Qual o valor estratégico de Ormuz para Portugal naquele início do século XVI?Depois da viagem de Vasco da Gama e logo desde os inícios do século XVI os portugueses manifestaram a intenção de impedir os muçulmanos de continuarem a escoar mercadorias preciosas para o Mediterrâneo como vinham fazendo nos séculos anteriores. Para que Portugal conseguisse impor vitoriosamente a sua nova Rota do Cabo da Boa Esperança para o Oriente, contra a antiga Rota do Levante, era necessário controlar as entradas do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico. Em 1507, no cumprimento das inovadoras e ambiciosas diretivas geoestratégicas da política expansionista de D. Manuel I, Afonso de Albuquerque dirigiu-se ao golfo Pérsico. Nesse sentido o capitão português explorou pela primeira vez o litoral dos atuais Omã e Emirados Árabes Unidos tendo atacado as cidades de Calaiate (Qalhat), Curiate (Qurayyat), Mascate (Muscate), Soar (Sohar) e Corfação (Khor Fakkan). Ao entardecer do dia 26 de setembro de 1507, os portugueses chegaram à ilha e cidade de Ormuz, no atual Irão, que tinha grande importância por estar no chamado estreito de Ormuz, à entrada do golfo Pérsico, de onde se podia controlar a navegação que por ali passava.Como foi a conquista portuguesa de Ormuz?Em Ormuz, Afonso de Albuquerque não conseguiu chegar a um acordo com as autoridades locais para assegurar a presença comercial dos portugueses na região. A hostilidade com que foi recebido levou-o a dirigir uma ofensiva contra aquela cidade que se traduziu numa violenta batalha naval em que o poder naval e da artilharia dos portugueses lhes permitiu alcançar a vitória. Em resultado desta ação, o soberano local, que os portugueses disseram chamar-se Ceifadim, assinou em 10 de outubro de 1507 um tratado de paz com Portugal através do qual reconheceu a suserania portuguesa sobre a cidade, comprometendo-se a pagar um tributo e a autorizar o estabelecimento de uma fortaleza portuguesa que permitisse assegurar-lhes o domínio do comércio no Golfo Pérsico. Os trabalhos para levar a cabo essa construção iniciaram-se em 24 de outubro de 1507, mas desentendimentos entre Afonso de Albuquerque e alguns dos seus capitães, que questionaram aquela iniciativa, não permitiram que a fortaleza se concluísse. Por tal motivo em janeiro de 1508 Afonso de Albuquerque deixou a fortaleza por acabar, só a tendo construído em 1515, quando nesse ano ele lá regressou em abril. A fortaleza foi então batizada com o nome de Nossa Senhora da Conceição. Tratava-se de um imponente conjunto arquitetónico dominado por uma torre de menagem e torreões, o qual foi sendo ampliado e reforçado. Em grande parte tal fortaleza ainda subsiste apesar de ser pouco conhecida e de muito difícil acesso.Para manter a fortaleza na ilha foi necessário negociar alianças locais?Os portugueses exerceram desde então um protetorado sobre a ilha de Ormuz, que se revelou ser uma das regiões orientais mais lucrativas de entre as que estiveram sob a sua influência pois era por aí que passava um rico comércio de especiarias, tecidos e cavalos que passaram a controlar. Ormuz dependia do xeque Ismael (Esmail Abu‑l Muzaffar, 1484‑1524) que assumiu o poder na Pérsia, tendo então aí instaurado o xiismo como religião oficial e dando origem à dinastia safávida que a dominou. Foi com ele que os portugueses estabeleceram relações diplomáticas delicadas visando manter o poder em Ormuz, o que conseguiram apesar de ainda terem sofrido vários ataques. . Como se deu a perda de Ormuz, após cerca de um século de domínio?Apesar de frequentes conflitos com entidades da região onde estava Ormuz os portugueses sempre conseguiram manter a sua posição dominante até que a queda da sua fortaleza veio a ocorrer em 15 de maio de 1622, pois tiveram de se render após um duro cerco iniciado em 2 de fevereiro de 1622 que lhe foi feito por um numeroso exército persa chefiado pelo xá Abbas I. Este só saiu vitorioso devido ao apoio decisivo de navios ingleses então inimigos dos portugueses alegadamente por estes terem os Filipes como soberanos. Na costa da Pérsia os portugueses ainda dominaram durante algum tempo um forte na ilha de Comorão (Goombron - Bandar Abbas, Irão), que se destinava a apoiar Ormuz, mas perderam-no para os persas em 22 de setembro de 1614. Na sequência da perda de Comorão e na impossibilidade da sua recuperação Rui Freire de Andrade construiu em 1621 um forte na ilha de Queixome (Qeshm, Irão), ilha próximo de Ormuz, mas que foi tomado pelos persas devido à intervenção de uma armada inglesa, a qual levou à rendição das tropas portuguesas em 2 de fevereiro de 1622, depois de uma luta feroz. No Golfo Pérsico além da grande fortaleza de Ormuz os portugueses ainda construíram em 1551 uma outra em Mascate (Muscat, Omã), que depois de muitas vicissitudes acabou por ser conquistada pelos omanitas em 26 de janeiro de 1650, arrastando consigo as posições que os portugueses ainda dominavam a região. Foi devido à ação de Rui Freire de Andrade que entre 1623 e 1632 procurou proteger Mascate e minimizar os efeitos da perda de Ormuz que se construíram para esse efeito fortificações em: Curiate (Quriyat, Omã), Matara (Mutrah, Omã), Sibo (Al Seeb, Omã), Borca (Barka, Omã), Soar (Suhar, Omã), Corfação (Hur Fakkan, Emirados Árabes Unidos), Quelba (Kalba, EmiradosÁrabes Unidos); Mada (Madah, Emiratos Árabes Unidos), Libédia (Al-Bidaya, Emiratos Árabes Unidos), Doba (Dibba Al-Hisn/Dibba Al-Fujairah, Emiratos Árabes Unidos). Na ilha de Barém (Qal’at Al-Bahrain, junto da cidade de Manama, Bahrein) os portugueses construíram uma fortaleza em 1559 que foi conquistada pelos persas em 1612. No século XVII, os portugueses ainda tiveram feitorias em Baçorá (Basra, Iraque) e Congo (Bandar-e Kong, Irão). .Falta de vento impediu Afonso de Albuquerque de conquistar Meca em 1513 -- Historiador