísiveis sinais de humidade junto à cama. DR
Sanita de uma das celas do EPL, maio de 2026.
Sanita de uma das celas do EPL, maio de 2026.DR

E lembra: “A convergência de fontes, Provedor de Justiça/MNP, Comité para a Prevenção da Tortura do Conselho da Europa [CPT], TEDH, Comité de Ministros do Conselho da Europa, DGRSP, desenha um quadro em que os reclusos do EPL apresentam motivos objetivos para o protesto e em que o Estado Português está sujeito a um escrutínio internacional acrescido. Importa sublinhar que a recomendação do CPT, no sentido de que a previsão de encerramento de um estabelecimento prisional não desonera o Estado do dever de assegurar condições materiais dignas durante o período em que o estabelecimento continua em uso, é um princípio jurídico claro, decorrente do artigo 3.º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos e do artigo 25.º, n.º 1, da Constituição da República Portuguesa.”

Falta de cuidados médicos e agressões silenciadas

Nas suas questões, o parlamentar aborda também a questão dos maus-tratos perpetrados sobre os reclusos, que levaram, em 2024, a Provedoria de Justiça a apresentar, com base na informação recolhida nas visitas às penitenciárias e evidência vídeo, oito queixas-crime ao Ministério Público (relativas a agressões por guardas-prisionais ocorridas em várias penitenciárias, incluindo o EPL), e a chamar a atenção para a necessidade de cobertura integral, por videovigilância, das áreas comuns, assim como de uso de câmaras corporais pelos guardas prisionais, igualmente objeto de recomendação por parte do Comité Europeu para a Prevenção da Tortura.

Cela do EPL, maio de 2026.
Provedora de Justiça participou ao MP oito casos de agressões a reclusos em 2023

A esse propósito, Fabian Figueiredo pergunta: “Que medidas concretas estão a ser executadas no EPL para assegurar a cobertura integral do sistema de videovigilância nas zonas comuns sem cobertura, identificadas pelo MNP como espaços onde se concentram alegações reiteradas de maus-tratos, e qual o calendário de aquisição e distribuição de câmaras corporais (bodycams) a elementos do corpo da guarda prisional, recomendada quer pelo MNP quer pelo CPT?”; “Que medidas estão a ser tomadas para corrigir as falhas, sinalizadas pelo CPT no relatório de 2025, na comunicação ao Ministério Público, pelos estabelecimentos prisionais e pelos serviços inspetivos, de casos suscetíveis de configurar a prática dos crimes previstos nos artigos 243.º e 244.º do Código Penal [Tortura e outros tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos] por agentes do Estado, e quantos processos de inquérito por uso de meios coercivos e por alegada agressão de funcionário a recluso foram instaurados no EPL nos anos de 2024 e 2025, com indicação do respetivo desfecho?”

Cela do EPL, maio de 2026.
Prisões e tortura: até no hospital se ignoram agressões

Por fim, o deputado quer saber “quantos reclusos do EPL viram, em 2024 e 2025, consultas hospitalares externas adiadas ou canceladas por indisponibilidade de meios de escolta, e que solução estrutural, nomeadamente a constituição das equipas móveis de vigilância sugerida pelo MNP, está a ser ponderada para garantir, sem dependência da disponibilidade pontual de cada estabelecimento, o acesso atempado a cuidados de saúde fora do meio prisional?”

Cela do EPL, maio de 2026.
Reclusos ameaçam: “Se nada mudar vai haver greve de fome no EPL. Não dá para continuar assim” (com vídeo)
Cela do EPL, maio de 2026.
Reclusos do EPL em protesto. Diretor da prisão aceita reunião de urgência
Diário de Notícias
www.dn.pt