Drones a jato são a dor de cabeça atual para os ucranianos
Há oito dias consecutivos que os cidadãos de Kiev e seus arredores não têm descanso. Vagas sucessivas de drones russos, de dia e de noite, atingem todo o tipo de alvos. Até há pouco, a defesa ucraniana afirmava ter uma taxa de sucesso de abate dos aparelhos não tripulados de 90%. Aliado à escassez de mísseis intercetores da antiaérea ucraniana, um novo dado se junta à equação: o uso de drones com propulsão a turbojato por parte das forças de Moscovo. A capacidade para suster esta tipologia de drones é menor, o que leva, segundo Kiev, a abater 60% destes engenhos.
A Ucrânia desenvolveu e aplicou conhecimentos sobre drones de ataque como nenhum outro país, como se vê pelas notícias quase diárias de ataques com precisão a milhares de quilómetros. Mas a Rússia, apesar das sanções económicas, não ficou parada. Depois de, numa primeira fase, ter recorrido sobretudo à importação de aeronaves iranianas — em especial os Shahed —, a indústria militar russa adaptou aquele modelo. Nasceram o Geran e o Gerbera. Este último, feito de materiais baratos, serve não só para levar cargas explosivas, mas também ou sobretudo para saturar os sistemas de defesa aéreo e servir de isco durante ataques maciços, em paralelo com o ataque dos outros drones e também de mísseis.
Os engenheiros russos desenvolveram o conceito e adaptaram a tecnologia de propulsão a jato. Apareceram o Geran-3 nos céus ucranianos em 2025, o Geran-5 no início deste ano e, por fim, o Geran-4. Até há pouco a percentagem de uso destas aeronaves kamikaze durante os ataques russos era baixo. Mas a situação inverteu-se no verão. Em julho, o seu uso quintuplicou em relação ao mês anterior, chegando aos 1500 e, só em agosto, foram lançados contra a Ucrânia 2800 drones a turbojato, segundo dados da Força Aérea ucraniana.
Segundo fontes ouvidas pela RBC-Ukraine, a meta de Moscovo para novembro é usar 80% deste tipo de drones e 20% dos drones convencionais, o que, a manter-se a produção prevista para setembro, 4700 drones dos vários modelos Geran, apresenta uma dor de cabeça acrescida para os militares ucranianos.
Qual a diferença?
O Geran-2 apresenta um alcance superior a mil quilómetros, mas a sua velocidade máxima de 200 km/h e a relativa baixa altitude fazem dele um alvo relativamente fácil (por exemplo, um militar munido de uma espingarda metralhadora). Mas com os motores a turbojato, as novas versões aceleram entre 300 e 600 km/h e a altitudes superiores, entre quatro e seis quilómetros, impossibilitando a defesa com recurso a espingardas e dificultando o uso dos sistemas portáteis de mísseis (Manpads). Por outro lado, os atuais drones intercetores de drones não têm a velocidade necessária para deter os novos Geran.
O menor alcance dos Geran a jato está a ser contornado com lançamentos a menor distância, e segundo relatos não confirmados, também do ar. Nesse caso, através de helicópteros Mi-28.
Neste momento, para tentar limitar os efeitos dos ataques russos, as defesas antiaéreas ucranianas apostam num mix de guerra eletrónica, de mísseis intercetores de sistemas caros e escassos, como os Patriot, Nasams ou Iris-T, e da aviação. Segundo o diretor de comunicação da Força Aérea, Yurii Ihnat, os seus pilotos tentar abater os drones com mísseis, mas também com os canhões dos aviões.
A Ucrânia pensa responder em breve. No domingo passado, no mesmo dia em que Zelensky estabeleceu como meta a taxa de 90% de abate de todos os drones russos, o ministro da Defesa disse que há quatro modelos de drones antidrone em desenvolvimento "capazes de abater os Shaheds com propulsão a jato", tendo já sido realizados testes. O desafio é ultimá-los e fabricá-los em massa no mais curto tempo. "A tarefa é levar estas soluções ao nível necessário o mais rapidamente possível e aumentar a produção para milhares de unidades", disse Yevhenii Khmara.
Perante estes ataques continuados, que têm aumentado a destruição das infraestruturas, do parque habitacional e causado um número crescente de vítimas, o presidente ucraniano disse já estar preparada uma resposta, depois de ter falado com o chefe dos serviços de segurança (SBU). A conversa com Oleksandr Poklad decorreu pouco depois de a sede do SBU ter sido atacada por um drone.
"Já sabemos onde vamos atuar", disse o presidente ucraniano, tendo acrescentado que o momento da resposta será escolhido em função dos resultados pretendidos.
Esta escalada dá-se em paralelo ao retomar de movimentações diplomáticas. Vladimir Putin mostrou abertura para negociações diretas com a Ucrânia e os enviados especiais de Donald Trump vão a Moscovo e Kiev neste fim de semana.

