Cinco décadas após a Revolução de 25 de Abril, a leitura que os portugueses fazem desse momento fundador da democracia apresenta um traço dominante: a solidez da memória histórica. A sondagem nacional promovida no âmbito das Comemorações dos 50 anos permite identificar um consenso amplo sobre o significado e o legado de Abril, ao mesmo tempo que revela algumas inquietações quanto ao presente e ao futuro.Desde logo, os dados revelam que o 25 de Abril permanece como um marco estruturante da cultura política portuguesa. A maioria clara dos inquiridos reconhece o carácter globalmente positivo da Revolução, não apenas como episódio histórico, mas como momento decisivo e insubstituível na construção da democracia. Este reconhecimento não se limita a uma avaliação genérica: traduz-se na perceção de que muitas das transformações fundamentais — nas liberdades, nos direitos e nas instituições — não teriam ocorrido sem a rutura de 1974.Este resultado confirma um dado essencial para a compreensão do Portugal contemporâneo: existe um consenso histórico sólido sobre Abril. Num tempo frequentemente marcado por polarização, este amplo consenso em torno de um acontecimento fundador é, em si mesmo, um elemento de estabilidade simbólica e política.O papel das Forças Armadas na memória coletivaOutro aspeto particularmente relevante é a persistência de uma leitura legitimadora do papel das Forças Armadas. A intervenção militar é amplamente reconhecida como condição para a conquista das liberdades atuais, sendo o Movimento das Forças Armadas identificado como protagonista central do processo de transição democrática. Esta dimensão não é apenas factual; é também simbólica, refletindo a forma como a memória coletiva organiza e hierarquiza os atores da história recente.Neste ponto, a sondagem confirma a permanência de um dos pilares da narrativa democrática portuguesa: a associação entre Abril e uma ideia de libertação conduzida por militares que devolveram a soberania ao povo.Memória transmitida, mas sentida como insuficienteSe o consenso sobre o passado é evidente, a forma como esse passado é transmitido é vista como insuficiente, perceção que revela algumas das tensões e inquietações sentidas no presente.A escola é reconhecida como o principal espaço de aprendizagem sobre o 25 de Abril, o que confirma o papel central das políticas públicas de educação na construção da memória histórica. No entanto, mais de metade dos inquiridos considera que o ensino sobre este período deveria ser reforçado. Este dado merece atenção particular. Não se trata de ausência de memória, mas de uma perceção de insuficiência na sua transmissão estruturada , o que sugere um desfasamento entre a importância simbólica atribuída ao 25 de Abril e os mecanismos institucionais de reprodução dessa memória.A questão não é apenas pedagógica; é também cívica. A forma como se ensina e se transmite Abril condiciona a relação das novas gerações com os valores democráticos que dele emergiram.Abril como referência normativaA avaliação das mudanças introduzidas pela Revolução confirma outro traço relevante: as dimensões mais valorizadas são precisamente aquelas que se situam no domínio político e cívico — liberdades, direitos e democracia. Esta valoração indica que Abril continua a funcionar como referência normativa, isto é, como um horizonte de valores a partir do qual se avalia o presente.Neste sentido, o legado de Abril não é apenas histórico; é ativo. Estrutura expectativas, orienta juízos e fornece critérios de avaliação da vida coletiva.Entre a memória consolidada e a inquietação contemporâneaÉ, contudo, quando se passa da memória do passado para a perceção do presente e do futuro que o tom da sondagem se altera. Sem pôr em causa o valor da democracia, muitos portugueses expressam uma confiança apenas moderada nas instituições e revelam preocupação com a evolução futura do regime.Este “pessimismo moderado” não anula o consenso sobre Abril, mas introduz uma dimensão crítica na leitura da democracia atual. A coexistência destes dois planos — memória positiva e perceção mais matizada do presente — constitui, aliás, um dos resultados mais significativos da sondagem.Não estamos perante uma rejeição do modelo democrático, mas antes perante uma exigência acrescida: quanto mais consolidada é a memória de Abril, mais exigente se torna a avaliação do que dele resultou.A responsabilidade da memóriaA principal conclusão que se pode retirar destes dados é clara: o 25 de Abril continua a ser um dos raros pontos de convergência na sociedade portuguesa. Esse consenso assenta numa memória histórica robusta, amplamente partilhada e reconhecida.Mas essa memória não se reproduz automaticamente. Depende de instituições, de políticas públicas e de práticas sociais concretas. Depende, em particular, da forma como é ensinada, celebrada e debatida.Cinquenta anos depois, o desafio já não é apenas preservar a memória de Abril. É garantir que essa memória permanece viva, crítica e transmissível — capaz de dialogar com as inquietações do presente sem perder a clareza do seu significado histórico.É nesse equilíbrio entre memória consolidada e exigência democrática que se joga, em grande medida, o futuro da própria democracia portuguesa.