O local da colisão entre dois comboios de alta velocidade, Iryo e AVE, na localidade de Urda, em Toledo.
O local da colisão entre dois comboios de alta velocidade, Iryo e AVE, na localidade de Urda, em Toledo.EPA / CHEMA MOYA

68 mortos. Tragédia ferroviária em Espanha atinge campanha para as eleições legislativas

Colisão entre dois comboios perto de Toledo fez, pelo menos, 68 mortos. Este é o segundo acidente ferroviário em Espanha este ano. Sánchez diz que já há uma investigação em curso.
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O acidente ferroviário desta quarta-feira entre dois comboios de alta velocidade em Urda (Toledo) - que fez pelo menos 68 mortos, havendo 107 feridos hospitalizados, 18 deles em estado muito grave - atingiu a campanha para as legislativas de 29 de novembro, com quase todos os partidos a suspenderem as suas atividades. O VOX, de extrema-direita, foi a exceção.

O tom das mensagens dos partidos também foi, nas primeiras horas, mais focado na dor pela dimensão da tragédia e nos apelos para ajudar as vítimas e os seus familiares. Mais uma vez a exceção foi o partido de Santiago Abascal, que embora tenha oferecido as suas condolências e solidariedade às famílias afetadas, garantiu que não pretende “descansar até que este governo, que é uma organização criminosa, se sente no banco dos réus para responder por seus delitos”.

Numa outra mensagem publicada no X, o líder da extrema-direita espanhola contestou a suspensão da campanha, afirmando que “o melhor tributo que podemos prestar às vítimas é continuar o trabalho de denunciar incansavelmente a degradação das infraestruturas e instituições que a máfia corrupta nos deixou... e prometer ao nosso povo que nunca mais os impostos da população serão desviados em propinas nem gastos em porcarias ou fanatismos ideológicos”.

Ao final desta quarta-feira foi noticiado que o VOX havia apresentado no Tribunal de Serviço de Orgaz (Toledo) uma queixa-crime contra os responsáveis pela Adif (a empresa pública que gere a infraestrutura ferroviária), “e, em particular, contra o(s) operador(es) do centro de controlo de tráfego de Atocha que autorizaram a retoma da circulação dos três comboios após a avaria no sistema LZB [que supervisiona a velocidade dos comboios e transmite as indicações de circulação ao maquinista]”. Um incidente que terá resultado na colisão entre um comboio AVE e um comboio da Iryo.

Esta queixa-crime é ainda dirigida contra “os seus superiores hierárquicos imediatos no turno e contra aqueles que, dentro da entidade, tinham a atribuição de definir, implementar e fiscalizar os procedimentos operacionais em situações de degradação do sistema, bem como a segurança da circulação no troço”, mas também “quaisquer outras pessoas singulares ou coletivas que venham a ser consideradas responsáveis ​​no decurso da investigação”. O VOX imputa aos envolvidos os crimes de homicídio negligente e de ofensa à integridade física negligente.

Ao contrário do VOX, o Partido Popular cancelou todos os seus eventos de campanha, tendo o seu presidente regressado a Madrid de avião vindo de Barcelona, onde tinha agendado um ato eleitoral. Num primeiro momento logo ao início da manhã, através de uma mensagem no X, Alberto Núñez Feijóo disse estar “muito preocupado com as informações que têm vindo a surgir sobre um novo acidente ferroviário”, numa referência ao ocorrido em janeiro em Adamuz (Córdoba), e que fez 46 mortos, garantindo que “a prioridade agora é atender as vítimas e dar apoio às suas famílias. Todo o meu apoio às equipas de emergência que trabalham no local”.

No entanto, ao início da tarde, após declarações do ministro dos Transportes Óscar Puente, nota o El País que o Partido Popular deu início às hostilidades políticas com uma mensagem publicada nas redes sociais a dizer “Já chega”. A esta publicação seguiram-se novas declarações de Feijóo, também já num tom mais político, embora tenha afirmado partilhar com os espanhóis “dor, solidariedade e exigência”.

“Espanha tem o direito de saber o que se passa com as infraestruturas”, afirmou Feijóo numa declaração já na sede do PP, em Madrid. “Este é o momento de respeitar os mortos, os feridos e os seus familiares. Isto não significa ignorar que os espanhóis estão a fazer perguntas de forma incisiva e merecem respostas”, prosseguiu o líder popular, sublinhando que a dor exige “uma investigação governamental imediata, e outra judicial, com todos os meios necessários e sem interferências”, mas também “uma revisão completa e independente de toda a rede ferroviária”.

A Frente Ampla e o Podemos também suspenderam a campanha, tendo Irene Montero, candidata desta segunda força, manifestado a profunda preocupação com o grave acidente, afirmando que a “prioridade máxima” são as pessoas afetadas e as famílias.

Já Ada Colau, a candidata da Frente Ampla, manifestou logo pela manhã a sua “solidariedade com as pessoas afetadas” e o seu “apoio aos serviços de emergência”. Já durante a tarde, a coligação de esquerda de que fazem parte os quatro partidos do Sumar no governo, emitiu um comunicado a exigir “uma auditoria independente”, sublinhando que “para além das responsabilidades técnicas, exigimos a assunção de responsabilidades políticas”. “A gravidade deste terrível episódio exige a máxima clareza e transparência sobre o sucedido: é inadmissível a repetição de um acidente tão grave na rede de alta velocidade no mesmo ano. A Frente Ampla exige a realização de uma auditoria independente ao estado da rede e dos serviços relacionados”, refere o comunicado. “Para além das responsabilidades técnicas, exigimos a assunção de responsabilidades políticas. Por responsabilidade e por humanidade”.

Pedro Sánchez e o presidente de Castela-La Mancha, Emiliano Garcia-Page, no local da colisão.
Pedro Sánchez e o presidente de Castela-La Mancha, Emiliano Garcia-Page, no local da colisão.EPA / CHEMA MOYA

O PSOE do primeiro-ministro Pedro Sánchez suspendeu também as ações de campanha, bem como uma reunião da Comissão Executiva Federal do partido agendada para esta quarta-feira. E se as hipóteses de vitória de Sánchez a 29 de novembro já pareciam remotas antes deste acidente, fazendo fé nas sondagens, agora parecem ainda mais improváveis.

Não só por todos os escândalos de corrupção dentro do PSOE e que têm afetado a sua família (a mulher vai a julgamento e o irmão foi condenado recentemente), mas também pela atuação do seu governo - está a lidar atualmente com protestos nacionais por causa da crise da habitação, o verão ficou marcado pelo incidente migratório em Ceuta e este é o segundo acidente ferroviário em Espanha em menos de um ano. “Isto inevitavelmente revira a campanha e desfere um golpe em Sánchez”, disse esta quarta-feira ao Politico um deputado socialista, que pediu anonimato. “Isto muda o rumo da discussão e, naturalmente, a oposição vai tirar partido, tal como fez com o acidente de Adamuz.” Menos pessimista, um outro deputado do PSOE alertou que ainda é cedo para decretar o fim do líder socialista, notando que ainda falta um mês para as eleições.

Pedro Sánchez , que declarou três dias de luto nacional, viajou para Toledo, onde garantiu que o acidente já está a ser investigado. “Vamos chegar ao fundo da questão e, se houve negligência, ela virá ao de cima”, afirmou, lembrando que “é inaceitável que um país como Espanha sofra dois acidentes ferroviários no mesmo ano”. “É um acidente verdadeiramente inverosímil”, disse o ministro dos Transportes, Óscar Puente, numa conferência de imprensa, em que explicou que não está a pensar neste momento em demissão.

Segundo o ministro, o comboio Renfe bateu na parte de trás do da Iryo, que estava parado na linha, depois de ter recebido luz verde para avançar do centro de controlo da Adif. Tudo começou com uma avaria informática pelas 8.30, que levou todos os comboios num troço de quase 70 quilómetros a parar, obrigando a acionar o centro de controlo na estação de Atocha (em Madrid).

“Às 8.36 pediu-se à Renfe para retomar a marcha com normalidade”, afirmou, apesar de o sistema continuar em baixo e o outro comboio ter à sua frente uma luz vermelha e estar parado. Puente qualifica essa decisão de “inexplicável”. O comboio da Renfe percorreu cerca de 25 km a uma velocidade de 200 km por hora, em vez da chamada “marcha à vista”, mais lenta. “Às 8.53 deu-se o impacto”, acrescentou, dizendo que o problema não foi do sistema.

Segundo disse a porta-voz do Governo de Castela-La Mancha, Esther Padilla, em declarações à TVE, no comboio da Iryo seguiam 147 passageiros (incluindo um bebé) e no da Renfe mais 397 pessoas.

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