A escolha do sucessor de António Guterres entra esta quinta-feira na fase decisiva, quando os 15 membros do Conselho de Segurança realizarem o primeiro straw poll, a votação informal que costuma revelar quem tem condições para chegar ao topo das Nações Unidas. A corrida que era inicialmente a seis - mas passou a sete nos últimos dias - decorre num momento difícil para a organização, marcado por guerras na Europa e no Médio Oriente, rivalidade entre as grandes potências, bloqueios frequentes no Conselho de Segurança e uma crise financeira que está a obrigar a ONU a reformar-se. Mais do que escolher um novo secretário-geral, os Estados-membros procuram alguém capaz de devolver influência e credibilidade a uma organização que celebrou o seu 80.º aniversário sob pressão. Quem suceder ao antigo primeiro-ministro português encontrará uma ONU confrontada com um mundo mais dividido, mais competitivo e menos disposto a construir consensos. A questão é saber se conseguirá devolver relevância à organização.O sucessor de Guterres “não herdará apenas uma agenda carregada de crises. Herdará, sobretudo, a tarefa de fazer reconhecer que os desafios globais só podem ser enfrentados com algum grau de cooperação coletiva”, escreveu num artigo de opinião no DN o ex-secretário-geral-adjunto da ONU Victor Ângelo. .ONU: um novo secretário-geral num mundo em fragmentação.Para o diplomata português, a intensificação da competição entre grandes potências, a disputa em torno da inteligência artificial e a erosão da confiança nas instituições multilaterais constituem alguns dos principais desafios que aguardam o próximo líder.“Straw poll”A Carta da ONU estabelece que o secretário-geral é nomeado pela Assembleia Geral, mas apenas após recomendação do Conselho de Segurança. Na prática, isso faz deste último órgão o verdadeiro palco da eleição. O processo começa com as straw polls, votações informais e secretas em que cada um dos 15 membros indica se “encoraja”, “desencoraja” ou não tem opinião sobre cada candidato. As rondas sucedem-se até se tornar claro quais os nomes com capacidade para reunir apoio suficiente. Nas primeiras votações, todos os membros utilizam boletins idênticos, o que impede saber se um voto negativo partiu de um país com direito de veto ou de um membro eleito. Apenas numa fase mais avançada, quando o número de candidatos começa a reduzir-se, entram em cena os boletins coloridos: os cinco membros permanentes votam em boletins vermelhos, o que permite distinguir os seus votos dos dos restantes dez membros do Conselho. É nesse momento que se percebe se algum candidato enfrenta a oposição dos EUA, Rússia, China, França ou Reino Unido. Para chegar à Assembleia Geral, um candidato precisa de obter pelo menos nove votos favoráveis e evitar vetos.Num artigo publicado pelo Global Observatory do Instituto Internacional da Paz, o antigo funcionário da ONU Daniel Safran-Hon argumenta que os cinco membros permanentes escolhem o vencedor, mas são os dez eleitos que definem quais os candidatos que chegam verdadeiramente à fase decisiva. “Os P5 fazem a escolha final, mas os E10 escrevem o menu”, resumiu. Apesar de, em teoria, as votações serem à porta fechada, os resultados acabam por vir a público.A história mostra que nem sempre vence o candidato mais conhecido ou aquele que gera mais entusiasmo. Em eleições para secretário-geral da ONU, ser a segunda escolha de toda a gente pode ser mais importante do que ser a primeira escolha de muitos. O exemplo clássico continua a ser o de 1981, quando um impasse entre EUA e China levou à escolha de um nome de compromisso, o peruano Javier Pérez de Cuéllar.No caso de Guterres, eleito em 2016 (e reeleito por unanimidade em 2021), muitos defendiam então que era a vez de uma mulher assumir o cargo e os olhos estavam postos numa da Europa de Leste, região que nunca tinha produzido um secretário-geral. No entanto, apesar de haver várias candidatas que cumpriam esse requisito, o português destacou-se desde o primeiro straw poll, liderando todas as votações informais e acabando por reunir um consenso que nenhum rival conseguiu igualar. Dez anos depois, a ideia de uma mulher à frente da ONU volta a ser falada e o foco está na região da América Latina e Caraíbas. Mas nem todos os sete candidatos (um deles de última hora) cumprem esses requisitos, com a Reuters a lembrar que chegamos à primeira votação “sem um claro favorito” e que o processo poderá prolongar-se durante várias rondas até ao início do outono. Sete candidatosNa corrida estão seis candidatos que participaram no recente town hall (debate público) organizado pela Bloomberg em parceria com a presidente da Assembleia Geral, Annalena Baerbock, no hemiciclo das Nações Unidas, em Nova Iorque: a chilena Michelle Bachelet, a equatoriana María Fernanda Espinosa, o argentino Rafael Grossi, a costa-riquenha Rebeca Grynspan, a guianesa Carolyn Rodrigues-Birkett e o senegalês Macky Sall. Nos últimos dias juntou-se ainda o ugandês Olara Otunnu, transformando oficialmente a corrida numa disputa a sete. .Bachelet, antiga presidente do Chile de 74 anos e ex-alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, apresenta-se como a candidata da experiência política e da defesa desses direitos. No debate afirmou que o próximo secretário-geral deve ser “parcial apenas em relação à Carta das Nações Unidas” e defendeu uma ONU “mais enxuta, mas com mais músculo”. Também sublinhou que “chegou o momento de uma mulher estar ao leme”. Uma das suas fragilidades é não ter o apoio do atual governo do Chile, do presidente José Antonio Kast. .A equatoriana Espinosa, de 61 anos, antiga presidente da Assembleia Geral e ex-ministra dos Negócios Estrangeiros, centra a campanha na reforma institucional - insiste que não pode ser só “um slogan” - e na prevenção de conflitos. Defende ainda uma ONU mais integrada, capaz de ultrapassar os “silos” que separam segurança, desenvolvimento e direitos humanos, e sustenta que a organização precisa de recuperar a confiança dos Estados e também dos cidadãos. .Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) de 65 anos, é visto por muitos diplomatas como um dos candidatos mais fortes devido à experiência adquirida nas negociações relacionadas com a guerra na Ucrânia e com o programa nuclear iraniano. Durante o debate, lamentou que a ONU esteja ausente da resolução de muitos conflitos e afirmou que “é isto que a ONU tem de recuperar”. Para o argentino, o secretário-geral deve apresentar soluções concretas e não apenas discursos, defendendo uma abordagem pragmática baseada na credibilidade e na imparcialidade..A costa-riquenha Grynspan, atual secretária-geral da ONU Comércio e Desenvolvimento, colocou a reconstrução da confiança no centro da sua candidatura. No town hall afirmou que “o bloqueio do Conselho de Segurança é o momento em que começa o trabalho do secretário-geral” e declarou que, ao fim de cinco anos, gostaria que ninguém voltasse a perguntar “onde está a ONU”. Economista de 70 anos, aposta numa organização mais ágil, mais próxima do terreno e aberta a novas parcerias.. A guianesa Rodrigues-Birkett, diplomata e antiga ministra dos Negócios Estrangeiros de 55 anos, procura distinguir-se pelo pragmatismo. Defende reformas administrativas, uma melhor representação dos países sub-representados na burocracia da ONU e maior eficácia operacional. No debate disse que “o secretário-geral não tem o luxo de não tentar”, referindo-se às crises em que o Conselho de Segurança se encontra bloqueado. Foi a candidata mais bem classificada pelas sondagens realizadas entre os participantes presentes na sessão organizada pela Bloomberg. .Sall, o antigo presidente senegalês de 64 anos, apresenta-se como um construtor de pontes entre diferentes blocos políticos. Assenta a candidatura na experiência adquirida à frente do país e da União Africana, defendendo o diálogo entre potências rivais, uma reforma da arquitetura financeira internacional e uma ONU mais eficaz. No debate, insistiu que o secretário-geral deve manter canais de comunicação abertos mesmo nos momentos de maior tensão e resumiu a sua missão à necessidade de restaurar a confiança entre os Estados. A grande novidade dos últimos dias foi a entrada na corrida de Olara Otunnu, diplomata ugandês de 75 anos e antigo subsecretário-geral da ONU, que foi formalmente nomeado pelo Uganda a menos de uma semana do primeiro straw poll. Antigo representante especial para Crianças e Conflitos Armados, apresenta um dos currículos mais longos dentro do sistema da ONU, mas parte em desvantagem por ter entrado tarde na disputa. .No documento de visão apresentado com a candidatura, defendeu a continuação das reformas da ONU, a concentração de esforços na resolução dos principais conflitos internacionais e a criação de mecanismos de supervisão da inteligência artificial. O diplomata tem também sublinhado a necessidade de conciliar a ação climática com o desenvolvimento económico dos países mais pobres.Um dos aspetos mais curiosos da campanha tem sido a relativa ausência de referências diretas a Guterres. Nenhum dos candidatos procurou fazer um balanço aprofundado dos seus dez anos à frente da organização, nem apresentar-se como continuador ou crítico do atual secretário-geral. Ainda assim, quase todos descreveram uma ONU afetada por perda de influência, dificuldades financeiras, fragmentação geopolítica e quebra de confiança, problemas que surgiram repetidamente nas discussões e que acabam por constituir uma avaliação implícita do estado da organização após uma década marcada pela pandemia, pela guerra na Ucrânia e pelos conflitos no Médio Oriente.