Em janeiro de 2023, nove meses após ter sido terceiro na sua terceira candidatura à presidência (foi pela segunda vez o mais votado da esquerda), Jean-Luc Mélenchon anunciava que não ia voltar a candidatar-se em 2027 e ia dedicar-se a “acabar o trabalho intelectual”. Mas admitia que, dependendo das “circunstâncias” pudesse mudar de ideias. Neste domingo (3 de maio), a pouco menos de um ano de os eleitores serem chamados a escolher o sucessor de Emmanuel Macron, o fundador do França Insubmissa, de 74 anos, pôs fim ao que a imprensa apelidou de “falso suspense” e oficializou a candidatura. “Sim, sou candidato. Foram o contexto e a urgência que determinaram a decisão dos insubmissos”, afirmou diante das câmaras da TF1. Uma candidatura que não agrada ao resto da esquerda.“A discussão não era sobre quem é o melhor candidato”, mas “quem está mais bem preparado para lidar com a situação que se avizinha”, disse o antigo deputado, depois de ter sido escolhido sem oposição interna, defendendo a sua experiência perante os desafios. “Estamos a entrar numa fase muito turbulenta da história mundial. Estamos ameaçados por uma guerra generalizada, por alterações climáticas drásticas e, além disso, temos uma crise económica e social a aproximar-se”, argumentou. O seu adversário é só um, a extrema-direita do Reagrupamento Nacional (RN).Mélenchon, que deixou o Partido Socialista há mais de duas décadas, foi o candidato da esquerda mais votado nas presidenciais de 2022, ficando pouco mais de 300 mil votos atrás de Marine Le Pen - que viria a perder a segunda volta para Macron. Liderou depois o diálogo para a criação de uma aliança de esquerda, a NUPES, que chegou a ganhar na primeira volta das legislativas e acabou por impedir uma maioria para o campo do presidente.Mas a aliança à esquerda durou pouco, em parte por causa da figura controversa e polarizadora de Mélenchon. Antes das últimas eleições locais, por exemplo, ficou debaixo de fogo por comentários antissemitas, gerando divisão à esquerda sobre se devia aliar-se ou não com os candidatos insubmissos. Não é por isso de estranhar que o anúncio da candidatura à presidência tenha sido criticado pelos socialistas..Olivier Faure sob pressão para cordão sanitário à França Insubmissa .“Não creio que seja o candidato certo”, disse ontem à TF1 o deputado socialista Jérôme Guedj, que também já anunciou a sua candidatura presidencial. Mélenchon “acha que é o homem do momento, mas é evidente que não é, ou pelo menos já não pode ser”, referiu, explicando que até pode sair-se bem na primeira volta, mas não será capaz de bloquear a extrema-direita na segunda volta. “Se Jean-Luc Mélenchon chegar à segunda volta da eleição presidencial, então a vitória do Reagrupamento Nacional está garantida”, disse.As sondagens dizem isso. A primeira volta deverá ser ganha pelo RN, mesmo se a candidatura de Marine Le Pen não for desbloqueada na justiça e tiver que avançar o líder Jordan Bardella. Algumas sondagens colocam Mélenchon em segundo, mas a maioria aponta para um de dois ex-primeiros-ministros a passar: Gabriel Attal (Renascimento) ou Édouard Philippe (Horizontes). E o cenário de segunda volta é arrasador num eventual duelo entre Mélenchon e Bardella, com este último a vencer com mais de 70% dos votos. Philippe surge como o único capaz de vencer a RN.Mélenchon é “o político mais odiado deste país”, afirmou o dirigente socialista Pierre Jouvet (que também se diz que poderá apresentar a sua candidatura), apelidando-o de “o melhor seguro de vida para a extrema-direita”. E apelou à união do resto da esquerda: “Temos a responsabilidade de nos unirmos e deixarmos de ser a esquerda mais burra do mundo.” Uma divisão que Mélenchon vai aproveitar, sendo mais reconhecido do que qualquer outro candidato à esquerda..Mélenchon declara a morte da aliança de esquerdas em França, mas PS resiste