Clínica de fertilidade falida: CEO anuncia que vai devolver dinheiro a pacientes
Quando a 2 de setembro o DN entrevistou Felicia Von Reden, a financeira alemã responsável pela clínica de fertilidade Ovomcare, sita em Cascais, que encerrara abruptamente a 28 de agosto, com insolvência decretada judicialmente, deixando centenas de pacientes em desespero, dezenas dos quais a meio de tratamentos de milhares de euros integralmente pagos à cabeça, a entrevistada perguntou à entrevistadora: "Diga-me, que posso eu fazer para melhorar esta situação?"
A resposta foi a óbvia: restituir às pessoas o que pagaram; dizer aos responsáveis dos fundos de capital de risco — nomeadamente Merantix, Alpha Intelligence Capital, Ananda Impact Ventures — que tinham financiado a empresa e, aparentemente, decidiram cortar o financiamento de um dia para o outro, sem sequer permitir o pré-aviso de seis meses a que este tipo de clínica está obrigado pela lei, que resolvessem o problema que tinham criado. Na altura, Felicia, que durante a entrevista pareceu estar a chorar, garantindo estar "de coração partido", "devastada pelo stress, pela dor, por tudo o que a situação causou às pacientes", e temer que a considerassem "um monstro horrível", balbuciou: “Vou levar essa mensagem comigo. Obrigada por me dar a oportunidade de falar.”
Esta manhã, na assembleia de credores da Ovomcare que teve lugar no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste, a representante legal de Felicia Von Reden comunicou que a sua cliente se compromete a devolver 250 mil euros aos pacientes da clínica. Trata-se, explicou a advogada de Von Reden, de uma restituição efetuada não pela empresa mas pela própria, destinado exclusivamente a pacientes que pagaram tratamentos não efetuados.
O valor não é, porém, suficiente para ressarcir a totalidade dos pacientes defraudados: de acordo com o relatório do administrador da insolvência, conhecido a 6 de outubro, são 72 as reclamações de crédito de pacientes, correspondendo a 332 747 euros.
Como o DN reportou, com base no citado relatório, a empresa praticamente não tem bens: por junto, no banco e em caixa, possuía 12 mil e poucos euros; a generalidade dos equipamentos constantes nas instalações estava em contrato de locação/leasing e terá de ser devolvido. Havendo credores privilegiados — os 12 funcionários da clínica, aos quais esta deve mais de 134 mil euros —, nada restará para os pacientes, até porque, como se constata no relatório da insolvência, os bens passíveis de ser vendidos para custear as dívidas são de baixo valor.
Os créditos reclamados pelos pacientes, de várias nacionalidades, nas quais predomina a britânica, variam entre centenas de euros e mais de vinte mil (caso de um casal britânico), havendo também, como o DN já noticiou, um conjunto de pacientes que, representados pelo advogado José Gaspar Schwalbach, da secção de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados, exigem, além do valor dos tratamentos que pagaram adiantado, também o que tiveram de pagar para continuar a terapêutica noutras clínicas e indemnizações por danos não patrimoniais, num total de 143 mil euros.
"É importante esclarecer a responsabilidade de quem administrava"
Em declarações ao DN, José Gaspar Schwalbach regista "positivamente a iniciativa", mas nota que se trata de uma quantia "manifestamente insuficiente perante os prejuízos sofridos perante a totalidade dos créditos reclamados por pacientes." E prossegue: "O reconhecimento dos créditos foi um primeiro passo. O nosso objectivo continua a ser assegurar que os pacientes sejam efectivamente ressarcidos e que todas as responsabilidades sejam devidamente apuradas, tendo em conta que não falamos apenas de dinheiro, mas de projectos de maternidade em curso que foram prejudicados. É esta a análise que começa agora. (...) É importante esclarecer as circunstâncias que conduziram à insolvência, nomeadamente a eventual responsabilidade de quem administrava a sociedade - as mesmas pessoas que administravam a Sociedade alemã com o mesmo nome."
O advogado refere-se precisamente a Felicia Von Reden, que era ao mesmo tempo administradora da clínica/empresa portuguesa e da sociedade alemã com o mesmo nome, a OvomCare gmbh, sediada em Berlim, "empresa-mãe" da clínica portuguesa. Da qual a financeira de 29 anos continua a ser CEO, como aliás consta na sua página de Linkedin. Foi aliás ela, como administradora da empresa alemã, lançada em 2022/25 como uma tecnológica da área da saúde com um financiamento inicial de 4,8 milhões de euros e o propósito de desenvolver um projeto de Inteligência Artificial aplicada à procriação medicamente assistida (PMA), a requerer a declaração de insolvência de ambas as firmas: a alemã a 20 de agosto, e a portuguesa no dia seguinte.
O motivo foi, comunicou Von Reden ao DN, "um financiamento que não chegou". Quanto ao facto de não ter sido dado o pré-aviso legal de seis meses anteriormente ao fecho da clínica, e de a mesma ter estado até ao último momento a captar clientes, receber pagamentos e a efetuar tratamentos (como o DN reportou, foi efetuada uma recolha de óvulos no próprio dia do encerramento), a CEO assegura que “foi tudo muito rápido. Tínhamos esperança de que a clínica pudesse continuar, que pudesse ser viabilizada. Quem decide se se fecha ou não é o administrador de insolvência.”
Na Ovomcare alemã, de acordo com o relatório do administrador de insolvência da empresa portuguesa, trabalhavam nove pessoas.
O DN tentou ouvir Felicia Von Reden sobre o anúncio desta manhã, mas até agora não teve resposta.
(em atualização)

