O Kremlin recusou comentar as ligações dos suspeitos do ataque terrorista na sala de concertos Crocus City Hall, nos subúrbios de Moscovo, ao Estado Islâmico na segunda-feira, para horas depois o líder máximo russo admiti-lo. No entanto, Vladimir Putin não abandonou a narrativa de que a Ucrânia esteja envolvida no tiroteio e incêndio que matou pelo menos 139 pessoas na sexta-feira. .“Sabemos que o crime foi cometido pelas mãos de islamistas radicais, cuja ideologia o próprio mundo islâmico combate há séculos”, disse Putin antes de assestar baterias para a Ucrânia. “Esta atrocidade pode ser apenas um elo de uma série de tentativas daqueles que estão em guerra com o nosso país desde 2014, pelas mãos do regime neonazi de Kiev. É claro que é necessário responder à pergunta: porque é que, depois de cometerem o crime, os terroristas tentaram ir para a Ucrânia? Quem estava à espera deles lá?”, especulou. A filial afegã do Estado Islâmico (EI-Khorasan) tem reivindicado desde sexta-feira a autoria do atentado, com os meios de comunicação e as redes sociais ligadas ao EI a publicarem vídeos dos atiradores no interior do recinto. .O presidente francês disse ter informações que indicam ter sido “uma entidade do Estado Islâmico que instigou” o ataque. Emmanuel Macron ofereceu a cooperação francesa a Moscovo e advertiu a liderança russa: “Seria cínico e contraproducente para a própria Rússia e para a segurança dos seus cidadãos utilizar este contexto para tentar virá-lo contra a Ucrânia.” Macron, que no início da invasão da Rússia falou várias vezes com Putin, não mais comunicou diretamente com o líder russo. Já o primeiro-ministro Gabriel Attal, cujo governo elevou o dispositivo antiterrorista para o nível mais elevado, com 4 mil militares em alerta, disse que as autoridades francesas frustraram dois ataques terroristas desde janeiro. .A ameaça do Estado Islâmico-Khorasan também não é novidade na Rússia. Com a intervenção militar na Síria, o Kremlin e o EI declararam guerra mutuamente. Em fevereiro de 2023, o FSB afirmou ter impedido um ataque do EI a uma fábrica de produtos químicos em Kaluga. Na mesma cidade, mas no início do mês, o FSB “neutralizou” militantes do EI e disse ter frustrado um ataque contra uma sinagoga em Moscovo. .No domingo à noite, os quatro suspeitos, com origem no Tajiquistão, foram apresentados em tribunal, onde receberam a acusação de terrorismo. Todos apareceram com marcas de tortura e as autoridades fizeram questão de passar vídeos da mesma através de canais do Telegram. Um deles, Muhammadsobir Fayzov, foi transportado em cadeira de rodas de um hospital para a cela do tribunal do círculo de Basmanny, onde se manteve em estado semiconsciente. Fayzov, de 19 anos, vivia em Ivanovo, 250 quilómetros a nordeste de Moscovo..Saidakrami Rachabalizoda, de 30 anos, que disse não se lembrar onde vivia, surgiu com a orelha direita com uma ligadura. Elementos das forças russas cortaram-lhe a orelha e introduziram-na sua boca, como se pode comprovar nos vídeos. Uma fotografia também publicada no Telegram mostrou Shamsidin Fariduni, de 25 anos, com residência em Krasnogorsk - o subúrbio de Moscovo onde se desenrolou o atentado terrorista - sob tortura com choques elétricos nos órgãos genitais..Num interrogatório, Fariduni confessou ter matado por dinheiro: depois de ter sido contactado via Telegram por um desconhecido, “sem nome, sem apelido”, este propôs entregar-lhe meio milhão de rublos (cerca de 5000 euros) em troca de uma matança. O primeiro a ser ouvido em tribunal, Dalerjon Mirzoyev, de 32 anos, tem residência oficial em Novosibirsk, a 3500 quilómetros de Moscovo, e compareceu em tribunal com um saco de plástico à volta do pescoço..Na segunda-feira à tarde foram levados a tribunal Dilovar Islomov, o proprietário do automóvel em que os quatro alegados terroristas fugiram até Briansk, assim como o seu irmão Aminchon e o pai Isroil (este também tajique, os filhos já nascidos na Rússia). As autoridades russas suspeitam de que Fariduni recrutou os dois irmãos..EUA dizem ter avisado Moscovo.O Departamento de Estado norte-americano afirmou ontem que tinha avisado a Rússia, no início de março, sobre um ataque terrorista planeado em Moscovo “potencialmente dirigido a grandes ajuntamentos, incluindo concertos”. O porta-voz Matthew Miller respondeu a uma refutação do embaixador russo nos EUA, Anatoly Antonov, de que Moscovo tivesse recebido qualquer aviso. “Demos-lhes esse aviso privado, de acordo com o nosso dever de avisar quando vemos ou quando reunimos informações sobre ataques terroristas ou potenciais ataques terroristas”, disse Miller numa conferência de imprensa..O porta-voz explicou que só mais tarde a embaixada emitiu um alerta aos seus cidadãos. Recordou ainda que, há meses, os Estados Unidos tinham avisado de forma semelhante o governo iraniano sobre um potencial ataque terrorista do Estado Islâmico que ocorreu depois em Kerman, no leste do Irão, e onde morreram quase 90 pessoas..Mulher de Kara-Murza quer troca de prisioneiros.A mulher de Vladimir Kara-Murza – opositor de Vladimir Putin que sobreviveu a dois envenenamentos e que desde o ano passado cumpre pena de 25 anos de prisão por “traição” – sugeriu que ele e outros presos políticos sejam trocados com russos detidos no estrangeiro, tal como esteve previsto com Alexei Navalny..Apesar de não saber se o marido concordaria com a iniciativa (tal como Navalny, Kara-Murza regressou do exterior à Rússia consciente de que poderia ser alvo das autoridades, e também se encontra numa colónia penal, no caso na Sibéria, em isolamento), Evgenia Kara-Murza disse ser favorável a troca de prisioneiros. “Se isso foi possível no tempo da União Soviética, durante a Guerra Fria, é definitivamente possível hoje em dia”, disse aos jornalistas em Genebra. Kara-Murza, que tem também nacionalidade britânica, padece de polineuropatia e não tem acompanhamento médico, segundo a mulher..cesar.avo@dn.pt