Fachada da clínica Ovom Care, em Cascais, que fechou a 28 de agosto, após declaração judicial de insolvência, lançando dezenas de pacientes no desespero.
Fachada da clínica Ovom Care, em Cascais, que fechou a 28 de agosto, após declaração judicial de insolvência, lançando dezenas de pacientes no desespero.Foto: Leonardo Negrão

Clínica de fertilidade falida: "250 mil euros não apagam o mal causado", dizem pacientes

Surpreendidos pelo anúncio, esta segunda-feira, por parte da administradora da Ovom Care, declarada insolvente em agosto, da disponibilização de 250 mil euros para ressarcir quem pagou à cabeça tratamentos não prestados, pacientes dividem-se entre alívio e fúria: dinheiro, dizem, não chega, nem apaga o mal feito.
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"Uma oferta de 250 mil euros não limpa o caos que criaram. Especialmente quando o relatório de insolvência prova que os créditos reclamados pelos pacientes excedem 330 mil euros, o que significa que oitenta mil euros do nosso dinheiro desapareceram."

As palavras são da britânica Michelle, paciente da clínica de fertilidade Ovom Care -- que faliu de surpresa no final de agosto --, em reação à notícia do DN desta segunda-feira sobre o anúncio da administradora da empresa, Felicia Von Reden, de que se compromete, em conjunto com o fundo de capital de risco Merantix, a ressarcir, até um total de 250 mil euros, os pacientes que, como Michelle, se viram, de um momento para o outro, sem o dinheiro que haviam pagado por tratamentos de fertilidade e sem os tratamentos. Sendo que, como este jornal tinha já noticiado e Michelle refere, a quantia fica aquém do total de créditos reclamados pelos pacientes.

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Para Michelle, aliás, ainda que o valor anunciado fosse o suficiente para ressarcir os pacientes até ao último cêntimo, não chegaria: "Um reembolso financeiro básico não apaga a desilusão devastadora e o imenso trauma emocional infligido àquelas de nós que confiaram nesta clínica para cumprir os nossos sonhos mais profundamente pessoais. Isto foi uma traição profunda da confiança humana; eles usaram a nossa vulnerabilidade como arma, tratando as nossas esperanças de construir uma família como nada mais do que uma mercadoria descartável. Devolver dinheiro por consultas e tratamentos cancelados é um gesto vazio e insultuoso."

Para esta britânica de 42 anos, não estão apenas em causa os cerca de 15 mil euros que entregou à Ovom Care por vários ciclos de fertilização assistida mais os cinco mil euros que, com o marido, gastou em viagens e estadas em Portugal. Para ela, como para várias outras mulheres que estavam a ser seguidas na clínica, o fator tempo é fulcral: a janela de fertilidade está a fechar-se e a interrupção de tratamentos que haviam pagado integralmente à cabeça pode significar que perderam a última oportunidade para conseguir engravidar.

Mas nem todas as ex-pacientes da clínica com quem o DN falou reagem desta forma. Se todas concordam que o mal causado vai muito para além da perda financeira, subscrevendo e aplaudindo a explosão de Michelle, há também quem demonstre alívio ao receber a informação de que pelo menos uma parte do que pagou lhe será devolvido, congratulando-se com o facto de haver responsáveis das Ovomcare -- a clínica portuguesa e a empresa-mãe alemã, tecnológica do ramo da saúde criada com o objetivo declarado de criar um modelo de Inteligência Artificial aplicado à procriação medicamente assistida em cujo conselho de administração têm assento representantes de vários fundos de capital de risco -- que não se limitam a pedir desculpa e estão dispostos a abrir os cordões às respetivas bolsas.

É exatamente nesse sentido que vai a "declaração pessoal dirigida aos antigos pacientes da Ovom Care" lida pela advogada de Felicia Von Reden na assembleia de credores que teve lugar na manhã desta segunda-feira. "Palavras de desculpa têm um alcance limitado", reconhece a financeira alemã de 29 anos, que ficou internacionalmente conhecida pelo lançamento da Ovom Care, em 2025, como tecnológica da área da saúde com um investimento inicial de 4,8 milhões de euros. "A nossa prioridade continua a ser o bem-estar dos pacientes, para que possam prosseguir o seu percurso de fertilidade o mais rapidamente possível. Porque acreditamos que é o correto a fazer, eu, juntamente com os sócios da Merantix, o primeiro investidor da Ovom Care, comprometemo-nos a disponibilizar 250.000 euros de fundos privados para reembolsar os pacientes relativamente a serviços que não foram prestados, incluindo as partes não realizadas dos tratamentos pagos."

A financeira alemã Felicia von Reden, administradora da Ovom Care alemã e da empresa portuguesa, num vídeo de maio no Instagram da empresa-
A financeira alemã Felicia von Reden, administradora da Ovom Care alemã e da empresa portuguesa, num vídeo de maio no Instagram da empresa-DR

Frisando que esses pagamentos são "incondicionais", não tendo quem os recebe de assinar "cláusulas de confidencialidade nem renunciar a quaisquer outros direitos ou créditos", o documento informa sobre o processo: "A equipa jurídica entrará em contacto com os pacientes para confirmar os montantes pagos relativamente a serviços não prestados, verificar os dados necessários e organizar os respetivos reembolsos." Para que não haja duplicação, prossegue, "o Tribunal e o Administrador da Insolvência serão mantidos informados" e os pagamentos efetuados "devidamente registados para que os créditos correspondentes reflitam com exatidão os montantes reembolsados".

Só um dos financiadores se compromete a ressarcir pacientes

Esta informação parece indicar que o ressarcimento em causa não se vai ater exclusivamente ao rol de pacientes que se apresentaram como credores, num total de 72 reclamações, junto do administrador da insolvência, incluindo todos os que pagaram adiantado tratamentos que não receberam, mas o DN não conseguiu esclarecer essa questão com a representante legal de Von Reden, a advogada Filipa Cotta. Tão-pouco foi possível obter resposta à pergunta sobre como será calculada, uma vez que o dinheiro não chega, a parte de cada paciente no bolo total disponibilizado. A causídica limitou-se a enviar ao jornal a declaração de Von Reden, sem responder a quaisquer perguntas.

Também Felicia Von Reden -- que no início de setembro concedeu ao DN a sua única entrevista pós-declaração de insolvência, na qual perguntou o que poderia fazer para melhorar as coisas, tendo-lhe sido respondido que a única coisa a fazer era devolver o dinheiro dos tratamentos não efetuados -- manteve silêncio face aos contactos mais recentes do DN. O mesmo se aplica a Adrian Locher, o CEO do fundo Merantix, membro do conselho de administração da Ovom Care alemã e que se havia disponibilizado para responder às perguntas do jornal, pedindo que lhe fossem enviadas por escrito, mas nunca o fez.

No questionário enviado a Locher a 3 de setembro, o DN citava uma das pacientes: "Se algum deles [os responsáveis da Ovom] tivessem uma réstia de consciência ética, iriam ao respectivo bolso para ressarcir todas as mulheres que, nas últimas semanas da vigência da clínica, pagaram tratamentos que a Ovom sabia que não iria providenciar". Atendendo à declaração de Von Reden aos credores da clínica, Locher, que acaba de anunciar a criação de um fundo de 103 milhões de euros para investir em aplicações práticas da Inteligência Artificial na Europa e não estará interessado em má publicidade, decidiu fazer o que a paciente sugeriu.

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Já os demais financiadores da tecnológica alemã -- Alpha Intelligence Capital e Ananda Impact Ventures --, igualmente fundos de capital de risco e com lugar no respectivo conselho de administração, nunca deram troco aos contactos do DN. Ao jornal britânico The Independent, que a 27 de setembro fez manchete com a falência da clínica), enviaram uma declaração na qual confirmam ter investido na Ovom Care entre 2023 e 2026 e recusam comentários sobre a insolvência.

Primeira página do The Independent de 27 de setembro, com manchete dedicada à falência da clínica de fertilidade de Cascais-
Primeira página do The Independent de 27 de setembro, com manchete dedicada à falência da clínica de fertilidade de Cascais-

Porém parece evidente, lendo o relatório do administrador de insolvência da empresa portuguesa e conjugando-o com a assunção de Felicia Von Reden, na citada entrevista ao DN, de que estava "à espera de um financiamento que não se concretizou", que a decisão de encerrar a clínica em Portugal se deveu ao facto de os fundos referidos terem recusado, eventualmente por considerarem que a aposta no modelo de IA falhara, continuar a injetar dinheiro no projeto. Daí que o pedido de insolvência da empresa alemã tenha precedido o da empresa portuguesa, que, como documenta o relatório, dependia da sede em termos de financiamento, tendo dela recebido, desde a sua criação, em 2025, mais de 600 mil euros.

"Esta oferta é uma jogada para calar a nossa revolta"

A questão primordial é, como escreve o administrador da insolvência, Bruno da Costa Pereira, no seu relatório, que o projeto Ovom foi desenvolvido numa “lógica predominantemente tecnológica”, e “financiada numa lógica de capital de risco/ venture capital”, e “não na lógica de uma clínica médica tradicional, construída e gerida em torno da sustentabilidade financeira própria da sua atividade assistencial”. Pelo que nem o facto de a empresa portuguesa estar, ao fim de pouco mais de um ano de funcionamento, com resultados operacionais positivos, a podia salvar.

A Ovom, resume Michelle, "foi tratada como uma startup tecnológica descartável e não como uma unidade de saúde que lida com vidas humanas. Utilizaram táticas de marketing predatórias como o 'No Baby, No Fee' [Não há bebé, recebe o dinheiro de volta] para nos atrair, apenas para nos fecharem as portas na cara a meio dos tratamentos. Se o objetivo fosse realmente o publicitado -- 'revolucionar a fertilização in vitro' -- teriam usado os recursos pessoais para proteger os doentes, em vez de abandonarem o barco no momento em que o capital de risco secou."

E a ex-paciente da Ovom prossegue, num transporte de fúria: "Acredito que esta 'oferta' repentina é uma jogada tática e calculada para calar a nossa revolta, um suborno cínico para comprar o nosso silêncio e impedir que as pessoas continuem a escavar. É exatamente por isso que uma ação judicial coletiva, liderada pelo advogado José Gaspar Schwalbach, é tão vital. Queremos o levantamento do véu societário, porque estes indivíduos têm de ser responsabilizados pessoal, financeira e legalmente. Não podem esconder-se atrás da estrutura de uma empresa falida enquanto deixam um rasto de destruição humana, engano e dor na sua passagem. Este nível de comportamento comercial predatório tem de ser publicamente investigado pelas autoridades regulatórias internacionais para assegurar que este modelo não pode voltar a ser infligido a outras famílias vulneráveis, em nenhum país, nunca mais."

O encerramento precipitado da Ovom implicou também, como foi noticiado, que durante mais de um mês quem tinha materiais biológicos -- embriões, gâmetas -- armazenados na clínica desesperou sem saber se este estava a salvo, já que não havia meio de aparecer a documentação médica que tinha de os acompanhar na transferência para outra clínica (nos termos da lei, uma empresa deste ramo tem de ter um protocolo com uma "clínica de backup" para onde, em caso de fecho repentino, vai o referido material). Como relatou ao DN Vladimiro Silva, diretor executivo da Clínica Ava, sita em Lisboa, para a qual o material foi enfim transferido, houve ex-pacientes da Ovom a quem teve a ingrata tarefa de informar que as células que acreditavam ter armazenadas não existiam.

Acresce ainda que as pacientes que querem continuar os tratamentos noutros países, nomeadamente no Reino Unido, não conseguiram ainda obter autorização do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, o órgão regulatório nacional desta área, para a exportação do material biológico que tinham na Ovom.

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