Carlos III foi por diversas vezes aplaudido de pé por todos os membros do Comgresso.
Carlos III foi por diversas vezes aplaudido de pé por todos os membros do Comgresso.EPA/KYLIE COOPER

Rei Carlos III apela à união transatlântica em discurso histórico no Capitólio

Monarca evoca o "Espírito de 1776" e reafirma a "relação especial" com os EUA após condenar tentativa de assassinato contra Donald Trump.
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Perante uma rara demonstração de união bipartidária, no Capitólio, em Washington, o rei Carlos III discursou esta terça-feira perante as duas câmaras do Congresso dos Estados Unidos, tornando-se apenas o segundo monarca britânico a fazê-lo. Num discurso marcado por referências históricas e um forte apelo à resiliência democrática, o soberano sublinhou que a aliança entre o Reino Unido e os EUA é "mais importante hoje do que alguma vez foi".

No início da sua intervenção, o rei abordou o recente tiroteio no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, ocorrido no sábado (já madrugada de domingo em Lisboa). Carlos III condenou veementemente o atentado contra o presidente Donald Trump, levado a cabo por Cole Allen, de 31 anos.

"Encontramo-nos no rescaldo do incidente, não muito longe deste grande edifício, que procurou ferir a liderança da vossa nação e fomentar o medo e a discórdia", afirmou o monarca. "Deixem-me dizer com uma determinação inabalável: tais atos de violência nunca terão sucesso."

O "espírito de 1776"

Numa altura em que o aniversário dos 250 anos da independência dos Estados Unidos se aproxima, o rei utilizou o "espírito de 1776" para descrever uma parceria que, embora nascida de uma disputa — forma eufemística para se referir à mortífera guerra da independência dos EUA —, se tornou "uma das alianças mais consequentes da história da humanidade".

Carlos III citou com humor Oscar Wilde — "temos realmente tudo em comum com a América hoje em dia, exceto, claro, a língua". Mas rapidamente mudou para um tom mais pragmático. O discurso serviu como uma resposta diplomática direta a fugas de informação recentes da embaixada britânica que sugeriam um enfraquecimento da "relação especial".

O rei descreveu o Congresso como uma "cidadela da democracia" e recordou a visita da sua mãe, a Rainha Isabel II, que discursou naquele mesmo local em 1991.

Segurança global

O monarca ainda referiu os temas geopolíticos mais sensíveis, instando os congressistas a manterem o apoio à Ucrânia perante a invasão russa. "Essa mesma determinação inabalável é necessária hoje para a defesa da Ucrânia e do seu povo corajoso", declarou, estabelecendo um paralelo com a união dos dois países após o 11 de Setembro.

Nesta fase, Carlos III lembrou que o famoso artigo 5.º da NATO foi invocado (a primeira e única vez até hoje que tal aconteceu). Uma oportunidade para lembrar a importância estratégica da Aliança Atlântica numa altura em que as tensões estão a abrir fissuras.

No plano económico, o rei destacou os benefícios tangíveis da parceria entre os EUA e o Reino Unido, como os cerca de 430 mil milhões de dólares anuais em trocas comerciais, os 1,7 biliões de dólares de investimento mútuo e ainda fez referência aos novos pactos tecnológicos e económicos concluídos entre a administração Trump e o governo de Keir Starmer.

O rei terminou o discurso com uma nota de esperança pessoal ligada à época da Páscoa, Carlos III pediu que ambas as nações resistissem ao apelo do isolacionismo. "Rezo com todo o meu coração para que a nossa aliança continue a defender os nossos valores partilhados... e que ignoremos os apelos para nos tornarmos cada vez mais virados para dentro."

O filho mais velho de Isabel II encerrou a sua intervenção com um duplo "Deus abençoe", dedicado tanto aos Estados Unidos como ao Reino Unido, sob uma ovação de pé de todos os membros da Câmara dos Representantes e do Senado.

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