Janela com vidros partidos no Estabelecimento Prisional de Lisboa, Ala B, maio de 2026.
Janela com vidros partidos no Estabelecimento Prisional de Lisboa, Ala B, maio de 2026.

Bloco quer que ministra esclareça se EPL tem condições para alojar pessoas

Deputado do BE repete perguntas, não respondidas, que o DN fez à Direção-Geral dos Serviços Prisionais e ao ministério da Justiça sobre as condições materiais das prisões nacionais. Quer também conhecer planos para combater sobrelotação.
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“Considera o Governo que as celas da Ala B do Estabelecimento Prisional de Lisboa [EPL], nas condições documentadas pela investigação do Diário de Notícias, reúnem condições mínimas de dignidade e salubridade para alojar pessoas?”

“Qual a média de reclusos por cela no EPL, qual o estabelecimento prisional com maior número de reclusos por camarata, qual o número total de celas do sistema prisional e quantas dessas celas se encontram, à data, ocupadas por um único recluso?”

“Qual o rácio real médio de espaço por recluso, em metros quadrados, no EPL e no conjunto do sistema prisional, por oposição aos critérios teóricos de lotação?” 

“Quantos e quais estabelecimentos prisionais cumprem atualmente as áreas mínimas por recluso fixadas na jurisprudência do TEDH e adotadas como critério nacional na sequência do caso Petrescu (4 m2 em alojamento coletivo e 7 m2 em alojamento individual)?” 

“Confirma o Governo que a desparasitação mensal comunicada ao Conselho da Europa, na comunicação de 25 de junho de 2025, é efetivamente realizada em todos os estabelecimentos prisionais, incluindo o EPL? De que tipo de intervenção se trata, com que periodicidade documentada, e que registos a comprovam?”

“Está o fornecimento de produtos de higiene básica no EPL, designadamente de papel higiénico, a ser assegurado em conformidade com o Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais? Qual a frequência e a quantidade efetivamente disponibilizadas?”

Cela do EPL, maio de 2026.
Cela do EPL, maio de 2026. FOTO: DR

As perguntas, dirigidas à ministra da Justiça, fazem parte de um dos dois requerimentos de que o deputado único do Bloco de Esquerda Fabian Figueiredo deu entrada na Assembleia da República esta terça-feira, dia em que foi divulgado o relatório anual do Conselho da Europa sobre prisões (Estatísticas Penais Anuais/relatório SPACE 2025)

Os dois requerimentos inquirem sobre as condições nas prisões portuguesas, e do EPL em particular, a partir das informações contidas no mencionado relatório e na investigação publicada pelo DN esta segunda-feira. Nesta, o jornal, com base nas comunicações enviadas pelo Estado português ao Conselho da Europa sobre o sistema prisional e as medidas que alegadamente está a tomar para dirimir as violações de direitos humanos pelas quais foi condenado no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), evidencia discrepâncias com a realidade e com as respostas e não respostas que Governo e Direção-Geral dos Serviços Prisionais (DGRSP) deram às perguntas que lhes endereçou.

Há “um padrão de não-resposta” do Governo sobre as prisões, acusa BE

Perguntas que é agora Fabian Figueiredo a colocar ao Governo, frisando que a reportagem do DN “documenta um padrão de não-resposta das autoridades: a DGRSP e o Ministério da Justiça não responderam às perguntas sobre se as celas da Ala B  [do EPL] reúnem condições para alojar pessoas, sobre o rácio real de espaço por recluso, sobre a média de reclusos por cela, sobre o número total de celas e de celas de ocupação individual, e sobre quais os estabelecimentos que cumprem as áreas mínimas, não obstante o Estado ter afirmado ao Conselho da Europa dispor de um sistema de informação que permite monitorizar a ocupação de cada prisão em tempo real.

Por outro lado, o deputado adverte que mesmo os dados oficiais sobre as lotações das prisões são duvidosos, lembrando que no seu relatório de 2024 o Mecanismo Nacional de Prevenção considera “existirem fortes indícios de que a lotação oficial das prisões está inflacionada, dado ter visitado celas que, pela sua área, deveriam alojar apenas um recluso e que os serviços da DGRSP contabilizam como destinadas a duas pessoas, concluindo que a taxa de ocupação real e de sobrelotação do sistema prisional é superior à que resulta dos dados divulgados.” Alerta que, sublinha o Bloco, “é coerente com a observação, presente no próprio relatório SPACE I 2025, de que Portugal declara não dispor de capacidade que permita o alojamento dos reclusos em celas individuais durante o período noturno”, o que leva o partido a perguntar ao Governo se reconhece que “a lotação oficial dos estabelecimentos prisionais está inflacionada por não respeitar os padrões internacionais de área mínima por recluso”, e caso afirmativo, “que medidas se encontram previstas para rever a metodologia de cálculo da lotação oficial.” 

Lembrando que a execução dos acórdãos do TEDH, “o chamado grupo de acórdãos Petrescu” (nome do recluso romeno que inaugurou, com a sua queixa, apresentada em 2017 e decidida em 2019, um rol de mais de 50 condenações do país devido ao sistema prisional) é “supervisionada pelo Comité de Ministros do Conselho da Europa, que voltará a apreciar os planos de Portugal em junho de 2026”, o representante parlamentar do BE questiona: “Que informação corrigida ou atualizada tenciona o Governo apresentar ao Comité de Ministros do Conselho da Europa, na avaliação prevista para junho de 2026, à luz das discrepâncias evidenciadas entre o que foi comunicado e a realidade verificável?”

Fabian Figueiredo quer também saber “qual a leitura do Governo quanto à responsabilidade institucional pela persistência, ao longo de sucessivos anos e apesar de reiteradas condenações internacionais, de condições de detenção qualificadas como degradantes por órgãos nacionais e internacionais de prevenção da tortura.

Sobrelotação aumenta porque duração média de penas é muito alta

O parlamentar nota ainda que a situação nas prisões portuguesas se agravou face aos dados do relatório SPACE, cujo retrato reporta a 1 de janeiro de 2025, quando Portugal informou ter 12 360 pessoas reclusas. Desde então e até 1 de maio último, frisa o requerimento do Bloco, entraram mais 944 pessoas nas penitenciárias, atingindo um total de 13 304 reclusos, correspondentes a uma sobrelotação (de acordo com o cálculo oficial) de 106%. O que significa que, ao contrário do que sucedeu até 2021, o sistema de Justiça não está a combater a sobrelotação prisional, mas sim a agravá-la.

Assim, conclui Fabian Figueiredo, assistiu-se a uma inversão da tendência: “Desde 2021, a taxa de população prisional voltou a subir. Esta trajetória ascendente, longe de ter estabilizado, agravou-se acentuadamente após a data de referência do relatório.” Mas, adverte, o que o relatório SPACE evidencia é que “o problema central do sistema prisional português não é a dimensão da população reclusa, mas a sua composição e a duração da reclusão”. 

Isto porque, prossegue, “Portugal apresenta uma duração média de encarceramento de 30,9 meses (calculada com base no stock e no fluxo), ou 31,4 meses (calculada com base no número de dias de detenção), quando a mediana europeia é de apenas 8,8 meses.” Trata-se de uma duração média de reclusão que, sublinha Fabian Figueiredo, “é a terceira mais elevada de toda a Europa, apenas atrás da Ucrânia e do Azerbaijão.”

Acresce que "apenas 3,8% dos reclusos condenados em Portugal cumprem penas inferiores a um ano (a mediana europeia situa-se em 13,3%), ao passo que as penas de cinco anos ou mais representam a esmagadora maioria da população condenada”, e que “a duração média da prisão preventiva (remand in custody) é estimada pelo relatório em 12,6 meses, valor que evidencia uma utilização prolongada da medida de coação mais gravosa.” 

Pelo que o deputado requer também que a ministra da Justiça indique “que medidas concretas de desencarceramento e de redução da duração efetiva da reclusão tenciona o Governo adotar”, e “que iniciativas legislativas ou de articulação com o sistema de justiça pondera o Governo para reduzir o recurso [neste momento, os presos preventivos são já um quarto do total] e a duração da prisão preventiva.”

Também o gasto médio diário por recluso, calculado em 61,23 euros pelo relatório SPACE (valor que inclui todos os gastos com pessoal adstrito às prisões) e tratar-se de menos de metade da média europeia leva o Bloco a perguntar “que reforço orçamental e de recursos humanos está previsto, com calendário e metas verificáveis, atendendo a que o rácio de reclusos por funcionário coloca Portugal muito acima da mediana europeia.” 

Por fim, o deputado único do Bloco de Esquerda questiona o Governo sobre as respostas que tem em vista, “em termos de infraestruturas, cuidados de saúde e programas de reinserção” para “enfrentar o  envelhecimento da população reclusa, atendendo a que cerca de um quarto dos reclusos tem 50 ou mais anos”, e que medidas de prevenção do suicídio têm sido postas em prática, "considerando que o relatório SPACE I 2025 situa a taxa de suicídio prisional portuguesa (7,3 por 10.000 reclusos) acima da mediana europeia.”

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