"Isolado, cansado e com pressa de sair". Português desespera por apoio no Diamond Princess

Em conversa com o DN, Adriano Maranhão conta que já comeu - acabaram por ser dois almoços de frango - mas, em contrapartida, a data para sair do Princess Diamond foi esticada até terça-feira. O canalizador infetado com coronavírus no navio em quarentena no Japão só fez o primeiro teste há três dias.

O telefone não para, com os amigos e a família a quererem saber como se sente, a quererem dar uma palavra de conforto, e Adriano Maranhão já acusa algum cansaço no corpo. O fuso horário de 9 horas entre Portugal e o Japão não ajuda às comunicações, troca os sonos e as voltas a quem está confinado à cabine de uma navio desde a madrugada de sexta-feira para sábado (hora de Lisboa), quando foi informado que o teste ao coronavírus tinha dado positivo.

É dessa cabine onde esteve mais de 24 horas sem comer que o primeiro português infetado com o covid-19 nos fala, através de vídeochamada. Apesar de tudo, da notícia que recebeu e que estava à espera "que só acontecesse aos outros", está bem-disposto, sorridente até, e confiante que se vai tratar.

Teve neste domingo o contacto inicial da embaixada de Portugal - e se primeiro lhe foi dito que poderia sair entre domingo e segunda-feira, posteriormente, Adriano foi informado que só segunda o terça-feira deverá sair do navio Diamond Princess, atracado de quarentena no porto de Yokohama, a sul de Tóquio.

"Não tenho tido a resposta mais rápida que esperava das autoridades portuguesas. Só quero que isto se apresse o mais rápido possível para ser hospitalizado e começar a ser tratado", diz ao DN o homem de 41 anos, da Nazaré, que trabalha há cinco para a empresa de cruzeiros como canalizador.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros garante que está a "insistir junto das autoridades locais para que se proceda à sua transferência para o hospital de referência", no Japão. As autoridades japonesas só este domingo confirmaram oficialmente que Adriano Maranhão está infetado.

"A ficha não caiu logo"

Foi na cabine onde ainda permanece que um médico lhe disse que estava infetado com o coronavírus. Mandou-o o sentar e deu-lhe a notícia. "Na altura não foi um choque muito grande, a ficha não caiu logo. Só depois é que nos vamos apercebendo da gravidade da situação... não esperamos que nos calhe a nós."

Adriano só realizou o primeiro teste ao coronavírus na passada quinta-feira, sendo que o cruzeiro está atracado desde 4 de fevereiro em Yokohama. "A tripulação não tinha feito nenhum teste, só quem apresentava sintomas é que fazia. Não era uma questão de pedirmos para fazer ou não, primeiro estava o passageiro, depois a tripulação."

Este domingo, Adriano já conseguiu almoçar. Na verdade, teve direito a dois almoços de frango porque contactou os dois portugueses que trabalham no navio e eles levaram-lhe a comida num tupperware - há mais dois cidadãos de nacionalidade portuguesa, de origem macaense. E a empresa também lhe foi entregar o almoço depois das diligências da embaixada. Até aqui, só comia o que tinha, umas bolachas e umas batatas fritas.

"Trabalhei até ao dia em que soube que o teste era positivo."

Além dos contactos da embaixada que está à procura de um hospital de referência onde Adriano possa ser tratado, este domingo, Adriano Maranhão teve um contacto do Medical Center do Diamond Princess. Queriam saber como se sentia, mas ninguém lá foi vê-lo. "Simplesmente telefonaram para a minha cabine, perguntaram se eu estava bem, se eu tinha medido a febre. Disse que sim, que a temperatura estava nos 36,8..." Na cabine, não tem qualquer medicação.

Sintomas Adriano diz não ter, apenas o cansaço no corpo que atribui ao reboliço dos últimos dois dias que o mantém em comunicação com Portugal e que o fuso horário tanto atrapalha. O facto de só ter feito o teste na passada quinta-feira deixa-lhe dúvidas sobre há quanto tempo poderá estar contagiado. "Não sei se estou infetado há uma ou duas semanas, se há três ou quatro dias. Trabalhei até ao dia em que soube que o teste era positivo."

"Proibiram-nos de usar máscara"

Apesar daquela réstia de esperança que lhe fazia pensar que estas coisas só acontecem aos outros, lá no fundo sabia que o problema lhe poderia bater à porta. Até porque esteve em contacto direto com os turistas. "Levaram três ou quatro dias para fazer os testes a todos os passageiros e nesse período estávamos em contacto com eles. Só passados dois ou três dias da quarentena é que começámos a usar máscara - antes proibiam-nos de usar máscara - e, dois ou três dias depois, passámos a usar luxas de latex, que estavam disponíveis em vários locais do navio. Acho que não estava devidamente protegido", conta.

"Quando começou a quarentena tínhamos contacto com as cabines, depois começaram a ver a gravidade da situação e só em casos de emergência é que lá íamos, com máscara, luvas e um fato fato branco, que era todo aberto", diz ainda Adriano Maranhão, acrescentando que os outros dois portugueses que estão no Diamond Princess estão igualmente receosos e revoltados. "Pode acontecer a qualquer momento, a qualquer um."

Quando lhe deram a notícia de que tinha um teste de coronavírus positivo, pediram-lhe também para arrumar as suas coisas. "Disseram-me para fazer as minhas malas porque iria sair do navio, teria que levar tudo o que era meu e teria de contactar a embaixada e a companhia, porque automaticamente saindo do navio, o navio já não tinha responsabilidade sobre mim", conta.

Ficou incrédulo por ter de ser ele a fazer as diligências, mas pegou no telefone e ligou à mulher, Emanuelle Maranhão - desde então esta professora da Nazaré não parou e recebeu no próprio dia em que a notícia se tornou pública um telefonema do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

O apoio português e a saudade das filhas

Mas Adriano está a desesperar por não sair do navio, onde diz que restarão umas 800 pessoas das 3700 iniciais. Ainda mais porque se encheu de esperança de que poderia acontecer já este domingo e depois viu a data ser adiada. O Diamond Princess é o maior foco de coronavírus fora da China, sendo que cerca de 80% dos passageiros têm mais de 60 anos - até agora morreram duas pessoas a bordo do navio, uma mulher e um homem octogenários já com problemas de saúde.

Adriano Maranhão está há dois meses e meio no cruzeiro e o contrato acabava a 20 de fevereiro e como o navio estava de quarentena pôs-se a hipótese de o contrato ser alargado até 15 de março. Mas entretanto surgiu o resultado do teste. "Até nisto tive azar."

Vale-lhe o apoio da mulher, da família e dos amigos, que não param de lhe enviar mensagens de apoio. E, apesar das saudades das filhas - três meninas de dois, cinco e oito anos - prefere não falar com elas. Porque as quer poupar ao que está a passar.

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