Mariano Rajoy e Paulo Portas no Foro La Toja.
Mariano Rajoy e Paulo Portas no Foro La Toja.Foto: Leonardo Negrão

Rajoy defende uma Europa alinhada com as democracias e não com as ditaduras

Ex-primeiro-ministro espanhol participa no Foro La Toja, que regressa pelo quarto ano a Lisboa, discutindo "Os desafios políticos da Europa" com Paulo Portas.
Publicado a
Atualizado a

O ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy defendeu, esta quarta-feira (29 de abril), em Lisboa, que a Europa "não se pode alinhar com ditaduras, tem que alinhar-se com as democracias" e que "tem que ter uma política externa e de segurança comum".

Rajoy é um dos participantes no Foro La Toja, que decorre pelo quarto ano na Fundação Calouste Gulbenkian, participando num painel com o antigo vice-primeiro-ministro português Paulo Portas.

"Após a II Guerra Mundial disseram-nos que a democracia ganhou, mas não foi assim", defendeu o ex-primeiro-ministro espanhol, alegando que há três fatores que geram atualmente instabilidade: o primeiro é a ameaça que a Rússia representa, o segundo é a "concepção que os EUA têm da aliança com os seus sócios europeus", com a indicação de que é a Europa que tem que garantir a sua segurança ou fazer um esforço maior para isso, e a China é o terceiro fator.

Rajoy lembra que, tal como na altura da Guerra Fria, continua a haver dois blocos. De um lado, o da democracia, da economia de mercado, das políticas sociais. E, do outro, sem democracia, com pouca proteção social e com um capitalismo agressivo.

Diante desse cenário, a Europa deve continuar a alinhar-se com o bloco das democracias, já que aliar-se com os outros é um enorme erro. "A Europa não se tem que alinhar com ditaduras, tem que alinhar-se com democracias", afirmou, defendendo também "mais Europa do que há neste momento". Além disso, "a Europa tem que ter uma política externa e de segurança comum", defendendo também que não pode deixar que a Rússia ganhe na Ucrânia.

"Hoje, no mundo, continua a haver democracias e ditaduras. Eu quero que o meu país e a Europa estejam, onde sempre estiveram, com as democracias", explicou Rajoy, dizendo que isso "não quer dizer que estejamos sempre de acordo com o que diz o presidente dos EUA".

Em relação à situação atual, o ex-primeiro-ministro fala numa "conjuntura", lembrando que "nos EUA está a suceder o que está a suceder, mas não está escrito em sitio nenhum que essa posição é eterna".

Contudo, defendeu Rajoy, "a democracia não são apenas interesses, mas valores e princípios. Devemos continuar ai."

Em relação à China, diz que "pode ser um sócio para cooperar, um concorrente ou um rival" e que, neste momento, se converteu "num rival, dizendo", falando, por exemplo, num défice comercial "brutal" entre Espanha e China.

E depois falou também do facto de a China estar a apoiar a Rússia na questão da Ucrânia. Nesse aspeto, Paulo Portas lamentou que a relação entre Rússia e China seja hoje melhor que a entre Europa e EUA.

Paulo Portas defendeu que a Europa, ao contrário do que os mais pessimistas dizem, é uma potência geoeconómica, mas não é uma das grandes potências do mundo por sua própria responsabilidade. "A Europa convenceu-se que haveria uma coisa chamada 'paz sem defesa' e não há paz sem defesa. O maior incentivo para os russos invadirem a Ucrânia foi saber que a Europa não tinha uma defesa", resumiu.

Portas assinalou também o problema demográfico que a Europa enfrenta, defendendo que "vamos passar de sermos o Velho Continente para sermos um continente velho". E, para o resolver, defende que a Europa precisa de acordos, compromissos constantes, entre centro-direita e centro-esquerda, afirmando que o problema não se soluciona com "tweets".

"A política externa não é um reality show permanente", defendeu Portas, pedindo calma para a relação com os EUA.

"Velocidade vertiginosa"

O ministro Paulo Rangel.
O ministro Paulo Rangel.FOTO: Leonardo Negrão

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, defendeu na abertura do Foro La Toja que a mudança no mundo que já se antevia em 2024 e que acelerou em 2025 atingiu, este ano, "uma velocidade vertiginosa".

"Em 2024 disse que vivíamos um tempo de um mundo em mudança e em 2025 que essa mudança tinha acelerado. Este ano, 2026, verifico algo de mais drástico. A mudança atingiu uma velocidade vertiginosa e parece ser uma mudança de era, uma mudança de tempo, inaugurando uma nova era, um novo tempo", disse o ministro.

Citando as guerras na Ucrânia, no Irão, em Gaza ou no Líbano, mas também a tensão sobre a Venezuela, a Gronelândia, o conflito no Sudão ou no leste da República Democrática do Congo, o ministro avisou que "os indícios de um novo tempo não são meros indícios, são sinais de uma realidade ainda invisível", são "pontas de um icebergue que, apesar de vermos os sinais, não somos ainda capazes de vislumbrar qual a direção que vão tomar".

Sobre o vínculo transatlântico, Rangel defendeu que o "arrefecimento" das relações, se não mesmo uma "tensão intermitente", também tem "paradoxalmente" pontos positivos. "O tal arrefecimento obriga a Europa a tomar plena consciência da sua própria responsabilidade", afirmou, lembrando que isso era algo que os EUA já defendiam há décadas.

E lembrou que o vínculo atlântico não se deve limitar aos EUA e que é preciso olhar para a América Central e do Sul, para o Sahel e a para a costa africana. "A Europa não deve olhar para África apenas com as lentes do Mediterrâneo", disse, lembrando que a costa atlântica africana "são os nosso vizinhos do andar de baixo".

Mariano Rajoy e Paulo Portas no Foro La Toja.
Foro La Toja regressa a Lisboa como "referente da defesa de valores e princípios cada vez mais questionados"
Diário de Notícias
www.dn.pt