Fachada da Ovom Care, cuja gerente, a norte-americana Lynae Brayboy, enviou a 24 de agosto uma mensagem às pacientes avisando que os novos tratamentos iam ser suspensos. Foi a última vez que souberam dela.
Foto: Leonardo Negrão

Clínica de fertilidade em Cascais abre falência. Pacientes em desespero

A lei da procriação medicamente assistida vigora há 20 anos e nunca tinha acontecido falir uma clínica. Aconteceu agora com a Ovom Care, que abriu em 2025 em Cascais, com financiamento de capital de risco, e fechou de um dia para o outro, sem avisar previamente pacientes nem, como é obrigatório, as autoridades de saúde.
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Quando a 26 de abril a galesa Rachel Drasey e o marido, Anthony Jones, pagaram 9500 euros à Clínica de Fertilidade Ovom Care, sediada em Cascais, por um pacote de “múltiplos ciclos de tratamento, com a garantia de que, se não obtivéssemos uma gravidez bem-sucedida ao final dos três ciclos, receberíamos 75% do valor de volta”, estavam muito longe de imaginar que, dias antes da data aprazada para Rachel receber o único embrião viável que resultou do primeiro ciclo de tratamentos, lhes chegaria, de chofre e numa sexta-feira à tarde, a notícia de que a clínica tinha falido.

É no dia seguinte, sábado — este sábado — que Rachel fala com o DN, dando conta do seu imenso desalento. “O nosso embrião está na clínica e não fazemos ideia de quais os passos a seguir. Também pagámos um valor extra pelo pacote de múltiplos ciclos [ou seja, de múltiplas colheitas de óvulos, fecundação, análises e implantação], algo que, obviamente, não vamos poder usar. Estamos a tentar perceber que opções temos.”

Rachel, de 38 anos, agente policial, tinha sofrido já três abortos espontâneos ao longo de um ano, sem causa identificada, quando decidiu optar pela procriação medicamente assistida (PMA), para tentar, através de análise prévia dos embriões, reduzir o risco de outro aborto. Fez colheita de óvulos em maio na Ovom Care e a implantação do embrião viável foi marcada para julho — porém a clínica adiou alegando que era preciso deitar uma parede abaixo e ia fechar nessa altura. 

Em agosto houve novo adiamento porque o endométrio (revestimento do útero) de Rachel não estava a engrossar como devia, e por fim o procedimento foi marcado para setembro. Esta sexta à tarde, porém, tudo ruiu. Quando fala com o DN, Rachel nem sequer sabe quando e como poderá ter acesso ao seu embrião, ou como poderá proceder à implantação, já que terá de o fazer noutra clínica, e pagando — de novo — pelo procedimento.

No grupo de mulheres com quem o DN falou, na sua maioria britânicas — explicam que os preços em Portugal são bastante mais baixos que no seu país, onde este tipo de tratamento custa à volta do triplo, e que mesmo com viagens e estada sai mais barato fazê-lo no estrangeiro — o sentimento é um misto de desespero e revolta. A maioria chegou à Ovom Care através do respetivo Instagram, onde se garante que o laboratório funciona com “a tecnologia mais avançada da Europa” e se lê: “E se só pagasse o preço total pela fertilização in vitro se funcionar?” 

Outro factor relevante para várias das mulheres que escolheram a Ovom Care é, além dos preços e da certificação do uso de Inteligência Artificial no processo, tratar-se de uma empresa fundada e dirigida por mulheres. São elas a alemã Felicia von Reden (eleita pela revista Forbes, em junho de 2025, quando a Ovom era avaliada em 22 milhões de dólares/19 milhões de euros e atraíra alegadamente oito milhões de dólares em investimento de fundos de capital de risco, uma das mais importantes 30 empreendedoras com menos de 30 anos), a britânica Cristina Hickman (que chegou a ser a gestora da clínica portuguesa mas saiu no final de 2024, por destituição) e a norte-americana Lynae Brayboy

"Gostaria de ter respostas em relação a esta situação — o que acontece a pacientes como eu quando uma clínica de fertilidade entra em liquidação? O que nos protege?”
Leanne, paciente da Ovom Care

É justamente Brayboy, que se apresenta como obstetra, ginecologista e especialista em endocrinologia reprodutiva e fertilidade, e segundo os atos societários da Ovom em Portugal é a atual gestora (não tendo respondido ao contacto do DN), que encontramos no último vídeo promocional postado no Instagram da clínica, a 20 de agosto. Ou seja, cinco dias antes de o Juiz 3 da Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste ter proferido “sentença de declaração de insolvência da Ovomcareportugal Unipessoal” entregando a gestão e liquidação a um gestor de insolvências e decretando um prazo de 30 dias para reclamação dos créditos. 

Particularmente curiosa é outra informação constante na folha A4 com a informação da insolvência que se encontra afixada na porta da clínica: o credor responsável pelo processo de insolvência é nem mais nem menos que a Ovom Care Gmbh — ou seja, a sede da empresa, em Berlim, cujo contacto de email é o de Felicia Von Reden, e que, no seu site, designa como representantes esta jovem empresária e Lynae Brayboy.

“É uma situação completamente inédita”

Seria só a 27 de agosto, dois dias depois da sentença do tribunal, que o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA), o órgão regulador desta área médica, viria a ser informado da falência, como revela ao DN o professor catedrático de obstetrícia e ginecologia Carlos Calhaz Jorge. “Soubemos na quinta-feira, pelo gestor de insolvência, desta situação, que é completamente inédita. É muito estranho. Trata-se de um campo em que proliferam as empresas privadas, mas, que eu tenha conhecimento, em 20 anos de PMA em Portugal, nunca aconteceu uma coisa destas, e muito menos com este dramatismo.” 

Aviso do tribunal afixado na porta da clínica, informando da situação de insolvência.
Aviso do tribunal afixado na porta da clínica, informando da situação de insolvência.Leonardo Negrão

Dramatismo desde logo porque, como sublinha este especialista, “está previsto por lei que quando uma clínica de fertilidade encerra a sua atividade deve dar conhecimento ao ministério da Saúde com seis meses de antecedência — para que o assunto seja tratado com paz.” 

Ora a Ovom fechou literalmente de um dia para o outro, sem avisar ninguém — nem, segundo o que o DN apurou, a equipa clínica, que terá sido apanhada tão desprevenida como as pacientes.

Aliás, ainda a 24 de agosto estas receberam uma mensagem da gerente, Lynae Brayboy, na app da Ovom (através da qual se efectuava o contacto com a clínica), com o seguinte aviso: "Para que possamos continuar a oferecer o melhor cuidado aos pacientes já em tratamento, vamos suspender o início de novos ciclos. Se têm uma consulta marcada/completada, e gâmetas ou embriões em importação, ou já receberam as vossas medicações para os ciclos, o início do ciclo está confirmado. Se nada disto aconteceu, o início do ciclo está suspenso. Sabemos que a urgência é importante para vós, mas agradecemos a vossa paciência neste momento."

"É muito estranho. Trata-se de um campo em que proliferam as empresas privadas, mas, que eu tenha conhecimento, em 20 anos de PMA em Portugal, nunca aconteceu uma coisa destas, e muito menos com este dramatismo.” 
Carlos Calhaz Jorge, presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida

O encerramento abrupto e a ausência de esclarecimentos até à última hora é algo que Carlos Calhaz Jorge considera impensável: “Têm a obrigação de entrar em contacto com os lesados e dar-lhes toda a informação necessária.” 

Mas, até ao momento em que o DN publica este texto, o esclarecimento cabal ainda não aconteceu: nos telefones da empresa ninguém atende, nem há resposta a emails; de Lynae Brayboy não houve mais notícias. Este domingo, algumas pacientes (não todas) voltaram a receber uma mensagem na app da Ovom, desta vez com a informação de que os embriões e gâmetas vão ser transferidos para outra clínica de fertilidade, a Ava (situada em Lisboa), sem que seja sequer explicado porquê.

O porquê, como explica ao DN Luís Ferreira, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, é simples: “Quando uma clínica de fertilidade abre, tem de ter um protocolo com outra, para certificar que se houver um acidente, um azar, sei lá, um incêndio, os embriões e gâmetas são transferidos para essa outra clínica.” 

Mas, como frisa o presidente do CNPMA, tal só pode acontecer com autorização do regulador, e mediante o cumprimento das regras. As quais implicam, adianta ao DN Vladimir Silva, diretor da Ava Clinic, que seja a Ovom a fazer a comunicação formal aos pacientes e a enviar toda a documentação relativa àqueles materiais biológicos. 

“Temos de ter a informação clínica para que seja revista pelos nossos médicos, não podemos receber nada sem se ver primeiro a documentação, testes, tudo", esclarece o responsável da Ava. "Estamos à espera de que o administrador de insolvência, neste momento o único representante legal da empresa, nos informe e trate desse envio.”

De acordo com aquilo que já foi comunicado à Ava, prossegue Vladimir Silva, haverá 220 gâmetas e embriões para transferir, e “oito situações em curso” — ou seja, pessoas que precisarão de procedimentos muito brevemente —, mas dessas só uma já decidiu ficar na Ava. “Não sabemos quantas pessoas estão no meio de tratamentos, não nos deram ainda essa informação.” 

Certo é que, frisa Vladimir Silva, a Ava não espera receber da Ovom qualquer quantia para cobrir os custos de procedimentos e de armazenamento de embriões e gâmetas, pelo que se as pessoas quiserem prosseguir ali, terão de desembolsar mais dinheiro. “Enviámos uma lista de preços à Ovom Care para transmitirem aos clientes. Fizemos um preço bastante reduzido por sermos sensíveis à situação, mas não pode ser de graça.”

“A chance tão pequena que tinha de ter um bebé foi-me tirada”

Ainda a digerir o choque do encerramento da Ovom Care, as pacientes da extinta clínica não percebem, porque ninguém lhes explicou, por que motivo têm os seus gâmetas e embriões de ser remetidos para uma clínica que não escolheram e que lhes parece poder estar a tentar lucrar com a sua desdita.

O facto de na sua maioria terem pagado todos os custos à cabeça — algo que, dizem vários especialistas ao DN, não é prática comum no ramo, pelo menos em Portugal — deixa-as numa situação ainda mais aflitiva. 

A inglesa Leanne, 39 anos, é um exemplo particularmente pungente. “Sofro de uma condição pré-cancerosa, e o meu tratamento de fertilidade esteve sempre limitado a uma janela de tempo muito pequena. No ano passado, o meu oncologista disse-me que podia avançar e escolhi a Ovom. Porque era uma opção económica mas também porque era uma empresa dirigida por mulheres — o que me fez crer que ia ser ouvida e compreendida.”

Depois da colheita de óvulos em Portugal, fez um exame em Inglaterra no qual foi detectado o regresso da lesão pré-cancerígena, deixando-a ainda mais ansiosa quanto à possibilidade de tentar a gravidez. “Fiquei devastada, mas recebi que tinha de acelerar. Era suposto poder em setembro receber o único embrião viável que resultou da colheita. Aquele embrião tornou-se incrivelmente precioso para mim e para o meu marido. Representa a hipótese de, apesar de tudo o que enfrentámos, termos um bebé.” 

“Enviámos uma lista de preços à Ovom Care para transmitirem aos clientes. Fizemos um preço bastante reduzido por sermos sensíveis à situação, mas não pode ser de graça.”
Vladimiro Silva, diretor da clinica Ava

E zás, a Ovom faliu. Para Leanne, não é “só perder dinheiro, lidar com o contratempo de uma falência. Sinto que a chance tão pequena que tinha de ter um bebé me foi retirada. Não sei o que vai acontecer a esse embrião que é a minha última oportunidade. E sinto que a minha história levanta questões mais vastas sobre o que acontece quando escolhemos clínicas de fertilidade porque apresentam preços mais baixos, sobretudo quando, como é o meu caso, há condições médicas e de tempo muito específicas. Eu não posso adiar este tratamento para daqui a um ano ou dois. Agi dentro do tempo limitado que tinha e confiei nesta clínica. Gostaria de ter respostas em relação a esta situação — o que acontece a pacientes como eu quando uma clínica de fertilidade entra em liquidação? O que nos protege?

Perguntas para as quais o DN não conseguiu resposta.  

Fachada da Ovom Care, cuja gerente, a norte-americana Lynae Brayboy, enviou a 24 de agosto uma mensagem às pacientes avisando que os novos tratamentos iam ser suspensos. Foi a última vez que souberam dela.
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