Guerra psicológica, ataques híbridos ou imitação. Ameaças de bomba estão a lançar medo na Europa
As ameaças de bomba são "provavelmente uma campanha coordenada de perturbação", disse o governo irlandês esta sexta-feira, depois de mais uma série de incidentes contra aviões e também meios de comunicação social locais. Em Espanha, na quinta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol disse que o continente parecia estar a enfrentar uma "agressão híbrida e uma forma de guerra psicológica". Na verdade, as ameaças, que esta manhã obrigaram também a uma série de diligências de segurança o aeroporto de Lisboa, estão a lançar o caos nos aeroportos europeus e a criar um sentimento de incerteza perante a ausência de explicações.
As ameaças já duram há alguns dias e têm vindo a intensificar-se, com cada vez mais registos de incidentes. Esta sexta-feira, além de aviões, esses alertas alastraram a edifícios de meios de comunicação social.
Na Irlanda - que na qualidade de presidente rotativa do Conselho da União Europeia, organiza na próxima quinta-feira uma reunião que deverá contar com a presença de cerca de 55 chefes de Estado e de Governo -, as instalações da emissora pública RTE foram evacuadas depois da chegada de um email com uma ameaça de bomba.
“Isto é apenas o início”, dizia o e-mail, citado pelo Financial Times. “O que aconteceu esta semana é apenas uma pequena parte do que aguarda a Europa num futuro próximo… muito em breve, estaremos a fazer explodir os seus aviões, navios de cruzeiro, estações de metro e comboios”, acrescentava a mensagem que, segundo a agência noticiosa EFE, também chegou a outros órgãos de comunicação social na Irlanda e no Reino Unido, como a Sky News. Alegadamente, o autor desses emails afirmava ser “um dos líderes do grupo responsável” pelas ameaças às companhias aéreas.
“Ameaças falsas como estas causam medo, angústia e perturbação às pessoas nas suas vidas e atividades diárias; não alcançam nenhum propósito positivo”, reconheceu o governo irlandês, num comunicado citado pelo The Guardian. “Estas ameaças surgem na sequência da contínua perturbação da aviação em toda a Europa causada por ameaças semelhantes, e parece provável que esta seja uma campanha coordenada de perturbação", acrescenta em comunicado no qual admite que “ainda não se sabe quem é o responsável por estas ameaças, se são indivíduos ou um esforço centralizado ou coordenado”.
Os emails ameaçadores que chegaram na quinta-feira a aeroportos de Roma e Sófia, em Itália e na Bulgária, respetivamente eram assinados pelo Male State (Estado Masculino, em português), um grupo misógino fundado como uma comunidade fechada nas redes sociais pelo russo Vladislav Pozdniakov, em 2016. "Ficaremos para a história com as nossas ações de hoje. O vosso regime feminista vai lembrar-se disto para sempre. A explosão ocorrerá dentro de 60 minutos. Hoje, os seus céus ficarão vermelhos", dizia o texto.
Acusado de violência contra mulheres, imigrantes e membros de minorias sexuais, entre outros grupos vulneráveis, o Estado Masculino foi classificado como extremista por um tribunal russo em outubro de 2021. Na sequência dessa decisão, foi proibido em território russo e as suas contas em redes sociais bloqueadas.
O seu fundador, Vladislav Pozdniakov, que terá emigrado para a Polónia depois de uma condenação a dois anos de prisão por incitar ao ódio contra mulheres ter sido anulada em 2019, mantém, no entanto, uma conta em nome próprio no Telegram. Na quinta-feira, fez várias publicações. Num dos vídeos, conta a EFE, respondeu a perguntas feitas por um jornalista da versão russa da BBC, em que garantiu que "há muitos anos que [o Estado Masculino] já não existe".
Paralelamente, a agência Reuters avança que as ameças à RTE e à televisão búlgara Nova TV vinham num email de alguém que assinava Mikhail Andropov e que reivindicava a responsabilidade pelas ameaças sobre aviões comerciais em toda a Europa.
Apesar de todas as dúvidas que existem sobre esta onda de ameaças, uma coisa é certa: até ao momento, em todos os casos, todas elas se revelaram falsas. Apesar disso, e perante um número crescentes de incidentes, fazem aumentar as as preocupações com ataques híbridos, num momento em que a Europa lida com outras perturbações recentes, tais como os ataques a sistemas de refrigeração de supermercados e a bancos de sangue franceses e de incursões de drones.
Segundo especialistas em segurança citados pela Reuters, estas ameaças podem partir de indivíduos a agir por motivações pessoais ou de imitadores, mas também tratar-se de um "ataque híbrido" mais coordenado.
A Agência Europeia para a Segurança da Aviação (AESA) reconheceu à agência espanhola EFE que "a ameaça imediata à segurança que estes falsos alertas individuais representam é baixa", salientando contudo que "o elevado número de desvios implica uma carga adicional" para o transporte aéreo.
Face a esta situação, a Comissão Europeia ativou um mecanismo de partilha de informações entre os Estados-membros para coordenar a resposta às ameaças de bomba.
