Será Glucksmann capaz de travar o duelo Mélenchon-Le Pen na 2.ª volta francesa?
O candidato que obteve o melhor resultado da esquerda francesa nas eleições europeias de 2024 decidiu acabar com meses de especulação e entrar oficialmente na corrida ao Eliseu. Raphaël Glucksmann, líder do movimento Place Publique, anunciou a candidatura às presidenciais francesas de abril de 2027.
Mas será o eurodeputado de 46 anos capaz de impedir o cenário de segunda volta que as sondagens apontam como o mais plausível: um duelo entre Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical d’A França Insubmissa (LFI, na sigla original), e Marine Le Pen, da extrema-direita do Reagrupamento Nacional (RN).
“Sou candidato para recuperar a França”, anunciou Glucksmann no telejornal de domingo na TF1, dizendo não tomar essa decisão de “ânimo leve”. E justificou a candidatura com uma pergunta que acabou por resumir toda a sua estratégia política: “Vamos entregar o nosso país a Le Pen e à extrema-direita?”
Mas se a líder do RN é apontada como o alvo principal, Glucksmann também deixou claro que não pretende reconstruir pontes com Mélenchon. “Se eu ganhar estas primárias, nunca mais haverá qualquer acordo com a LFI”, garantiu.
O eurodeputado acusou a formação de Mélenchon de representar uma deriva incompatível com os valores da esquerda democrática e procurou afirmar-se como o rosto de uma esquerda pró-europeia, reformista e social-democrata.
A candidatura surge na sequência do impulso obtido nas europeias de 2024, quando a lista conjunta do Partido Socialista (PS) e da Place Publique alcançou 13,8% dos votos - o melhor resultado entre as listas da esquerda francesa.
Desde então, Glucksmann foi consolidando a imagem de potencial presidenciável numa corrida para suceder a Emmanuel Macron onde começa a haver pouco espaço: há mais de uma dúzia de candidatos declarados, que podem chegar às três dezenas se todos aqueles de que se fala avançarem também.
Para tentar marcar a diferença, Glucksmann centrou o discurso em três prioridades: melhoria dos salários, reforço da escola pública e transição ecológica. Disse, nomeadamente, que pretende ser “o presidente da transformação ecológica da França”, considerando a crise climática a principal urgência do momento.
O anúncio recebeu já um apoio significativo: o de Yannick Jadot, antigo candidato ecologista à presidência e uma das figuras mais conhecidas do movimento ambientalista. Os dois devem surgir juntos esta semana num primeiro evento de campanha, com Jadot a ser chamado a ajudar a elaborar o programa ambiental. Mas o Partido Ecologista ainda não decidiu oficialmente se apoia Glucksmann ou avança com a candidatura própria da líder Marine Tondelier.
Antes de pensar nas presidenciais, Glucksmann terá primeiro de ultrapassar as primárias organizadas pelo PS e pelo Place Publique, previstas para outubro. Entre os candidatos já declarados figuram a ex-ministra do Ambiente Ségolène Royal, e os deputados Philippe Brun e Jérôme Guedj, enquanto Olivier Faure, líder do PS, continua a ponderar uma candidatura. E também se fala que o ex-presidente François Hollande poderá avançar.
Embora inicialmente tenha manifestado reservas em relação ao processo, Glucksmann acabou por aceitá-lo porque precisa da estrutura socialista. O Place Publique continua a ser uma formação relativamente pequena, sem a máquina militante, a implantação local, a experiência organizativa e os recursos financeiros do PS - que ainda não recuperou do colapso eleitoral de 2017.
As sondagens dizem que Glucksmann é o favorito nas primárias. Mas não da esquerda. Mélenchon aparece à frente do eurodeputado nas intenções de voto. Tem entre 16% e 17% no barómetro Harris interactive, contra cerca de 10% a 11% para Glucksmann.
Aos 75 anos, Mélenchon avança para a quarta candidatura presidencial, apesar das polémicas recorrentes, desde acusações de radicalização do discurso político até controvérsias com posições consideradas antissemitas pelos adversários.
E Mélenchon não chega aos números de Le Pen (tem entre 35% e 37% das intenções de voto). A líder parlamentar do RN confirmou em julho que será também candidata pela quarta vez, apesar da condenação no processo dos falsos assistentes no Parlamento Europeu. Uma decisão em recurso permitiu manter-se elegível para 2027, mas Le Pen ainda arrisca ter que fazer campanha com pulseira eletrónica.
Mas o cenário nunca foi tão positivo para a dirigente da extrema-direita. Le Pen continua a liderar a maioria das sondagens, beneficia da normalização crescente do partido e conta ainda com o apoio de Éric Ciotti, antigo dirigente dos Republicanos que se aproximou do RN e se tornou um dos seus aliados mais relevantes à direita.
O primeiro teste de Glucksmann será já na quinta-feira, dia 27, com um debate no canal LCI que incluirá Mélenchon e Le Pen, mas também Bruno Retailleau, líder d’Os Republicanos (direita), Gabriel Attal, secretário-geral do Renascimento e ex-primeiro-ministro (centro), Édouard Philippe, líder do Horizontes e também antigo chefe de governo (centro) e a ecologista Tondelier (mesmo não sendo oficialmente candidata). O debate será às 16h45 locais (15h45 em Lisboa).
Candidatura com impacto privado
Raphaël Glucksmann vive desde 2015 com a jornalista franco-libanesa Léa Salamé, que anunciou que vai deixar de apresentar o telejornal das 20h00 da France2, o principal canal de televisão público, enquanto ele estiver na corrida. Não é a primeira vez: quando ele foi candidato às europeias em 2019 e 2024 também se afastou dos programas políticos durante a campanha. O casal tem um filho, Gabriel, nascido em 2017. Glucksmann é também pai de um filho mais velho, fruto da relação com a georgiana Eka Zguladze, que foi vice-ministra na Geórgia e na Ucrânia.
Outros candidatos
Esquerda
Rafaël Glucksmann vai disputar as primárias com os socialistas, tendo caído por terra a hipótese da união de toda a esquerda. Outros candidatos são a ex-ministra do Ambiente, Ségolène Royal, que poderá ir a votos contra o ex-companheiro, o antigo presidente François Hollande, que ainda não oficializou a candidatura. Os deputados Philippe Brun e Jérôme Guedj também avançam, mas aguarda-se a decisão do secretário-geral, Olivier Faure, sobre uma candidatura.
Esquerda radical
O fundador do partido A França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, será candidato às presidenciais pela quarta vez. Outros possíveis nomes neste campo são François Ruffin (do Debout!) ou Clémentine Autain (do L’Après). A líder do Ecologistas, Marine Tondelier, também ainda não decidiu.
Centro
A herança de Emmanuel Macron é pesada. Os ex-primeiros-ministros Édouard Philippe (Horizontes) e Gabriel Attal (Renascimento) podem dividir eleitores do centro.
Direita
O líder d’Os Republicanos, Bruno Retailleau, já se lançou na corrida, mas há dúvidas sobre uma eventual entrada de pesos pesados como Xavier Bertrand (presidente da região Hauts-de-France), Laurent Wauquiez (ex-líder) ou Michel Barnier (ex-primeiro-ministro). O autarca David Lisnard, de Cannes, deixou o partido para tentar o Eliseu.
Extrema-direita
A condenação no caso dos falsos assistentes europeus não travou Marine Le Pen, que espera que à quarta seja de vez, mesmo correndo o risco de ter que fazer campanha com pulseira eletrónica (aguarda o recurso). O líder do Reagrupamento Nacional, Jordan Bardella, ficou de fora.
Independentes
A académica Clara Egger, que aposta na “democracia direta”, já se lançou na corrida, como o professor Benoît Mathieu e o cantor Francis Lalanne.


