Mural alusivo ao bloqueio de Estreito de Ormuz em Teerão.
Mural alusivo ao bloqueio de Estreito de Ormuz em Teerão.Foto: EPA / ABEDIN TAHERKENAREH

Minas no Estreito de Ormuz mantêm perigo apesar da reabertura

Irão anunciou a reabertura da passagem marítima por onde circula um quinto do petróleo e gás natural do mundo, mas processo de desminagem promete ser longo e perigoso.
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Os Estados Unidos já tinham anunciado uma operação para limpar as minas do Estreito de Ormuz. E esta sexta-feira, 17 de abril, esse é um dos pontos em cima da mesa de um grupo de mais de 40 países reunidos em Paris para debater a reabertura daquela passagem marítima, bloqueada desde o início dos ataques israelo-americanos contra o Irão, a 28 de fevereiro, primeiro por Teerão e depois também pelo encerramento dos portos iranianos pelos EUA.

Entretanto, o Irão veio anunciar a reabertura total do Estreito, pelo menos até ao prazo para o cessar-fogo (que, se não for prolongado, expira no dia 22). O presidente dos EUA, Donald Trump, reagiu com um "OBRIGADO", mas garantiu que o bloqueio americano aos navios iranianos se mantém até haver um acordo de paz. E pouco depois voltou à sua rede Truth Social para afirmar que "com a ajuda dos EUA", o Irão "removeu ou está a remover todas as minas marítimas".

Totalmente aberto ou não, uma das questões que se coloca tem a ver com a segurança da travessia, sobretudo a presença dessas minas. Ora se colocar minas marítimas é rápido e simples, removê-las é não só demorado como perigoso.

Sob ataque dos EUA e de Israel, o Irão decidiu em março colocar minas no Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do abastecimento mundial de petróleo e de gás natural. O objetivo era claro: bloquear a passagem aos navios que recusassem pagar uma espécie de portagem. Não se sabe quantas minas foram colocadas naquela passagem marítima, mas sabe-se que os iranianos terão alterado as rotas dos navios que fazem a travessia para evitar as zonas minadas. No sábado, dia 11 de abril, os Guardas da Revolução divulgaram um mapa do Estreito com as novas rotas seguras - quando antes passavam junto a Omã, agora a indicação é para passarem mais junto à costa iraniana. Com os seus maiores navios destruídos pelos bombardeamentos, a Guarda Revolucionária terá recorrido a embarcações mais pequenas, tendo mesmo divulgado um vídeo de propaganda onde mostra algumas das minas e dos navios em questão.

A 10 de abril, o New York Times garantia, citando responsáveis dos EUA, que Teerão não conseguia localizar as minas que colocara no estreito e não tinha capacidade para as remover.

Mas de que minas estamos a falar? Segundo o The Guardian, o Irão terá colocado sobretudo dois tipos: as Maham 3 e as Maham 7. Ambas são versões modernas que já não dependem de contacto físico entre o casco do navio e os mecanismos de detonação, recorrendo antes a sensores magnéticos e acústicos que detetam a proximidade de um navio antes de detonar as ogivas.

A Maham 3 é uma mina fixa de 300 quilos que pode ser usada em águas até 100 metros de profundidade. Já a Maham 7 destina-se a águas menos fundas, pesando 220 quilos e sendo colocada no fundo do mar. A sua forma cónica foi pensada para evitar a deteção por sonar.

Embora o Estreito de Ormuz seja isso mesmo - estreito - a zona minada abrange uma área extensa onde os caça-minas americanos seriam alvos fáceis em caso de reinício do conflito. A melhor opção, também segundo o The Guardian, é recorrer a veículos marítimos não tripulados de deteção de minas. Para isso os EUA podem contar com o caça-minas submarino Knifefish e com o navio anti-minas MCM, parecido com uma lancha rápida. Outra opção seria lançarem o sistema aéreo de neutralização de minas AN/ASQ-235 (Archerfish) a partir de um helicóptero MH 60S. Controlado pela tripulação do helicóptero, este usa veículos equipados com sonar para detetar e destruir as minas.

Todos estes equipamentos, apesar de não serem tripulados, exigem contudo a presença nas proximidades de navios ou aviões a partir dos quais seriam controlados, deixando as suas tripulações à mercê de eventuais ataques iranianos. No dia 11, dois contratorpedeiros americanos – o USS Frank E. Petersen e o USS Michael Murphy – atravessaram o estreito, numa operação que o Comando Central dos EUA disse ter como objetivo "preparar as condições para a remoção de minas".

O direito internacional estipula que não é permitido utilizar minas para bloquear o trânsito internacional em estreitos abertos à passagem. No entanto, o Irão reivindica parte do estreito como suas águas territoriais. Além disso, existem leis internacionais e reivindicações sobrepostas relativas ao Estreito de Ormuz, uma situação que se complica pelo facto de nem o Irão nem os EUA serem signatários da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1994.

Durante a Guerra Irão-Iraque (1980-88), o Irão também colocou minas no Estreito de Ormuz para travar as exportações iraquianas. Na também chamada "Guerra dos Petroleiros", Bélgica, França, Itália, Países Baixos e o Reino Unido responderam ao apelo dos EUA e participaram em missões de escolta e de desminagem. Agora, os europeus, reunidos na tal cimeira em Paris, parecem dispostos a repetir a ajuda.

Mural alusivo ao bloqueio de Estreito de Ormuz em Teerão.
"No Golfo Pérsico além da grande fortaleza de Ormuz os portugueses ainda construíram uma outra em Mascate"

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