Entre as notícias e análises, em tom positivo, publicadas na imprensa chinesa a antecipar a visita de Donald Trump, uma destoava. “A oposição da China à venda de armas à região de Taiwan, na China, é consistente e clara”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Guo Jiakun, em referência ao pacote de 11 mil milhões aprovado pela Casa Branca em dezembro, mas que está em suspenso. Na segunda-feira, o presidente dos EUA confirmou que esse tema estará entre aqueles a discutir com o anfitrião Xi Jinping. Em Taipé, mas também entre o círculo presidencial, teme-se que Trump seja levado a declarar uma mudança no statu quo, ainda que de forma inadvertida.Para a China, a visita resume-se a duas grandes questões: Taiwan e trocas comerciais. Para os EUA, ou de forma mais rigorosa, para Trump, o primeiro tema não é aquele que lhe suscita mais interesse. Em entrevista ao New York Times, o presidente norte-americano tinha dito que o destino de Taiwan dependia de Xi, mas que será improvável que tente tomar a ilha pela força enquanto estiver na presidência. Um relatório dos serviços de informações dos EUA afirma que o líder chinês disse ao exército do seu país para estar pronto para uma invasão em 2027. O ex-conselheiro de segurança nacional de Trump no primeiro mandato John Bolton recorda ao Telegraph que, sobre o tema, o nova-iorquino apontava para a ponta do marcador e dizia que era Taiwan, e depois apontava para a secretária Resolute e dizia que era a China. “Para Trump, é apenas um pedaço de território.” Bolton não é o único a mostrar preocupação pela forma como o presidente tratará o tema. “Preocupo-me com o facto de termos um presidente transacional e que possa surgir uma oportunidade transacional, e então teríamos um desafio”, disse o almirante reformado Mark Montgomery à Associated Press. Vários diplomatas sob anonimato também mostraram esse receio ao site Politico. Além disso, apontam para a hipótese de Xi levar o seu homólogo a formular uma frase que leve a uma mudança de posicionamento face a Taiwan. A política dos EUA é ambígua no que respeita à República da China desde que reconheceu a República Popular da China. Washington reconhece a política de uma só China e, como tal, não reconhece oficialmente Taiwan nem apoia a sua independência, mas ao mesmo tempo está vinculada por lei para fornecer os meios para se defenderem. Joe Biden, o anterior presidente, disse que o seu país defenderia Taiwan caso as forças comunistas avançassem pelo estreito da Formosa. Agora, dizem várias fontes, Xi deverá pressionar Trump para dizer que não só não apoia a independência como mostra a sua oposição. Para Bonnie Glaser, diretora do programa Indo-Pacífico do think tank German Marshall Fund, qualquer mudança retórica por parte de Trump, mesmo que ambígua, seria “o resultado mais desestabilizador” da cimeira. A imagem de que Washington aparenta ceder a Pequim uma esfera de influência sobre Taiwan em troca de concessões noutros domínios poderia encorajar a China a tomar medidas mais assertivas para minar a autonomia de Taiwan, disse Glaser, citada pela CNBC.. Apesar de estar sob sanções de Pequim devido às suas posições críticas sobre a repressão em Hong Kong e aos uigures, Marco Rubio seguiu na delegação — e vestido como o líder venezuelano quando foi ‘extraído’ pelos militares norte-americanos. Na semana passada, o secretário de Estado disse que o seu país “não queria ver qualquer mudança imposta ou forçada” sobre o tema. Nem que seja pelo facto de os EUA, apesar de já estarem a fabricar semicondutores, ainda dependem de Taiwan no fornecimento desses bens essenciais para se manterem na liderança da Inteligência Artificial.