O primeiro mês de 2026 tem sido particularmente agitado para os Emirados Árabes Unidos e o seu presidente, xeque Mohamed bin Zayed Al Nahyan (MBZ), com especial destaque para o facto de ter acolhido as negociações de paz lideradas pelos Estados Unidos entre a Ucrânia e a Rússia, a que se somou, na sexta-feira, 30 de janeiro, um encontro em Moscovo entre Vladimir Putin e o líder deste país do Golfo, no qual, além das relações bilaterais, foram discutidos temas como o conflito em solo ucraniano e o Médio Oriente. A última semana de janeiro ficou também marcada pela visita oficial a Abu Dhabi do presidente italiano, Sergio Mattarella, cimentando a parceria estratégica entre os dois países anunciada há cerca de um ano, durante uma visita de MBZ a Roma, e que envolveu a assinatura de um acordo de investimento que ronda dos 40 mil milhões de euros. “Apesar da sua população relativamente pequena, os EAU emergiram como uma das potências médias mais influentes do mundo, alavancando a diversificação económica, o ativismo diplomático e o investimento estratégico para expandir a sua influência global muito para além das suas dimensões geográficas”, refere uma análise do Instituto para a Economia e Paz (IEP) publicada na sexta-feira, 30 de janeiro.Esta análise aponta como mais-valias o facto de Abu Dhabi, mas também o Dubai, funcionarem “como nós críticos que ligam a Europa, a Ásia e África, facilitando os fluxos de capitais, as rotas de transporte e as redes comerciais entre regiões”, notando que “os investimentos estratégicos dos EAU em portos, logística e infraestruturas, abrangendo África, o Sul da Ásia e o Mediterrâneo, alargaram ainda mais o seu alcance”. A par desta face económica, os EAU têm apostado numa política externa cada vez mais ativista. “Na última década, o país alargou a sua presença diplomática, aprofundou parcerias no Médio Oriente, em África e na Ásia e desempenhou um papel ativo nos esforços de mediação regional”, sublinha o IEP. E, ao contrário dos aliados tradicionais enraizados nos campos ocidentais ou não ocidentais, os EAU mantêm relações que transcendem as divisões geopolíticas, envolvendo-se “com os EUA e a Europa, ao mesmo tempo que expande laços com China, Índia, Rússia e as economias emergentes”, pode ler-se na mesma análise, sublinhando que “emergiram como uma das potências médias mais eficazes, moldando os resultados não através da dimensão ou da coerção, mas da conectividade, diversificação e visão estratégica”.Paralelamente, desde o ano passado, a projeção dos EAU na zona do Mar Vermelho, que dura há uma década, entrou numa fase difícil, coincidindo com crescentes divergências políticas com a Arábia Saudita, estando a sua influência atualmente sob pressão em três países - Iémen, Sudão e Somália. Como nota o Instituto de Estudos Políticos Internacionais (ISPI), no Iémen, o Conselho de Transição do Sul, apoiado pelos EAU, foi repelido pela Arábia Saudita, uma vez que os seus ganhos territoriais passaram a ser percebidos por Riade como uma ameaça à segurança nacional. Já na Somália, o reconhecimento da independência da Somalilândia por parte de Israel em dezembro, e criticado pela Arábia Saudita, desencadeou uma forte reacção de Mogadíscio, que posteriormente cancelou os acordos bilaterais com Abu Dhabi - os EAU não reconheceram a Somalilândia como um Estado, mas cultivam laços com a região separatista. No Sudão, as alegações do governo de apoio militar dos EAU às Forças de Apoio Rápido estão a gerar tensões com Riade, que apoia as Forças Armadas Sudanesas, uma situação que preocupa a região. “Dado que (...) ambos procuraram a ajuda dos EUA para as suas respetivas políticas regionais, os EUA são o único ator em condições de mediar as relações entre a Arábia Saudita e os EAU, mas apenas a médio e longo prazo”, refere Aziz Alghashian, do Centro de Investigação Aplicada em Parceria com o Oriente.Mais otimista, Eleonora Ardemagni, investigadora do ISPI, recorda que os dois partilham interesses de segurança na região do Mar Vermelho que superam em muito as rivalidades. “Riade e Abu Dhabi têm como objetivo conter a influência do Irão na zona e enfraquecer mais a capacidade ofensiva dos Houthis. Ambos pretendem impedir que a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) retome o controlo dos territórios nas regiões do sul do Iémen e combater o crescente triângulo de contrabando de armas e terrorismo formado por Houthis, Al-Shabaab e AQAP"..Iémen revela tensão antiga entre Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.Negociações trilaterais já começaram em Abu Dhabi. Quem é quem nas delegações da Rússia, Ucrânia e EUA?