Fachada da clínica Ovom Care, em Cascais, que fechou a 28 de agosto, após declaração judicial de insolvência, deixando centenas de pacientes em desespero.
Fachada da clínica Ovom Care, em Cascais, que fechou a 28 de agosto, após declaração judicial de insolvência, deixando centenas de pacientes em desespero.Foto: Leonardo Negrão

Clínica de fertilidade falida. Equipa colheu óvulos em paciente na manhã em que fechou: “Tudo nisto parece fraude”

Nicole, 36 anos, terá sido a última paciente atendida na clínica Ovom Care, em Cascais: quando chegou, a equipa tinha acabado de ser informada do fecho. Como mais de 200 outras pessoas, aguarda notícias do seu material biológico, que ainda não chegara, uma semana depois, à clínica “de retaguarda”.
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Uma semana após o fecho surpresa da clínica Ovom Care, cuja insolvência foi decretada judicialmente a 25 de agosto, os embriões e demais material biológico ali armazenado em tanques de azoto líquido ainda não tinham chegado à unidade privada que, por protocolo obrigatório por lei, os irá receber. Até isso suceder, a britânica Nicole, que na manhã do dia do encerramento da Ovom Care, 28 de agosto, foi sujeita a colheita de óvulos, não poderá saber se algum deles se “aproveitou”.

“Não recebi o relatório que era suposto receber, e no qual me deveriam dizer qual o estado dos óvulos e se tinham podido ser congelados. Não sei se esse relatório existe, nem se tenho óvulos ou não”, diz ao DN, perplexa, esta produtora executiva de podcasts baseada em Londres, cuja mãe vive em Portugal. Foi com ela que Nicole chegou, às 9h27 de 28 de agosto — o dia em cuja tarde todas as outras pacientes receberam a notícia da insolvência e encerramento da clínica — à Ovom Care, em Cascais, para a sua marcação às 9h30. “Não havia ninguém na receção. Parecia um lugar fantasma. De tal modo que a minha mãe disse: ‘Espero que isto não seja um scam [esquema, fraude].” A descrição é acompanhada de uma gargalhada amarga. “De facto, agora que sabemos o que se passou, parece cada vez mais uma fraude.”

Scam, ou fraude, é uma palavra que se tem repetido nas conversas do DN com um grupo de WhatsApp de pacientes. Não só por, tendo pagado os seus tratamentos na Ovom Care “à cabeça”, desembolsando quantias que em vários casos ultrapassam os dez mil euros, se verem agora na situação de ter de voltar a pagar quantias semelhantes se quiserem prosseguir com os mesmos. Também porque várias têm vindo a descobrir que os gâmetas cuja “encomenda” pagaram à Ovom, e que supostamente estariam armazenados na clínica, não terão chegado ali porque esta não pagou às empresas das quais estes deveriam provir. Aliás, na lista de credores da empresa estão, como o DN noticiou, vários bancos de gâmetas.

Também o próprio presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, o professor catedrático de obstetrícia e ginecologia Carlos Calhaz Jorge, disse ao DN no sábado dia 29, quando o jornal, que acabara de tomar conhecimento da insolvência, o contactou, tratar-se de “algo muito estranho, inédito”, notando que a clínica não tinha cumprido a obrigação de avisar as autoridades de saúde seis meses antes de fechar.

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Se há ou não algo de fraudulento, no sentido criminal, na insolvência da clínica — que, como este jornal reportou, era propriedade da empresa alemã Ovom Care, a qual abriu falência a 20 de agosto, tendo requerido no dia seguinte a insolvência da empresa portuguesa, da qual se apresenta como credora — é algo que, por mais que as pacientes se sintam burladas, neste momento não é possível afirmar; só a análise dos fluxos de dinheiro, para a empresa e da empresa, permitirá apurar a existência de indícios. Questionada pelo DN, a Procuradoria-Geral da República esclarece que não localizou qualquer inquérito criminal relativo a esta situação.  

“O médico começou a chorar e disse que a clínica ia fechar”

Mas voltemos à manhã de dia 28 de agosto e à receção da Ovom Care em Cascais, onde Nicole e a mãe estão, atónitas, à espera de que alguém apareça. Resolvendo esticar as pernas, a mãe dá volta ao edifício, avistando, do outro lado, toda a equipa, médico, enfermeiras, etc., em grupo, a falar. Fica alerta: algo se passa.

Por fim, lá vêm ter com Nicole, levando-a para o procedimento, que implica anestesia. Quando sai para o recobro, conta-lhe depois a mãe, ela vem, ainda sob efeito das drogas, a balbuciar: “Vão fechar? Fechar porquê?” 

Aquilo que no momento pareceu uma conversa sem sentido, típica de pós-anestesia, viria afinal a revelar-se o eco daquilo que a equipa terá discutido durante o procedimento. “Depois de a embriologista ter vindo ter comigo para falar da qualidade dos óvulos, que não era ideal, dizendo que eu deveria fazer uma nova coleta, e de uma enfermeira ter comentado que não trabalhava ali, estava ‘como favor’ até ao meio dia — o que achei muito estranho —, fui ter com o médico, o doutor Renato Martins [diretor clínico da Ovom], para falar da nova coleta. Ele estava com uma cara muito preocupada, e pensei que era por causa da má qualidade dos meus óvulos. Mas começou a chorar e disse que a clínica ia fechar nesse dia, que a equipa tinha sido informada naquela manhã.” 

O obstetra e ginecologista, que tem a subespecialidade de medicina reprodutiva, admitiu a Nicole que ele e o resto da equipa clínica estavam há meses sem receber ordenado mas, na maioria, tinham decidido continuar a trabalhar, para atender quantas pacientes pudessem, “porque queriam fazer o que estava certo”. 

O diretor clínico da Ovom Care, Renato Martins, numa imagem constante da sua página de Linkedin. O médico recusou falar com o DN.
O diretor clínico da Ovom Care, Renato Martins, numa imagem constante da sua página de Linkedin. O médico recusou falar com o DN.DR

Nicole acredita que “estivessem a fazer o que consideraram correto e ético”, e diz ao DN que, se alguém tem culpa desta situação, é a gerência da clínica (da qual era responsável a norte-americana Lynae Brayboy, identificada como obstetra, ginecologista e embriologista). Porém, considera, “antes da coleta deveria ter sido informada do que se passava. Consentimento informado é isso — eu consenti numa coleta de óvulos numa clínica que estava a funcionar, e não teria ido para a frente com aquilo se soubesse que iam fechar logo a seguir.”

O DN procurou obter esclarecimento junto de Renato Martins. Este, por interposta pessoa, recusou falar com o jornal, negando no entanto que as coisas se tenham passado da forma descrita por Nicole e garantindo ter “a consciência tranquila”.

Um outro especialista ouvido pelo DN informa que há situações em que, após a estimulação hormonal efetuada pré-colheita, os ovários ficam tão inchados que é necessário retirar os óvulos, sob pena de poder ocorrer uma torção do ovário, emergência médica que dá dores terríveis e representa risco de perda do órgão. Em todo o caso, reconhece, Nicole deveria sempre ser informada, antes do procedimento, de que a clínica ia fechar.  

Quanto ao facto desta paciente, após vários adiamentos da colheita (em julho a Ovom disse-lhe que estavam com demasiado trabalho e não podiam atendê-la) ter sido a 26 de agosto, quando estava em Edimburgo (Escócia) em trabalho, convocada de urgência para o procedimento por Renato Martins, que lhe disse para estar na clínica a 28, o mesmo especialista ouvido pelo jornal diz que pode ter também havido um motivo clínico: há situações em que, a partir da ecografia (Nicole tinha acabado de fazer uma em Edimburgo, a qual fora enviada para a Ovom), o médico percebe que a colheita tem de ser feita de imediato. 

“A Ovom tinha tudo para dar errado”

Sendo certo que, como sabemos agora, a equipa estava há meses sem salários, o que fazia antever a possibilidade de fecho da clínica. E que a 24 de agosto — ou seja três dias depois de ter entrado no tribunal o pedido de insolvência, e na véspera da decisão judicial — a gerente Lynae Brayboy enviara para todas as pacientes, através da aplicação da Ovom, um comunicado a informar de que os novos tratamentos estavam suspensos; só os que já se haviam iniciado iriam ter continuidade. 

Particularmente curioso notar que, como o DN já reportou, Lynae Brayboy é, com a empresária/financeira alemã Felicia von Reden, responsável da Ovom Care alemã, a empresa “mãe” da Ovom Care Portugal — e foi a Ovom alemã que, tenho declarado insolvência, pediu ao tribunal nacional que declarasse a insolvência da Ovom Portugal. Ou seja: Brayboy e von Reden, enquanto responsáveis pela Ovom alemã, são credoras da Ovom Portugal, da qual são também responsáveis.

Especialistas do setor notam que havia várias coisas na Ovom Care que não batiam certo: por um lado, escolheu uma localização premium, na Quinta da Marinha, em Cascais, o que levaria a crer que procurava prover a uma clientela com bastantes posses; por outro lado, apresentava uma política de preços “com desconto” e que anunciava dar o dinheiro de volta a quem não tivesse sucesso no tratamento. Sendo que, enquanto outras clínicas do setor têm equipas com vários médicos e embriologistas, a Ovom tinha apenas um médico e uma embriologista com experiência, e atividade reduzida no que respeitava ao número de ciclos contratados. “Tinha tudo para dar errado”, comenta um dos especialistas ouvidos pelo DN.

Acresce, como informou a CEO da Ovom Care alemã, Felicia von Reden, em entrevista ao DN, a maior parte do financiamento — 4,8 milhões de euros — anunciado em 2025 como tendo sido reunido para lançar o projeto era destinado à “parte tecnológica”, não à clínica. Ou seja: tratava-se de um projeto de tecnologia que tinha uma clínica, e no qual, aparentemente, as pacientes não eram encaradas como o mais importante.

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Às pacientes da clínica resta assim para já, no que diz respeito ao dinheiro que pagaram por tratamentos ou serviços (como o armazenamento de células durante até cinco anos), reclamar os créditos junto do administrador de insolvência, tendo 30 dias para o fazer desde a decisão do tribunal.

“Se falasse com a gerente, a Lynae, não seria educada”

Quanto aos seus materiais biológicos que, como foi reportado pelo DN logo na primeira notícia sobre o caso, serão transferidos, nos termos do protocolo obrigatório, para a clínica Ava, em Lisboa, têm estado a aguardar que esta clínica receba os processos clínicos respetivos — é esse o procedimento determinado legalmente. O qual está a levar mais tempo do que inicialmente previsto, porque, explica ao DN Vladimiro Silva, administrador da Ava, encontraram dificuldade na transcrição dos ficheiros informáticos da Ovom para um formato que seja acessível a qualquer outra empresa.  

“Os processos têm de nos chegar num formato universal que possa ser acessível a qualquer clínica”, diz este responsável da Ava. “Tivemos uma reunião com um técnico informático deles para que faça a conversão. Mas como o essencial neste momento é assegurar a preservação das células, sugerimos ao CNPMA receber os tanques antes dos documentos, e obtivemos autorização.” São, informa, dois tanques, que deverão chegar à Ava esta segunda-feira e ficarão selados até que os documentos cheguem. Durante seis meses, a clínica armazenará estes materiais sem qualquer cobrança. 

Até a documentação clínica chegar à Ava e ser examinada pela equipa clínica, Nicole não tem como saber se algum dos seus óvulos está naqueles dois tanques de azoto líquido. Ao telefone com o DN, o tom é o de alguém que não espera milagres. “No dia em que soube que a Ovom ia fechar, comecei logo a falar com outras clínicas. Houve várias no Reino Unido que ofereceram consultas e armazenamento grátis — durante algum tempo, não os cinco anos que tinha pagado à Ovom, cujo dinheiro não sei se vou receber de volta. Já falei com alguns advogados que conheço, para tentar perceber o que posso fazer, mas são britânicos e as leis dos dois países são diferentes. Para já, o mais importante é saber se tenho óvulos. A partir daí logo se vê.” 

Se pudesse falar com uma das responsáveis pela Ovom, Felicia ou Lynae, que lhes diria? Há um curto silêncio, como se Nicole sustivesse a respiração. “Fiquei muito surpreendida ao ler no DN o que a Felicia disse sobre a Ovom — que era sobretudo uma empresa tecnológica. Mas a Lynae é médica, supostamente. Uma médica a fazer isto a pacientes… Não sei se sequer falaria com ela. Se falasse, não seria educada. Se estivesse no lugar dela, estaria incrivelmente envergonhada e zangada comigo própria por ter colocado as pacientes da clínica nesta situação.”

Tendo contactado vários membros do conselho de administração da Ovom Care alemã, representantes de fundos de capital de risco, o DN só obteve resposta de um deles, que pediu ao jornal que enviasse questões por escrito. Remetidas na quinta-feira de manhã, aguardam retorno.  

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