Guterres em tom de despedida: "O poder das superpotências não é assim tão super"
No seu último discurso enquanto secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na respetiva Assembleia Geral, António Guterres criticou esta terça-feira, 22 de setembro, a rivalidade entre dois blocos que levou à incapacidade de ação do Conselho de Segurança. "Construir um futuro em rede começa com o reconhecimento, especialmente por parte das superpotências, de que o seu poder não é assim tão super. O seu poder tem limites. Os acontecimentos dos últimos anos tornaram isso inequivocamente claro", disse o português na abertura do período do chamado debate geral da Assembleia Geral.
"O poder militar sozinho não pode garantir a paz. O poder económico sozinho não pode assegurar a estabilidade", prosseguiu. "E o poder tecnológico sozinho não pode garantir a segurança. Um mundo multipolar em rede pode criar as condições para uma resolução de problemas globais mais equilibrada e representativa. Mas isso requer um sistema multilateral centrado nas Nações Unidas", defendeu.
Na defesa do papel das Nações Unidas, António Guterres, que fez da reforma da instituição o seu grande objetivo, defendeu a inclusão de um país africano no Conselho de Segurança. "Um Conselho de Segurança do século XXI sem assentos permanentes para África é injusto e indefensável. Isto tem de mudar", afirmou.
Durante o seu discurso, o secretário-geral destacou quatro prioridades, ou "testes de poder", para o futuro próximo: "O poder sobre a guerra e a paz. O poder que concentra riqueza e aumenta a desigualdade. O poder que alimenta o caos climático e a guerra contra a natureza. E o poder libertado pela inteligência artificial."
Sobre a guerra, fez, como é habitual, um apelo ao calar das armas, tendo destacado os conflitos em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e na Birmânia (Myanmar). "Estes e tantos outros conflitos mostram o que acontece quando o poder sai do controlo, a força supera a diplomacia, os orçamentos militares disparam e a responsabilização desaparece.
O teste que temos pela frente é se o poder será exercido de acordo com a lei, ou para além dela", tendo de seguido apelado para a defesa da Carta das Nações Unidas "sem recorrer a padrões duplos".
Sobre a questão da desigualdade, Guterres revelou, com "orgulho", a obtenção de um "marco extraordinário": as Nações Unidas atingiram a paridade de género pela primeira vez "em toda a liderança sénior, em todas as sedes, e em todos os profissionais". O dirigente lembrou que tal aconteceu porque foram removidas barreiras e recusaram-se
a "aceitar que o poder deva apresentar-se como sempre se apresentou". Em resumo: "A igualdade não é um sonho. É uma decisão."
Sobre a inteligência artificial, Guterres lembrou o seu primeiro discurso, no mesmo púlpito, em 2017, no qual a descreveu como uma mudança revolucionária que "pode acelerar o desenvolvimento e transformar vidas de forma incrível", mas que, por outro lado, pode ter um "impacto dramático" em especial no mercado de trabalho e na segurança global. Agora, ao comparar os riscos da IA com os da energia nuclear, fez questão de dizer que é nas Nações Unidas que a IA deve ser regulada através de um quadro multilateral de gestão de riscos de IA.
No final do discurso, Guterres, que deixa o cargo no último dia do ano, recebeu uma ovação de pé.

