A União Europeia e países como Alemanha, Noruega e Países Baixos convocaram esta terça-feira, 26 de maio, os respetivos líderes das representações diplomáticas russas para obter esclarecimentos depois de Moscovo ter ameaçado na segunda-feira começar a atacar alvos militares e centros de decisão em Kiev e ter pedido que os estrangeiros, incluindo diplomatas, abandonem a Ucrânia. Uma ameaça feita depois dos pesados ataques de Moscovo no fim de semana contra a capital ucraniana que atingiram dezenas de prédios residenciais, mas também o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a sede do governo.“A ameaça demonstra, mais uma vez, algo que já sabíamos: a Rússia não tem absolutamente nenhum interesse em qualquer tipo de paz e demonstra um total desprezo por todos os esforços em prol da paz”, disse esta terça-feira a porta-voz da política externa da União Europeia, Anitta Hipper, na conferência de imprensa diária. Mais tarde, através do X, acrescentou: “A ameaça de que cidadãos estrangeiros e diplomatas abandonem Kiev é uma escalada inaceitável. O Serviço Europeu para a Ação Externa convocou o Encarregado de Negócios, pedindo o fim dos ataques a civis e que a [Rússia] inicie negociações de paz genuínas, começando com um cessar-fogo total e incondicional. A Delegação da UE na Ucrânia permanece em Kiev.”O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia classificou ontem o anúncio da Rússia sobre uma campanha de ataques contra centros de comando e empresas da indústria militar em Kiev como “chantagem descarada”. E agradeceu às missões diplomáticas estrangeiras que mantiveram os seus funcionários na capital. “De acordo com avaliações do lado ucraniano, o nível geral de ameaças à segurança que a Rússia representa para Kiev e outras cidades ucranianas permanece o mesmo que nos anos e meses anteriores”, refere o comunicado da diplomacia ucraniana.Este alerta de Moscovo levou o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, a falar ao telefone na segunda-feira à noite a seu pedido, com o homólogo norte-americano, Marco Rubio. Durante a conversa, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Lavrov informou Rubio que as forças militares da Rússia “estão a iniciar ataques sistemáticos contra instalações localizadas em Kiev que são utilizadas para as necessidades das Forças Armadas da Ucrânia, bem como contra centros onde estão a ser tomadas as decisões correspondentes”. E mencionou recomendações anteriores de Moscovo para que as missões diplomáticas estrangeiras retirassem o seu pessoal de Kiev.Lavrov explicou ainda a Rubio a decisão de Moscovo de lançar ataques contra locais em Kiev ligados às forças armadas ucranianas, afirmando que a decisão foi tomada “em resposta aos contínuos ataques terroristas do regime de Kiev contra a população pacífica e locais civis em território russo”. Moscovo tem justificado as ofensivas dos últimos dias como uma retaliação a um ataque ucraniano na região ocupada de Luhansk, alegando que este atingiu um dormitório na cidade de Starobilsk. Kiev negou ter como alvo infraestruturas civis , garantindo que o objetivo era uma instalação de comando de drones russa.Falando aos jornalistas após o telefonema, Marco Rubio comentou os ataques em Kiev durante o fim de semana, bem como os avisos de Moscovo sobre novos ataques planeados para os próximos dias, afirmando que esta guerra precisa “de chegar ao fim”. “Cada vez que se vê estes grandes ataques de um lado ou do outro, é um lembrete de porque é que esta é uma guerra terrível que já dura há mais tempo do que a Segunda Guerra Mundial, e que precisa de chegar ao fim”.O líder da diplomacia dos Estados Unidos adiantou ainda que o telefonema serviu para o russo vincar o aviso aos EUA para que retirassem os seus diplomatas de Kiev, minimizando, porém, o alerta. “Enviaram um comunicado a todas as embaixadas, e penso que ele me estava a ligar pessoalmente para me dizer - disseram a todas as embaixadas - que Kiev seria um lugar muito perigoso, Kiev já é um lugar muito perigoso há vários anos.”Mesmo assim, o americano alertou para a ameaça de uma escalada ainda maior. “O perigo em todas estas guerras, à medida que continuam, é que existe sempre a ameaça de escalada, de se transformar em algo novo.”Apesar de terem recebido o mesmo aviso de Moscovo, vários diplomatas europeus garantiram que iriam ficar na capital ucraniana, como a embaixadora da UE, Katarina Mathernova. “A Rússia quer medo. Pânico. Isolamento da Ucrânia. Não vai funcionar. A UE não vai a lugar nenhum. Permanecemos em Kiev. Permanecemos com a Ucrânia”, escreveu a diplomata eslovaca logo na segunda-feira. Numa outra frente da ameaça russa, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen esteve esta terça-feira em Vilnius reunida com os líderes de Estónia, Letónia e Lituânia, encontro realizado dias depois de um pico de tensão entre os três países do Báltico e o Kremlin na sequência de vários incidentes com drones ucranianos desviados para a região devido a interferência eletrónica russa. A par de Moscovo insistir em espalhar informação negada por Kiev e aliados de que os bálticos iriam autorizar a Ucrânia a lançar ataques contra a Rússia a partir dos seus territórios. Falando depois do encontro, o presidente da Lituânia afirmou que as incursões com drones foram “uma consequência direta da agressão da Rússia contra a Ucrânia; mais um lembrete de quão perto a guerra está de nós”, alertando ainda que “o espaço aéreo sobre os Estados bálticos não está hoje suficientemente seguro” e que a UE precisa de intensificar as suas ações nesta área. “A prioridade urgente é o reforço das capacidades de deteção de drones em múltiplas camadas e da defesa aérea. Os projetos europeus de defesa de interesse comum, especialmente a Operação de Vigilância do Flanco Leste, precisam de se tornar realidade muito mais rapidamente”, disse o presidente da Estónia, Alar Karis. “Contamos com um maior apoio da UE para isso”, referindo que “as necessidades do flanco leste também devem ser tidas em conta no próximo orçamento europeu de longo prazo”.Nauseda condenou ainda a “retórica russa cada vez mais agressiva”, nomeadamente as “campanhas coordenadas de desinformação e tentativas de espalhar falsas acusações contra os Estados bálticos e outros aliados da NATO”, voltando a reafirmar que “os Estados bálticos não permitiram nem permitirão que o seu território ou espaço aéreo sejam utilizados para ataques contra outros países”. Afirmação que foi repetida pelo presidente da Letónia, Edgars Rinkevics, e da Estónia, Alar Karis.Ursula von der Leyen alertou que “esta é uma estratégia deliberada da Rússia para tentar desestabilizar as nossas sociedades democráticas”, reconhecendo que os bálticos “têm vivido aquilo que muitos acreditavam pertencer a outra era”. “Alertas de ataque aéreo, famílias em abrigos, escolas fechadas, transportes interrompidos. Esta é a realidade na fronteira leste da Europa em 2026. Hoje está aqui. Amanhã estará em qualquer outro lugar ao longo da fronteira leste”.Para a líder do executivo comunitário, a UE “deve ser clara sobre o que isto significa” e que “estes não são incidentes isolados; trata-se de uma estratégia deliberada da Rússia para tentar desestabilizar as nossas sociedades democráticas”. E garantiu que “a Europa está em total solidariedade e união com a Estónia, a Letónia e a Lituânia, porque quando os Estados bálticos são postos à prova, a Europa no seu todo é posta à prova”.A Reuters noticiou esta terça-feira que a NATO vai reforçar a defesa do seu flanco leste com uma nova estrutura que facilitará o rápido destacamento de forças na Letónia e na Estónia em caso de guerra com a Rússia, uma mudança que realça a importância estratégica dos países bálticos. Atualmente, as forças da NATO nos bálticos e no norte da Polónia estão sob o comando de um único quartel-general multinacional na cidade polaca de Szczecin.A atribuição de um segundo corpo de exército à região permitirá à NATO mobilizar “forças em massa rapidamente”, descreveu um oficial militar à Reuters, acrescentando que, quando está totalmente operacional, um corpo de exército comanda normalmente três divisões, ou 40.000 a 60.000 soldados.A agência de notícias referiu ainda que a Alemanha e os Países Baixos, em coordenação com a NATO, chegaram a um acordo para designar o Corpo Germano-Neerlandês, sediado na cidade alemã de Münster, para a defesa da Letónia e da Estónia. Kiev quer mais apoioO embaixador da Ucrânia na Turquia disse esta terça-feira esperar que a NATO discuta o apoio financeiro a Kiev na sua cimeira de julho, sugerindo que cada Estado-membro contribua com uma pequena proporção do seu orçamento. “Um mecanismo possível seria aquele em que cada membro da NATO contribuísse com uma parte dos seus recursos financeiros para apoiar o reforço das capacidades de segurança da Ucrânia”, declarou Nariman Dzhelialov à Reuters, reconhecendo que nem todos os aliados estão disponíveis para tal, já que têm reforçar as suas próprias defesas de acordo com as regras da NATO. Volodymyr Zelensky pediu em junho que os aliados alocassem 0,25% do seu PIB para ajudar Kiev a aumentar a produção de armas, com as autoridades ucranianas a adiantarem depois que o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, teria sugerido os aliados, à exceção dos Estados Unidos, gastassem esse valor com a Ucrânia. No entanto, na semana passada, Rutte disse não acreditar que tal fosse aceite. De recordar que muitos aliados já ajudam a Ucrânia através do PURL, um mecanismo da NATO que permite a compra de armamento e equipamento militar aos Estados Unidos para entregar a Kiev. Por outro lado, o presidente ucraniano lamentou na segunda-feira à noite que Kiev fez poucos progressos nas negociações com os EUA sobre a expansão da produção de defesas antimíssil. “Estamos a tentar acelerar este trabalho na Europa, a produção dos nossos próprios sistemas antibalísticos no continente em quantidades suficientes”, afirmou Zelensky no seu vídeo diário, acrescentando ainda que “a Europa está a ajudar-nos financeiramente. Mas a liderança dos Estados Unidos também é muito necessária. Hoje é muito, muito importante dizer isso”. Quanto ao embaixador ucraniano na Turquia, nas mesmas declarações à Reuters, afirmou ainda que Kiev deseja que os aliados reafirmem o apoio ao objetivo da Ucrânia de se juntar à NATO, esperando que Zelensky seja convidado a participar na cimeira de Ancara, marcada para os dias 7 e 8 de julho..Aumenta a pressão para a Ucrânia se juntar à NATO e à União Europeia