Putin e Trump na China: a minha receção é melhor que a tua

Helena Tecedeiro

Editora-executiva do Diário de Notícias

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Bandeirinhas com as estrelas e as riscas deram lugar a bandeirinhas com faixas horizontais branca, azul e vermelha, mas as camisas azuis e calças ou saias brancas dos meninos que as brandiam - ao mesmo tempo que bandeirinhas da China - pareciam iguais tanto na receção a Donald Trump como a Vladimir Putin, na chegada ao aeroporto em Pequim. E a passadeira vermelha que o presidente russo percorreu na quarta-feira de manhã parecia a mesma que o seu homólogo americano pisara dias antes ao passar revista às tropas ao lado de Xi Jinping, antes de ambos (já antes saudados com salvas de 21 tiros de canhão) se reunirem a convite do presidente chinês no Grande Salão do Povo. Com duas visitas de Estado tão próximas, as comparações são inevitáveis e não faltam analistas a apontar semelhanças e diferenças, enquanto tentam ler o seu significado.

A maior diferença que todos apontam reside em quem Xi Jinping enviou para receber os dois líderes. Trump foi cumprimentado no aeroporto pelo vice-presidente Han Zheng. Dentro da chamada “diplomacia do protocolo”, a escolha de um alto responsável do governo dá estatuto ao líder da maior potência económica e militar do mundo. Já Putin foi recebido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi. Mas se em termos de hierarquia, o chefe da diplomacia surge abaixo do vice-presidente, a verdade é que Wang, além de membro do poderoso Politburo do Partido Comunista Chinês e de ser considerado como um dos principais arquitetos da política externa de Pequim, é também um dos aliados mais próximos de Xi Jinping. À demonstração de reconhecimento institucional por Trump, Xi optou por mais alguma proximidade com o “velho amigo” Putin.

Ora se ambos os líderes partiram de Pequim com mais palavras bonitas do que grandes acordos, as comparações entre as receções a Trump e Putin não deixaram de merecer comentários de ambas as delegações. Mas enquanto o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, desvalorizou a questão, afirmando que não faz sentido comparar as cerimónias, mas sim concentrar-se no seu conteúdo, Trump, inquirido pelos jornalistas, garantiu que as boas-vindas a Putin “não foram tão brilhantes como as minhas”.

Mas enquanto os analistas contam bandeiras, comparam ementas e analisam as suas palavras, o verdadeiro vencedor de ambas as cimeiras parece mesmo ter sido Xi Jinping. Ao receber os líderes da atual superpotência e de uma antiga superpotência com poucos dias de intervalo, o presidente chinês confirma o seu estatuto de líder da superpotência do futuro, tão influente já hoje que é cobiçado tanto por Washington como por Moscovo.

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