Última Assembleia Geral da era Guterres arranca sem sucessor à vista e atrás de uma ONU "ao serviço de todos"
A 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a última do mandato de António Guterres como secretário-geral, arranca esta terça-feira (8 de setembro) ainda sem luz verde na corrida à sucessão do português.
"Restabelecer a confiança, gerir a transformação: umas Nações Unidas ao serviço de todos" é o tema da Assembleia Geral, que terá como presidente Khalilur Rahman, atual chefe da diplomacia do Bangladesh, que foi eleito para o cargo a 2 de junho.
“Vou dedicar-me a reconstruir a confiança, a cultivar o consenso e a abrir espaço para negociações de boa-fé que conduzam a resultados para todos, que sejam da responsabilidade de todos”, disse Rahman no seu discurso após a eleição.
Vai suceder à alemã Annabela Baerbock, que foi a presidente da 80.ª Assembleia Geral.
Guterres abrirá os trabalhos esta terça-feira (8 de setembro), pela última vez depois de dois mandatos de cinco anos como secretário-geral da ONU. Contudo o grande discurso será apenas no início do Debate Geral, a 22 de setembro, antes das intervenções dos líderes mundiais.
Guterres deixa o cargo no último dia de dezembro, com o sucessor ou sucessora a tomar posse no primeiro dia de 2027.
Corrida à sucessão
Mas a eleição do próximo secretário-geral das Nações Unidas está complicada, com cinco mulheres e três homens na corrida e duas votações secretas no Conselho de Segurança que não permitiram estabelecer um favorito.
A primeira votação, a 30 de julho, foi ganha pela antiga vice-presidente da Costa Rica e secretária-geral ibero-americana, que atualmente está à frente da ONU Comércio e Desenvolvimento, Rebeca Grynspan (que tinha tido dez votos de encorajamento, um de desencorajamento e quatro sem opinião).
Mas, na segunda votação, a 21 de agosto, a antiga ministra dos Negócios Estrangeiros da Guiana e atual embaixadora do país na ONU, Carolyn Rodrigues-Birkett, foi a mais bem colocada, apesar de ter tido apenas oito votos de encorajamento, três de desencorajamento e quatro sem opinião.
Para conseguir ser eleito, um candidato precisará de pelo menos nove votos a favor, com nenhum veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido).
A próxima votação (conhecida como straw poll) está prevista para 17 ou 18 de setembro, com outra possível logo a 28 ou 29 de setembro. Espera-se que os membros permanentes comecem a votar em boletins vermelhos, para os diferenciar dos votos dos outros membros, e permitir verificar melhor as hipóteses dos candidatos.
Além de Grynspan e Rodrigues-Birkett, estão na corrida o argentino Rafael Grandi, diretor da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), que foi terceiro nas duas votações.
Seguiu-se, na última straw poll, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, o ex-presidente senegalês Macky Sall, a ex-chefe da diplomacia equatoriana María Fernanda Espínosa, e o diplomata ugandês Olara Otunnu. Ivone Baki, diplomata com dupla nacionalidade equatoriana e libanesa que entrou na corrida dias antes da segunda votação, ficou em último com oito votos a desencorajar e sete sem opinião.
Discurso de Guterres em 2025
O ponto alto da Assembleia Geral é o Debate Geral, durante o qual discursam os líderes mundiais. Começa no dia 22 de setembro. Antes dos líderes subirem ao púlpito, Guterres fará o seu discurso de balanço.
No ano passado, o português abriu a Assembleia Geral com um diagnóstico muito sombrio da situação internacional, argumentando que guerras, divisões geopolíticas, crise climática e desigualdades estavam a empurrar o mundo para uma fase de instabilidade sem precedentes.
"Entrámos numa era de perturbação imprudente e sofrimento humano incessante", afirmou a 23 de setembro de 2025.
Perante esse cenário, defendeu que os Estados tinham de escolher entre um sistema baseado na força e outro assente no multilateralismo e no direito internacional.
Guterres falou na escolha entre "um mundo regido pela força ou um mundo regido pelas leis. Um mundo marcado pela competição dos interesses próprios ou um mundo em que as nações se unem".
E lembrou que "os direitos humanos não são um ornamento da paz. São o seu alicerce", afirmou.
O secretário-geral centrou o discurso na Ucrânia, Gaza, financiamento do desenvolvimento e clima, insistindo que a ONU continua a ser o principal fórum para enfrentar desafios globais.
A mensagem de fundo foi um apelo à cooperação internacional num momento em que, segundo ele, a ordem internacional está sob forte pressão.
Debate Geral
Depois do balanço de Guterres, a primeira intervenção no Debate Geral é sempre do Brasil, que este ano voltará a estar representado pelo presidente Lula da Silva, com o presidente dos EUA, Donald Trump, a ser o segundo a intervir.
Os discursos começam no dia 22 de setembro, estando na lista provisória de oradores, apresentada no sábado, ainda o líder da Turquia, do Chile, da França, de Angola, do Reino Unido e do Japão no primeiro dia.
O primeiro-ministro português, Luis Montenegro, terá a sua intervenção no terceiro dia, 24 de setembro, à tarde.
No segundo dia (23 de setembro) será o discurso do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, mas também do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Alemanha e Espanha têm também a sua intervenção neste dia, apesar de serem representados pelo chanceler Friedrich Merz e o primeiro-ministro Pedro Sánchez, respetivamente, e os chefes de governo normalmente só intervirem depois de todos os chefes de Estado.
No dia do discurso de Montenegro intervém também a União Europeia, o Estado da Palestina e Israel, além da Venezuela.
O discurso do representante chinês será no quinto dia (26 de setembro), junto com Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, além de Cuba, Índia e México.
O último dia, 28 de setembro, termina com as intervenções do Afeganistão e da Nova Zelândia.
Um mês de trabalhos
A 81.ª Assembleia decorre num contexto mundial complexo, marcado por tensões geopolíticas e conflitos crescentes, pressão sobre o financiamento do desenvolvimento e da própria ONU, rápidas mudanças tecnológicas e o aquecimento global, fatores que continuam a testar o sistema internacional.
Ao longo de um mês, haverá eventos dedicados a questões climáticas, mas também se vai comemorar o 40.º Aniversário da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento e estudar-se a resposta a pandemias. Vai assinalar-se o 25.º aniversário da adoção da Declaração e do Programa de Ação de Durban - um plano global para a justiça e a igualdade racial - e Dia Internacional para a Eliminação Total das Armas Nucleares.


