Aproveitando o fascínio que o presidente norte-americano tem pela família real britânica, o Governo de Keir Starmer sacou do seu maior trunfo para tentar reparar a “relação especial” com os EUA, no seu ponto mais baixo devido à guerra no Irão. O rei Carlos III e a rainha Camila iniciam esta segunda-feira (27 de abril) uma visita de Estado de quatro dias a Washington, Nova Iorque e Virgínia para assinalar os 250 anos da independência e “reconhecer a história comum” das duas nações. A viagem ainda não tinha começado e já Donald Trump se mostrava entusiasmado. Numa entrevista telefónica com a BBC na quinta-feira (23 de abril), questionado sobre se a visita do rei podia ajudar a reparar a “relação especial”, o presidente respondeu: “Com certeza. Ele é um homem fantástico. A resposta é absolutamente sim.” Esta é a primeira visita de Estado de Carlos aos EUA desde que, em 2022, sucedeu à mãe, a rainha Isabel II (que fez quatro, em 1957, 1976, 1991 e 2007). Mas enquanto príncipe de Gales esteve 22 vezes no país. Em setembro, Trump fez uma inédita segunda visita de Estado ao Reino Unido, ficando no Castelo de Windsor com os reis..Debaixo de fogo, Starmer recorre à família real para aplacar Trump.Quase metade dos britânicos (49%, segundo uma sondagem YouGov) são contra esta viagem e achavam que devia ter sido cancelada, devido aos ataques de Trump ao Reino Unido. Ainda na sexta-feira (24 de abril), um email do Pentágono, divulgado pela Reuters, revelou que Washington estará a estudar “castigar” Londres pela falta de apoio no Irão, equacionando rever a posição sobre a soberania das Falkland - Malvinas para a Argentina, que reclama as ilhas palco de uma guerra em 1982. A viagem arrisca ser também uma dor de cabeça para Carlos por causa do seu irmão André, a quem retirou o título e que foi preso em fevereiro por suspeita de ter passado informações a Jeffrey Epstein. As vítimas do falecido pedófilo e as famílias, incluindo o irmão de Virginia Giuffre (que denunciou ter sido abusada por André quando era menor e se suicidou há um ano) queriam um encontro com o monarca. O palácio recusou, mas isso não significa que o fantasma de Epstein não vá assombrar o rei. A viagem, que pode sofrer alterações após o tiroteio no Jantar de Correspondentes, começa com um chá privado na Casa Branca, com Trump e Melania, seguindo-se uma festa no jardim da residência do embaixador britânico. Christian Turner sucedeu a Peter Mandelson, que foi demitido pela sua relação com Epstein - num caso que está a pôr em causa o próprio Starmer. Na semana passada, o presidente escreveu na Truth Social que Mandelson era “uma escolha realmente má”. .Starmer volta a tremer por causa de Mandelson, mas ainda sem cair .Quando questionado pela BBC sobre esta mensagem e se a relação com Starmer poderia recuperar, Trump disse: “Se ele reabrisse o Mar do Norte e se as suas políticas de imigração se tornassem mais rígidas, o que não é o caso agora, ele poderia recuperar, mas se não o fizer, acho que não tem qualquer hipótese.” O presidente tem insistido para o Reino Unido explorar o petróleo do Mar do Norte, ainda para mais em plena crise no Estreito de Ormuz.A guerra do Irão foi uma das principais razões da deterioração da “relação especial”, depois de Trump ter criticado a demora do Reino Unido em permitir o uso das suas bases para os aviões norte-americanos e rejeitado o auxílio dos porta-aviões britânicos. O presidente apelidou estes navios de “brinquedos”, esquecendo-se que Carlos é um antigo oficial da Marinha e, enquanto monarca, o chefe de todas as Forças Armadas. Starmer tem insistido que não vai “ceder” à pressão dos EUA e entrar na guerra, mesmo depois de Trump ameaçar rever o acordo comercial com os britânicos. O segundo dia da viagem do rei a Washington vai incluir um discurso diante das duas Câmaras do Congresso (o primeiro de um monarca britânico desde 1991), assim como um jantar de Estado. Carlos e Camila seguem na quarta-feira (29 de abril) para Nova Iorque, onde vão encontrar-se com famílias das vítimas dos atentados do 11 de Setembro de 2001, além de visitar um projeto de agricultura urbana sustentável para jovens. Se não houver mudança de planos, a viagem terminará na Virgínia, com uma grande festa comunitária para assinalar os 250 anos da independência dos EUA do domínio britânico, quando as então 13 colónias norte-americanas decidiram separar-se do rei Jorge III, ascendente direto de Carlos. “A visita será uma oportunidade para reconhecer a história partilhada das nossas duas nações; a amplitude da relação económica, de segurança e cultural que se desenvolveu desde então, e os profundos laços interpessoais que unem as comunidades”, segundo um comunicado da Embaixada do Reino Unido.