A Polícia Judiciária (PJ) vai lançar uma campanha de prevenção do discurso de ódio e da radicalização online de jovens e crianças. A apresentação será feita já nesta terça-feira no âmbito de uma conferência que decorrerá na sede desta Polícia, sob o tema “Prevenção da Radicalização Online de Crianças e Jovens”, com a participação de vários investigadores da PJ, peritos internacionais, mas também outros intervenientes das áreas da psicologia, apoio às vítimas e educação.Patrícia Silveira, diretora da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ - que investiga esta criminalidade - explicou ao DN os motivos deste alerta: “ A problemática da radicalização de crianças e jovens em ambiente online constitui atualmente um dos maiores desafios para a segurança interna do espaço europeu, exigindo uma abordagem integrada e coordenada entre as diferentes estruturas oficiais do Estado, a sociedade civil e entidades do setor privado nas suas diversas vertentes, que se traduz necessariamente na intervenção em diferentes áreas de ação e de conhecimento”, sublinhou.Neste contexto, esta campanha tem como objetivo “alertar as crianças e jovens, bem como os pais e educadores, para certas realidades que existem online e os riscos daí decorrentes, também no mundo físico”..“Na nossa experiência, o ódio tem, por regra, um papel extremamente relevante no processo de radicalização de crianças e jovens online”Patrícia Silveira, diretora da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ. E de que realidade em concreto estamos a falar em Portugal, questionamos. “Na nossa experiência, o ódio tem, por regra, um papel extremamente relevante no processo de radicalização de crianças e jovens online”, começa por dizer Patrícia Silveira. Acrescenta que, nesse âmbito “os autores exploram sentimentos e vulnerabilidades variados das vítimas, por exemplo, de ausência de pensamento crítico, isolamento social, de solidão, exclusão, inveja, problemas de saúde mental (espectro do autismo, ansiedade e depressão), fascínio pela violência e incitam ao ódio, gerando consequentemente a prática de atos de violência física por parte das vítimas, quer contra si próprias (automutilação), quer contra terceiros (no limite o homicídio), quer contra animais”.A diretora da UNCT revela que um dos casos que vai ser apresentado na conferência “reúne todas estas vertentes”, Trata-se de um caso real que “serve de espelho e de aviso para muitas famílias que podem estar a ignorar sinais de alerta silenciosos”. Patrícia Silveira lembra que “os algoritmos funcionam como “câmaras de eco” que validam o ódio”. .Os jovens não são apenas alvos; são muitas vezes capturados através da sua própria solidão. Queremos que eles percebam que o que começa como um videojogo ou um fórum de partilha de memes pode transformar-se rapidamente numa espiral de violência real.Patrícia Silveira, diretora da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ. “Os jovens não são apenas alvos; são muitas vezes capturados através da sua própria solidão. Queremos que eles percebam que o que começa como um videojogo ou um fórum de partilha de memes pode transformar-se rapidamente numa espiral de violência real", completa.Aumentam os jovens envolvidos em atos extremistas violentosA PJ pretende, assim, “alertar as crianças e jovens, bem como os pais e educadores, para certas realidades que existem online e os riscos daí decorrentes, também no mundo físico”. O objetivo principal “é quebrar o isolamento”. “Queremos capacitar pais e professores para que saibam ‘ler’ os sinais: uma mudança súbita de vocabulário, o isolamento excessivo ou a adoção de ideologias extremistas disfarçadas de ironia. Pretendemos alertar para determinados comportamentos e prevenir que as crianças e jovens se radicalizem, no silêncio dos seus quartos, e sigam por um caminho de difícil ou sem retorno. Gostaríamos que esta conferência fosse o ponto de partida para um compromisso nacional onde a segurança digital seja vista como uma questão de segurança interna”, sustenta esta responsável..Decisão histórica. Membro da extrema direita que incitava ao ódio fica em prisão preventiva. O ponto de partida para a organização da conferência e para a decisão sobre a campanha é “o número crescente de jovens, incluindo menores, envolvidos na preparação ou execução de atos extremistas violentos, confirmado pelos mais recentes relatórios da EUROPOL e dos Estados-Membros da União Europeia”, facto que “veio alertar para a necessidade de implementação urgente de medidas efetivas de prevenção específica do fenómeno da radicalização de crianças e jovens ao nível do espaço europeu”. Tendo em conta a enorme variedade das plataformas digitais existentes, a que se soma a Inteligência Artificial e uma vez que é impossível monitorizar e controlar todos os conteúdos, “é imperativo definir e implementar estratégias e mecanismos de mitigação dos principais fatores de risco associados aos processos de radicalização online”. Nomeadamente, concretiza Patrícia Silveira, medidas que passam “pela sensibilização dos prestadores de serviços para a necessidade de moderação e redução de conteúdos de extremistas violentos online, reforço da literacia digital e das boas práticas na utilização de plataformas digitais por parte das crianças e jovens, pais e educadores, e promoção dos processos de sinalização a nível local com aplicação de medidas reforçadas de apoio a indivíduos ou grupos potencialmente mais vulneráveis”.Em várias das suas recentes intervenções públicas, o diretor nacional da PJ, Luís Neves, tem enfatizado a sua preocupação com a violência, os extremismos e discurso de ódio nestas faixas etárias. “Trata-se de um fenómeno particularmente grave e preocupantemente crescente, sobretudo nas camadas mais jovens. Temos vindo a assistir nos meios digitais à difusão de propaganda assente na manipulação, nas fake news, de mensagens de ódio que visam a diversidade do ser humano, fenómeno que estamos a combater”, disse em entrevista ao DN, publicada para assinalar o 80º aniversário da Judiciária..Temos tido vários casos de jovens radicalizados, quase todos investigados na área dos extremismos, em fases muito precoces da prática de crimes graves.Luís Neves, diretor nacional da Polícia Judiciária. “Nas redes sociais há hoje uma violência verbal tremenda, uma violência contra todas as formas de diversidade humana: de género, de raça, de religião, de opinião política. Vemos assomos de masculinidade tóxica que perseguem mulheres só por serem mulheres; ataques raciais, religiosos, ideológicos. Isso está a crescer e a transbordar para a violência quotidiana, individual e coletiva. (…) E preocupa-me especialmente o facto de estar a surgir cada vez mais entre os jovens. (…) Temos tido vários casos de jovens radicalizados, quase todos investigados na área dos extremismos, em fases muito precoces da prática de crimes graves”, avançou. .RASI. “Apagão” da extrema-direita aprovado por polícias, secretas e governo. Concluiu, lembrando o caso do jovem de 17 anos, do norte do país, detido pela PJ em maio passado, “que esteve na origem da radicalização de jovens no Brasil , que depois cometeram homicídios em escolas, mass shootings, abusos sexuais e mutilações de raparigas de 10, 12, 14 anos, tudo difundido em imagens pela internet”.