O Brasil e o mundo conhecem bem Jair Bolsonaro: histriónico deputado de extrema-direita por quase 30 anos, vencedor surpreendente das presidenciais de 2018, controverso presidente por quatro anos, candidato derrotado no sufrágio de 2022, ex-chefe de estado condenado por tentativa de golpe em 2025 e hoje prisioneiro, na Papudinha, a cadeia de onde indicou como sucessor o primogénito Flávio, que o Brasil e o mundo mal conhecem. Descubra aqui as diferenças entre o ex e o futuro rival de Lula da Silva nas eleições.A passagem de testemunho deu-se quando Jair Bolsonaro entregou uma carta a Flávio no dia de natal de 2025 em que escrevia, num tom messiânico, “dar ao Brasil o que há de mais valioso a um pai: o filho”. A reação na política e na economia foi negativa: a direita preferia que Bolsonaro tivesse endossado Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, seu ex-ministro da Infraestrutura, apoiado entusiasticamente pela Faria Lima, a Wall Street brasileira, e considerado um bolsonarista moderado pela imprensa. Flávio, até pelo apelido que carrega, não era a primeira escolha nem de uma, a direita, nem de outros, os mercados. Por isso, dias depois da carta, já se apresentava à imprensa, após participar num ato religioso, como “um Bolsonaro diferente” e “um Bolsonaro muito mais centrado” do que o pai.“Com a exposição e a cobertura que vocês da imprensa me vão dar, o Brasil vai conhecer um Bolsonaro diferente, um Bolsonaro muito mais centrado, um Bolsonaro que conhece a política, que conhece Brasília, um Bolsonaro que realmente vai querer fazer uma pacificação neste país, ao contrário do atual governo”, disse o senador do Partido Liberal (PL), nascido em Resende, no Rio de Janeiro, há 44 anos, licenciado em direito e com especializações em ciência política, políticas públicas e empreendedorismo. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, corroborou nos últimos dias essa opinião em entrevista à Globonews. “Ele é diferente do Bolsonaro. Não quero dizer que ele é melhor que o Bolsonaro, porque não existe alguém como Bolsonaro, mas ele tem mais paciência, ele conversa mais”.Essa faceta dialogante foi constatada em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, segundo a qual nas últimas semanas Flávio vem intensificando reuniões com aliados, como o citado Tarcísio, que é do Republicanos, além dos presidentes do Progressistas e do União Brasil, todos partidos de direita não radical. Na frente internacional, o parlamentar visitou Israel e Bahrein, onde se reuniu com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e prepara viagens à América Latina. Para reduzir a resistência do mercado financeiro, encarregou empresários próximos, quer dele, quer da Faria Lima, de estabelecer pontes. E, num sinal de drástica distinção em relação ao pai, não se encontrou com ninguém da esfera militar.Com esse comportamento e imagem, vem escalando nas sondagens, ao ponto de preocupar Lula e a esquerda. Se em dezembro, segundo o Datafolha, o atual presidente surgia com 51% e o filho de Bolsonaro com 36% num cenário de segunda volta entre ambos, no passado dia 7, o mesmo instituto dava um empate técnico de 46% a 43%, segundo os 2004 eleitores ouvidos. Dos chamados candidatos de terceira via, ou seja, a direita mais tradicional que Flávio quer esvaziar através da moderação, Lula tem vantagem superior: quatro pontos sobre Ratinho Junior e 10 sobre Ronaldo Caiado, ambos do PSD, de centro-direita. Para Renato Dorgan, CEO do instituto de pesquisas Travessia, Flávio “é uma edição do Bolsonaro corrigida”. “Ele é um Bolsonaro sem falar aquelas coisas intempestivas do pai que uns 30% dos bolsonaristas daqueles quase 50% que votaram nele em 2022 não gostam”, disse em entrevista à revista Isto É. “Ele é mais polido e mais político, tem mais rejeição do que os governadores [leia-se Ratinho, Caiado e outros] e tem a pecha de estar rodeado de deputados extremistas, que são o primeiro batalhão dele, mas talvez ele seja hoje até melhor candidato do que o pai, que tem rejeição mais alta”, prosseguiu. “Flávio tem rejeição, como Bolsonaro tem, como Lula tem”, relativiza Valdemar Costa Neto, líder do partido da família. “Nós temos que superar isso e só vamos superar isso quando os nossos senadores, deputados, vereadores e prefeitos entrarem na campanha”.Mas Flávio tem “telhados de vidro”, afirma o cientista social João Filho no The Intercept, site conotado com a esquerda, que destaca os casos das “rachadinhas”, esquema de desvio de salários dos colaboradores do político para o próprio bolso, e da “compra de uma mansão em Brasília de quase seis milhões de reais [cerca de um milhão de euros], incompatível com os seus rendimentos”.Por outro lado, reforça o colunista, “ainda em julho do ano passado, Flávio afirmou abertamente que o próximo presidente deverá ‘usar a força’ caso o Supremo negue um indulto presidencial para tirar o seu pai da cadeia”. Noutro trecho lembra que “em outubro, sugeriu que Trump poderia jogar bombas atómicas no Brasil caso a amnistia não fosse aprovada”. E conclui: “Eis o ‘bolsonarismo moderado’”..Lula e Flávio procuram cara metade para 'ticket' presidencial