É um número que não deixa margem para dúvidas: na avaliação que os portugueses fazem sobre as consequências do 25 de Abril de 1974, 77,6% consideram que estas são “mais positivas do que negativas” e apenas 2,8% diz o inverso. No entanto, agora que se assinalam os 52 anos da revolução, há uma maioria de cidadãos (49,3%) que declaram estar pouco (40,4%) ou nada satisfeitos (8,9%) com a maneira como funciona hoje a democracia, contra 47,3% que estão muito (41,6%) ou muitíssimo satisfeitos (5,7%).Os dados constam de um estudo de opinião, a que o DN teve acesso, encomendado pela Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, no qual foram entrevistadas 1600 pessoas, entre os dias 20 de março e 15 de abril deste ano, e que tem uma margem de erro de 2,45%. Os resultados mostram que a insatisfação é maior na faixa etária dos 50 aos 64 anos (52,6%), em oposição aos mais jovens (59% dizem-se muito ou muitíssimo satisfeitos). Algarve (66%) e Grande Lisboa (60,1%) destacam-se como as regiões mais pessimistas em relação ao estado atual da democracia portuguesa, sentimento que também grassa entre uma ampla maioria (81,4%) dos eleitores que assumiram ter votado na CDU nas legislativas de 2025.“Sem pôr em causa o valor da democracia, muitos portugueses expressam uma confiança apenas moderada nas instituições e revelam preocupação com a evolução futura do regime. Este ‘pessimismo moderado’ não anula o consenso sobre Abril, mas introduz uma dimensão crítica na leitura da democracia atual”, refere, em reação aos resultados da sondagem, Maria Inácia Rezola, comissária executiva da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, acrescentando: “Não estamos perante uma rejeição do modelo democrático, mas antes perante uma exigência acrescida – quanto mais consolidada é a memória de Abril, mais exigente se torna a avaliação do que dele resultou”.A dar corpo a esta perceção dos portugueses, estão os riscos identificam hoje para o processo democrático. E à cabeça destes surgem a corrupção (41,8%) e os extremismos políticos dos partidos (40,1%). Nesta avaliação às ameaças, o escalão etário que vai dos 18 aos 34 anos é único que não elege a corrupção como principal risco, optando antes pelo extremismo (46,4% contra 40,9%). É também essa a visão da maioria dos que frequentaram o Ensino Superior (47,1%) e dos eleitores de todas as forças políticas analisadas (PSD-CDS, PS, Chega, CDU e Bloco de Esquerda), com exceção dos comunistas que apontam maioritariamente a corrupção (68,9%). Entre os riscos identificados surgem ainda a falta de informação ou informações erradas (presente 20,1% das escolhas, num leque de três possíveis), as desigualdades sociais (17,3%), a falta de educação cívica (14,8%), a crise económica (14,7%) e a abstenção nas eleições (9,5%)..Desafiados a projetar a evolução da democracia portuguesa nos próximos 35 anos, o cenário não é mais animador. Aqui, as opiniões dividem-se e voltam a estar dentro da margem de erro do estudo, com ligeira vantagem para os que acreditam que a evolução “vai manter-se semelhante” (39,3%) em relação aos que antecipam um agravamento (37,4%). Só 14,4% se dizem convictos que “vai melhorar”. Seja como for, os méritos do sistema democrático – as eleições livres foram uma das grandes conquistas de abril de 1974 – não parecem sair beliscados neste estudo de opinião, já que perante a afirmação “a democracia pode ter problemas, mas é melhor do que qualquer outro regime político ou de governo”, 57% dos inquiridos dizem “concordar totalmente”, com especial destaque para os que têm 65 ou mais anos (59,6%) e formação no Ensino Superior (60,5%). Neste campo de análise, de salientar que os eleitores da CDU são os únicos que maioritariamente (48,2%) apenas “concordam em parte” com a frase.Sem ação militar país não mudariaComo já referido acima, 77,6% dos inquiridos consideram que as consequências que resultaram do 25 de Abril foram “mais positivas do que negativas”. Um resultado que, no entender de Maria Inácia Rezola, confirma que existe em Portugal “um consenso histórico sólido sobre Abril”. “Num tempo frequentemente marcado por polarização, este amplo consenso em torno de um acontecimento fundador é, em si mesmo, um elemento de estabilidade simbólica e política”, completa a historiadora, em artigo de opinião que pode ler aqui na íntegra.Esta opinião sobressai entre os mais jovens (82,4%) e aqueles que completaram o Ensino Superior (80,9%). Olhando para as regiões do país, na Madeira é onde essa impressão tem uma percentagem mais baixa (57,1%), em contraste com o que acontece no Oeste e Vale do Tejo (84,1%). Por outro lado, são os eleitores da CDU os mais hesitantes em dizer que as consequências que resultaram do 25 de Abril foram mais positivas que negativas, pese embora essa percentagem atinja os 60,4%. Ainda no que diz respeito aos comunistas, estes são os únicos neste estudo a considerarem maioritariamente que têm “pouco” conhecimento sobre o 25 de Abril – 54,4% –, sendo que entre os inquiridos das restantes forças partidárias vinga a ideia de terem “muito” conhecimento sobre a revolução.O que não deixa dúvidas aos inquiridos é que a ação militar dos Capitães de Abril em 1974 “contribuiu para garantir as liberdades e direitos que existem hoje em Portugal”. Mais de metade dos entrevistados (50,2%) diz “concordar totalmente” com essa afirmação - principalmente os mais velhos, com 65 ou mais anos (53,7%), os que frequentaram o Ensino Superior (53,3%) ou que votaram no PS (68,2%) –, verificando-se entre os eleitores do Chega a maior percentagem dos que “discordam totalmente” (7,1%). O impacto que essas mudanças tiveram nas “Liberdades e Direitos” é tido como “muito positivo” para 76,8% dos portugueses. A mesma classificação (“muito positivo”) também se aplica, por ordem decrescente, às áreas da “Democracia Política” (69,7%), Educação e Ensino (67,9%), Desenvolvimento do País (66,6%), Condições de Vida (66,3%), Relações de Trabalho (65,3%) e Economia (55,1%). Outra convicção partilhada pela maioria dos portugueses é que as mudanças na sociedade resultantes do 25 de Abril de 1974 não teriam sido possíveis sem a revolução. Se há 15,8% dos inquiridos que consideram que estas seriam inevitáveis, mais cedo ou mais tarde, outros 72,9% destacam o dia como momento decisivo para a transformação do país. Há mais mulheres (75,1%) do que homens (70,5%) convencidos disso e são também os jovens que mais têm essa visão (79,3%). Olhando para as preferências partidárias, os eleitores do Chega surgem como os que mais concordam com a ideia (91,1%)..Pedido o reforço dos conteúdos escolaresA maior fonte de informação sobre os acontecimentos do 25 de Abril foi o que aprenderam na escola, dizem 47,9% dos entrevistados, seguindo-se “família e amigos” (16,5%) e “televisão” (14,2%). A importância das aulas como meio de acesso ao que se passou na revolução é transversal a todas as faixas etárias e a todos os níveis de escolaridade. No entanto, 55,5% dos inquiridos consideram que as referências sobre o 25 de Abril de 1974 nos programas escolares deviam ser maiores, contra aqueles que as acham adequadas (29,8%) ou que até preferiam que diminuíssem (4,5%). É entre os mais jovens (60%) e os mais instruídos (58,1%) que o reforço dos conteúdos programáticos tem mais defensores. “Este dado merece atenção particular. Não se trata de ausência de memória, mas de uma perceção de insuficiência na sua transmissão estruturada , o que sugere um desfasamento entre a importância simbólica atribuída ao 25 de Abril e os mecanismos institucionais de reprodução dessa memória”, destaca a comissária..De Salgueiro Maia ao povoSalgueiro Maia (1944-1992) é a primeira pessoa ou figura pública que vem à cabeça dos inquiridos quando se fala em 25 de Abril. O Capitão de Abril, figura central nas manobras militares do dia da revolução, protagonista da rendição do regime de Marcelo Caetano no Quartel do Carmo, é mencionado em primeiro lugar por 32,3% dos inquiridos, sendo seguido na lista por duas figuras que não tiveram envolvimento direto no dia em questão: o antigo ditador António de Oliveira Salazar (que morrera em 1970), com 23,7% das respostas, e Ramalho Eanes (5,2%), que à altura dos acontecimentos estava mobilizado em Angola, mas que teria um papel extremamente importante no pós-revolução, emergindo como figura central no 25 de Novembro de 1975 (que consolidaria o processo democrático) e tornando-se, mais tarde, em 1976, o primeiro Presidente da República eleito em democracia. Antigos líderes partidários como o socialista Mário Soares (5%), o comunista Álvaro Cunhal (3%) ou o social-democrata Sá Carneiro (0,6%) também são identificados neste estudo, assim como outros Capitães de Abril – casos de Otelo Saraiva de Carvalho (4,9%) e Vasco Lourenço (0,3%). A palavra povo é a primeira escolha de apenas 0,3% dos inquiridos...Em conclusão, Maria Inácia Rezola olha para os resultados globais do estudo como prova da importância que tiveram, e ainda têm, os acontecimentos de há 52 anos. “O 25 de Abril permanece como um marco estruturante da cultura política portuguesa. A maioria clara dos inquiridos reconhece o carácter globalmente positivo da Revolução, não apenas como episódio histórico, mas como momento decisivo e insubstituível na construção da democracia. Este reconhecimento não se limita a uma avaliação genérica: traduz-se na perceção de que muitas das transformações fundamentais – nas liberdades, direitos e instituições – não teriam ocorrido sem a rutura de 1974”.Mais dados“Restaurar liberdades e direitos”: Um pedido feito aos 1600 inquiridos foi para identificarem aquele que consideram ter sido o primeiro objetivo dos Capitães de Abril. A resposta mais frequente (37,1%) foi “restaurar liberdades e direitos dos portugueses”, seguida de perto por “derrubar a ditadura dos Governos de Salazar e Marcelo Caetano” (34,2%). Somente 2,7% disseram que a prioridade foi “melhorar as condições de vida dos portugueses”.Mais jovens; mais participação cívica: No ano passado, 33,6% dos entrevistados disseram ter participado em atividades de alguma associação cultural, recreativa, religiosa, sindicato ou partido político. Os mais jovens (escalão etário entre os 18 e os 34 anos) foram os que o fizeram em maior quantidade (46%). Esta adesão a movimentos da sociedade civil concretiza-se, principalmente, através de associações de recreio ou culturais (47,2%), partidos políticos (27,5%) e associações ou grupos religiosos (24,5%). No que diz respeito à participação em atividade de partidos políticos, há mais mulheres do que homens a fazê-lo (29,3% vs. 25,8%).5% reveem-se nos extremos políticos: Mais de 80% dos entrevistados posicionaram-se ideologicamente. A maioria (42,1%) dizem rever-se no campo político do centro esquerda (23,1%) e esquerda (19%), à frente dos 33,1% que se identificam com o Centro Direita (19%) e Direita (14,3%). Mas também há uma minoria que confessa estar num dos extremos destes espectros – 4,2% dizem-se de extrema direita e 1,1% de extrema-esquerda.Que se festejem os dois 25: Portugal deve celebrar o 25 de Abril, mas também o 25 de Novembro. Esta é a opinião de 59,1% dos entrevistados, suplantando de forma clara aqueles que consideram que só a data de abril merece ser assinalada (27,3%), os que defendem um exclusivo de novembro (1,9%) e os que não veem razões para se festejar nenhum dos momentos (1,8%). Ficha técnicaEste inquérito foi realizado pelo multidados.com-research agency, para Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, entre os dias 20 de março e 15 de abril de 2026. O universo alvo é composto pelos residentes em Portugal Continental e nas Regiões Autónomas dos Açores e Madeira com 18 e mais anos. Os inquiridos foram selecionados aleatoriamente a partir duma lista de números de telemóvel, também ela gerada de forma aleatória. Todas as entrevistas foram efetuadas por telefone (CATI). Os inquiridos foram informados do objetivo do estudo e demonstraram vontade de participar. Foram obtidos 1600 inquéritos válidos, sendo 53% dos inquiridos do género feminino e 47% do género masculino. Distribuição geográfica foi efetuada por regiões NUT2 (2024: 35% da região Norte, 16% da região Centro, 7% da região do Oeste e Vale do Tejo, 8% da região Península de Setubal, 20% da região Grande Lisboa, 5% da região Alentejo, 5% da região do Algarve, 3% da Madeira e 3% dos Açores. Todos os resultados obtidos foram depois ponderados de acordo com a distribuição da população por sexo, escalões etários, nível de instrução e região com base no censo da população de 2021 (INE). A taxa de resposta foi de 44,4%. A margem de erro máximo associado a uma amostra aleatória de 1600 inquiridos é de 2,45%, com um nível de confiança de 95%.*Foram contactadas 3604 pessoas. De entre estas, 1600 aceitaram participar na sondagem e responderam até ao fim do questionário.Portugueses apontam descida de impostos como prioridade em economia que “não está no bom caminho”.Maria Inácia Rezola: "As eleições de 1975 eram fundamentais para a nova ordem que se queria institucionalizar”