Flávio Bolsonaro tem 42 pontos percentuais e Lula da Silva apenas 40 numa situação de empate técnico mas, pela primeira vez desde a publicação de sondagens para as eleições de outubro deste ano, com vantagem numérica para o candidato de extrema-direita, revela o estudo do instituto Genial/Quaest de quarta-feira, 15. Por isso, o Brasil pergunta-se: e se Flávio, com o apoio dos demais candidatos do campo conservador, ganhar mesmo e suceder ao sucessor de Jair Bolsonaro? Seria inédito na história do país um pai e um filho presidentes. Já esteve perto de acontecer: Hermes da Fonseca, oitavo presidente da República do Brasil, de 1910 a 1914, era sobrinho de Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente do país, de 1889 a 1891, e um dos autores do golpe republicano que derrubou o imperador Dom Pedro II. Como o avô Tancredo Neves, indicado presidente em eleição indireta de 1989, o neto Aécio Neves também ficou perto de chegar ao Palácio do Planalto em 2014 mas foi batido por Dilma Rousseff.As dinastias políticas são muito comuns no Brasil no contexto regional – por exemplo, João Campos, candidato favorito ao governo de Pernambuco, é filho de Eduardo Campos, governador de 2007 a 2014, e bisneto de Miguel Arraes, que exerceu o cargo em três ocasiões – ou no âmbito legislativo – Bonifácio de Andrada, que foi deputado federal por MInas Gerais durante 10 mandatos, de 1979 a 2019, pertencia à quinta geração de um clã que andou por 196 anos no parlamento, desde que Ribeiro de Andrada foi nomeado deputado na Assembleia Constituinte de 1821, ainda nas cortes de Lisboa. Mas pai e filho na presidência, como referido, jamais. “Se se confirmarem as sondagens que dão o Flávio à frente, é um feito considerável porque Jair Bolsonaro, ao contrário dos outros casos, não vem de uma família rica, é aquilo a que nos EUA se chama poor white trash [escória branca, em tradução livre], talvez porque ele represente eleitoralmente aquilo a que chamo de penta B, além dos grupos tradicionais do Boi (agricultura), da Bala (polícias e militares) e da Bíblia (evangélicos), também o B de branquitude, que ele defende envergonhadamente, e o B de uma certa boçalidade”, afirma Vinícius Vieira, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado.“Na Índia, há a dinastia da família Nehru-Gandhi, na América do Sul atual, o exemplo mais presente de personalismo é o pai Alberto e a filha Keiko Fujimori, no Peru, apesar das muitas diferenças com esses casos, os Bolsonaro são também já são um exemplo de dinastia e um exemplo de personalismo, talvez a primeira com dimensão nacional”.“Porque afinal os outros filhos de Jair, irmãos de Flávio, e a própria ex-primeira-dama Michelle têm carreira e pretensões políticas, razão pela qual o apelido já ganhou rótulo, o bolsonarismo, movimento de extrema-direita reacionária, tradicionalista e de submissão aos Estados Unidos”, completa.No mundo em geral são raros estes casos mas na América do Norte, não tanto. Nos Estados Unidos, John Quincy Adams, presidente de 1825 a 1829, era filho de John Adams, presidente de 1797 a 1801, e, mais recentemente, George Bush ocupou a Casa Branca por um mandato, de 1989 a 1993, e o filho George W. Bush por dois, de 2001 a 2009, talvez a mais famosa e poderosa dupla de pai e filho presidentes das últimas décadas. Já no Canadá, os Trudeau estiveram no poder através do pai Pierre e do filho Justin, ambos primeiros-ministros, não presidentes, num dos raros casos em democracias parlamentares contemporâneas.Em regimes autoritários, entretanto, como no Haiti, de François e Jean-Claude Duvalier, na Síria, de Hafez e Bashar al-Assad, ou na Coreia do Norte, do avô Kim Il-sung, do pai Kim Jong-il e do neto Kim Jong-un, a hereditariedade política é mais comum. Voltando ao Brasil, o presidente Lula (PT), que não tem filhos políticos, ainda não perdeu totalmente o favoritismo para as eleições de outubro. Vence com facilidade todos os outros adversários à segunda volta, Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), os três de direita, e Augusto Cury (Avante), que não se classifica ideologicamente. Em relação a Flávio (PL), o atual presidente tinha 10 pontos de avanço em dezembro, passou para sete em janeiro, cinco em fevereiro e empate a 41 pontos antes da desvantagem de dois da semana passada. “Os números macro da economia são bons mas a percepção micro da população não, e é esse fator que tem prejudicado o desempenho de Lula face a Flávio”, opinou Felipe Nunes, CEO da Quaest, no canal Globonews.Na primeira volta 37% dos entrevistados votam Lula contra 32 que preferem Flávio. A longa distância fica Ronaldo Caiado, com seis, Romeu Zema, com três, Augusto Cury e Renan Santos, com dois, Cabo Daciolo, do Mobiliza, de centro-direita, e Samara Martins, da Unidade Popular, de extrema-esquerda, com um ponto. Aldo Rebelo, do Democracia Cristã, de direita, não pontua. Há 5% de indecisos. .Jair e Flávio Bolsonaro. Descubra as diferenças entre os candidatos