Letónia vai a votos e deverá continuar na rota de apoio à Ucrânia
Cerca de 1,5 milhões de letões vão este sábado às urnas para eleger os 100 membros do parlamento, sendo esperado, de acordo com as sondagens, que a Lista Unida (AS) - o partido de centro do primeiro-ministro Andris Kulbergs -, saia vencedor, embora seja improvável que obtenha uma maioria absoluta, sendo por isso expectável que tente depois formar uma coligação governamental. Numa campanha marcada pelas questões da defesa, a guerra na Ucrânia e a Rússia, vão estar a votos 14 listas de partidos ou coligações, num total de 1428 candidatos.
Kulbergs – que atualmente lidera uma coligação governamental que engloba, além da AS, a Nova Unidade (JV), a Aliança Nacional e a União dos Verdes e Agricultores – chegou à liderança do governo depois de, em maio, a primeira-ministra Evika Silina, da JV, se ter demitido na sequência das suas críticas à lenta implementação do sistema de defesa antidrones do país (e que já a tinha levado a afastar o ministro da Defesa) devido ao incidente em que drones militares ucranianos entraram no espaço aéreo da Letónia.
Questões que levaram a Nova Unidade a perder terreno junto dos eleitores, surgindo na mais recente sondagem, realizada entre 4 e 16 de setembro pela SKDS/LTV, como o sexto partido preferido dos letões, reunindo apenas 6,8% das intenções de voto. Um forte revés para esta aliança política composta por cinco partidos que, desde a sua criação, em 2011, integra os sucessivos governos da Letónia, tendo liderado os executivos entre 2011 e 2016 e entre 2019 e maio de 2026, sendo a formação que detém o poder mais tempo desde 1991, ou seja, desde a independência.
Olhando ainda para a mesma sondagem, a Lista Unida recolhe a maior percentagem de intenções de voto (22,7%), e adivinha-se que Kulbergs não terá tarefa fácil em formar uma nova coligação governamental, dado que deverão entrar no parlamento, pelo menos, sete partidos. Segue-se o partido pró-Rússia Poder Soberano, que conta com o apoio da significativa minoria russófona da Letónia, com 14,1%, com o Letónia Primeiro, de extrema-direita, a surgir em terceiro, com 13,3%.
A incógnita russa
"A guerra na Ucrânia dividiu a nossa sociedade. Muitas pessoas não partilham a mesma visão", disse Kulbergs à Reuters na última quarta-feira. "Uma parte bastante grande da sociedade não vê a Rússia como uma ameaça; não compreendem porque é que o governo está a investir grandes quantias em defesa... Estão enganados."
Para começar a perceber estas declarações do primeiro-ministro letão é preciso ter noção que este pequeno país, com cerca de 1,9 milhões habitantes, está geograficamente numa posição delicada: fica entre o Mar Báltico e dois dos seus aliados da União Europeia e da NATO (a Estónia e a Lituânia), tendo a leste a Rússia e a Bielorrússia. A juntar a isto, cerca de 25% da população do país é russa, cuja integração sempre representou um desafio para a sociedade letã.
O Poder Soberano, que conta com o apoio da expressiva minoria russófona da Letónia, promete interromper o apoio ao esforço de guerra da Ucrânia, mas a sua líder não diz se apoia sanções económicas contra a Rússia. "Os nossos eleitores querem paz", afirmou Julia Stepanenko à Reuters. Também o Letónia Primeiro, fundado e liderado por Ainars Slesers, conhecido como o Trump letão e por ter ligações a oligarcas russos, parece também ter atraído um número crescente de eleitores pró-Kremlin.
“Como votará o eleitorado russófono que possui direito de voto? Será que optarão, mais uma vez, pela lealdade à Letónia, como parece ter acontecido nas eleições de 2022?”, questiona Helen Levy, investigadora da Fundação Robert Schuman.
Voltando à questão da defesa, a defesa nacional é uma preocupação crescente entre a população, em grande parte devido às frequentes incursões de drones no espaço aéreo da Letónia. “Desde a sua nomeação, em maio, o primeiro-ministro tem tido uma margem de manobra extremamente limitada para tranquilizar o público a este respeito. A ameaça de uma incursão ou interferência russa é tal que o governo convidou a OSCE [Organização para a Segurança e Cooperação na Europa] a observar estas eleições”, nota a mesma analista.
Consequência disto, tem havido um aumento dos gastos em defesa, nomeadamente em sistemas de defesa aérea e antidrones, estando previsto que este ano Riga gaste dois mil milhões de euros nas forças armadas e defesa, o equivalente a 4,91% do Produto Interno Bruto do país. “No entanto, alguns setores empresariais temem que possam ser aumentados impostos para financiar estas ambições. Esta questão pode, portanto, influenciar o comportamento de voto de uma parte do eleitorado, uma vez que o custo de vida e os preços da energia aumentaram significativamente desde a invasão da Ucrânia pela Rússia”, conclui Helen Levy.

