O académico canadiano Michael Ignatieff defendeu esta quarta-feira (29 de abril), no Foro La Toja, em Lisboa, que "não devemos ter nostalgia do velho mundo", enquanto o historiador israelita, Shlomo Ben Ami, afirmou que o conflito no Irão está a demonstrar "a futilidade da guerra"."O velho mundo acabou, temos que nos defender", disse o canadiano, alegando contudo que não devemos ser "nostálgicos do mundo que perdemos" e que o fim da ordem mundial deve servir também como "libertação", mesmo que seja "assustadora"."Estamos num mundo com uma hegemonia em declínio, os EUA, que se tornou predatória, porque está a rever a sua relação com a ordem internacional", explicou, lembrando que não está errado a ideia de que durante muito tempo o Canadá e a União Europeia "viajaram gratuitamente" às custas dos EUA.Mas também lembrou que, enquanto canadiano, "não é simpático" ouvir o presidente dos EUA, Donald Trump, repetir que o seu país não devia insistir. Ao mesmo tempo que defende o nacionalismo norte-americano, não reconhece o nacionalismo dos outros.E defendeu que Trump também não pode avançar para a guerra no Irão sem consultar os aliados e depois queixar-se porque o Canadá e a União Europeia decidem não participar."As alianças são úteis, multiplicam o poder e a influência, mas tens que as saber gerir. E insultar os aliados vai aliená-los", explicou.Ignatieff defendeu que canadianos e europeus têm que deixar de pensar nas falhas que têm - apesar de precisarem de identificar as suas vulnerabilidades -, e devem também olhar para as suas forças."O problema não é que a Europa não tenha força, governança, capacidade tecnológica", referiu. "O problema é que estamos num mundo em que a arquitetura de infraestruturas está a desintegrar-se. E o mundo está unido por infraestruturas, não por acordos", como os que Trump defende. "As instituições são o que mantém este mundo de pé", não sendo possível "criar um mundo estável só com acordos", como se estivéssemos a fazer um negócio de imobiliário na Quinta Avenida de Nova Iorque.Sobre a nova ordem mundial, Shlomo Ben Ami disse não acreditar em mudanças abruptas de paradigma, explicando que em todas elas é possível detetar raízes do passado. "Há um continuum no ADN do comportamento do poder hegemónico, disse, referindo-se aos EUA, lembrando que os norte-americanos também não foram rápidos a vir em auxílio da Europa na II Guerra Mundial e que tinha sido o facto de se terem afastado antes que permitiu a ascensão dos fascismos e de Hitler.O historiador lembrou que normalmente é um poder emergente que muda a hegemonia, é ele que é o desestabilizador. Mas Trump mudou isso. "O poder desestabilizador são os EUA", resumiu, defendendo que a Europa precisa de tempo para fazer o "divórcio". O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel também deixou o alerta, de que 80% da infraestrutura digital da Europa pertence, na realidade aos EUA, e que as empresas norte-americanas detêm, por lei, todos os dados presentes nas suas cloud.E exortou a Europa a desenvolver o setor tecnológico, dizendo que investir em defesa é uma boa forma de o fazer, já que a tecnologia para o armamento é depois útil para desenvolver a tecnologia civil. "Se investirem em tecnologia de defesa, vão desenvolver a civil. É o segredo de Israel", disse.Sobre a ideia dos "poderes médios", Ben Ami duvida da sua capacidade de atuar em bloco para transformar a ordem mundial, já que não há homogeneidade entre eles.Em relação à China, fala da aversão tradicional em usar o poder, a força. "Se a China não mostrasse restrição, a guerra no Irão seria mundial", referiu, por causa das várias alianças que existem. Mas a China tem paciência e não se apressa a usar a sua força. "Quantas vezes dissemos que iam usar a força em Taiwan e não o fizeram ainda. Ainda estão a tentar de outras formas", referiu, acrescentando: "Gostava que Israel e os EUA fossem tão prudentes no uso da força como a China."Os chineses comportam-se assim, admitiu, porque são um império continental, com 14 fronteiras. "São paranoicos e inseguros", tal como a Rússia. "Vladimir Putin é paranoico mas tem razão, a Rússia já foi invadida por toda a gente", disseChina e Rússia "são prisioneiros da sua própria geografia", diante da "ilha dos EUA", protegida por dois oceanos.O problema com este tipo de impérios, avisou também, é que "não podem ter uma derrota". Porque podem não sobreviver a ela. "Os EUA perderam todas as guerras desde a Coreia, mas têm capacidade de absorver o choque porque são uma democracia", podem explicar porque vão para a guerra, lembrando que essa é uma dificuldade no caso de Trump.Muito crítico do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, Ben Ami diz que ele transforma "todas as ameaças num holocausto", lembrando até que a guerra na Faixa de Gaza começou no meio de um processo de reconciliação de Israel com os vizinhos árabes. "O problema do atual governo israelita é que atirou para fora da janela o conceito da diplomacia, de algo que se pode alcançar pelo diálogo" ou por simplesmente manter o status quo.Na opinião do antigo chefe da diplomacia, a única notícia boa do atual conflito no Médio Oriente é mostrar "a futilidade da guerra". "Se as duas forças aéreas mais poderosas do mundo não conseguiram derrotar um país cujas instalações militares e liderança foram completamente aniquiladas, talvez devêssemos tentar outros caminhos, uma vez que a guerra não funcionou", observou. "Não há mais batalhas decisivas ou vitórias gloriosas".Na sua opinião, "a potência mais forte tem a obrigação de respeitar determinadas normas e regras". Caso contrário, "será punida pela comunidade internacional, pelos tribunais internacionais".E também tem responsabilidade económica. "Não é o Irão que é o culpado, são os EUA e Israel que são responsáveis" da crise atual.Ignatieff deixou ainda uma palavra para a Ucrânia, mostrando-se completamente em choque com o facto de um presidente dos EUA decidir "abandonar a Ucrânia". E elogiou os ucranianos que estão a lutar para serem um estado democrático ao lado de um poder hegemónico. "Um poder hegemónico que encontrou um inimigo que não desiste e está a lutar pela sua soberania", que é também a de todas as democracias.Se Putin ganhar, se a paz for imposta custando território ou soberania à Ucrânia, "isso significa que a soberania europeia seria constrangida por uma tirania autoritária que terá a capacidade de ditar resultados" no futuro. "Não podemos ter a certeza que a Rússia vai parar na Ucrânia", concluiu..Seguro: "A Europa é uma causa que vale a pena defender e, quando necessário, reformar com coragem".Rajoy defende uma Europa alinhada com as democracias e não com as ditaduras.Pedro Sánchez "está a fazer política" com a NATO e a guerra no Irão