António Guterres: “Os mandatos passam. A luta pela paz, pela dignidade e pela justiça continua"
A dois meses de deixar o cargo, Antónios Guterres, secretário-geral das Nações Unidas (ONU), defendeu esta sexta-feira (6 de novembro), na Universidade de Salamanca, em Espanha, num discurso de agradecimento pelo doutoramento honoris causa, “que os mandatos passam, mas a luta pela paz, justiça e dignidade continua”, pedindo coragem face “ao ódio e à lei do mais forte”.
“Os mandatos passam. A luta pela paz, pela dignidade e pela justiça continua. O que dizíamos ontem continuaremos a dizê-lo e a defendê-lo amanhã”, disse o secretário-geral das Nações Unidas, que deixará o cargo no final do ano.
Numa espécie de balanço sobre o seu legado, o antigo primeiro-ministro português disse ter sido um privilégio servir a organização durante 20 anos, como secretário-geral e como alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados. “Conheci pessoas que perderam tudo menos a esperança”, em “cidades arrasadas pela guerra, campos de refugiados ou ilhas ameaçadas pelo mar”, que lhe ensinaram que "a dignidade tem um rosto e um nome”. E por isso, a distinção que hoje recebeu da Universidade de Salamanca, “também é para elas” e para os funcionários das Nações Unidas que “as acompanham todos os dias” e, “muitas vezes, à custa da própria vida”.
Segundo Gueterres, a paz só é possível se o mundo “funcionar em rede, unido a um direito internacional que todos respeitem e com instituições em que todos os países tenham voz”. E revelou que está em curso uma tentativa de reformar a Organização das Nações Unidas, que continua a refletir o mundo de 1945, saído da Segunda Guerra Mundial. No entanto, nenhuma reforma é possível ou sustentável sem um novo impulso da razão: "A nossa época precisa de coragem frente à mentira, ao ódio e à lei do mais forte, ainda que seja impopular e arriscado.”
Por isso, as universidades, segundo o líder da ONU, “são insubstituíveis” neste contexto, porque nelas se aprende a “duvidar, verificar e debater”, pelo que é preciso proteger “a liberdade académica e a independência da investigação”.
No momento em que se prepara para deixar a ONU, António Guterres revelou as “cinco provas decisivas” do sucessor: a prevenção, procura e manutenção da paz, a garantia da dignidade de todas as pessoas; a equidade, a justiça climática e o controlo e regulação da revolução tecnológica em curso, associada à Inteligência Artificial.
O secretário-geral das Nações Unidas recebeu o doutoramento honoris causa da Universidade de Salamanca, Espanha, numa cerimónia em que esteve o Presidente da República portuguesa, António José Seguro. A concessão deste título a António Guterres insere-se nas celebrações do V Centenário da Escola de Salamanca. "[António Guterres] É um intelectual e um estadista que dedicou a sua carreira a humanizar a governação global e a defender ativamente a dignidade intrínseca de cada ser humano", disse o vice-reitor da instituição, José Miguel Mateos Roco, citado num comunicado.
Com Lusa

