“Ouvi dizer que sim”, respondeu Donald Trump, perguntado telefonicamente pela AFP sobre se a China tinha tido alguma influência no cessar-fogo acordado com o Irão mesmo em cima do prazo do ultimato de Washington a Teerão de destruição total. Quatro palavras (três, na realidade, em inglês, “I hear yes”) que indiciam que por trás da mediação paquistanesa tem estado a China, país com forte influência sobre o regime iraniano, e que importa do Médio Oriente quase metade do petróleo que consome, via estreito de Ormuz.A China, que absorve 80% do petróleo iraniano mas compra ainda mais barris às monarquias do Golfo Pérsico, tem reservas que lhe permitem lidar com os efeitos temporários de uma crise como a que dura desde o início, a 28 de fevereiro, do ataque israelo-americano ao Irão. Também conta com o fornecimento de petróleo russo para atenuar falhas de outras fontes. Mas o impacto do barril acima dos 100 dólares na economia mundial, afetando a procura global, arrisca prejudicar as exportações chinesas. E será esse o principal motivo de preocupação de Pequim, além da proteção possível ao seu grande parceiro estratégico no Golfo Pérsico, uma região repleta de aliados dos Estados Unidos, mesmo que da Arábia Saudita aos Emirados Árabes Unidos se tratem também de países parceiros económicos da China. Pequim criticou sempre o ataque ao Irão, mas também os ataques iranianos aos vizinhos árabes.Mediador bem relacionado tanto com os Estados Unidos como com o Irão, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, tinha sido excecionalmente vocal a apelar a uma extensão do prazo dado por Trump para que o Irão desobstruísse o estreito de Ormuz. Nas negociações, o chefe máximo das forças armadas paquistanesas, o marechal Asim Munir também ter tido um papel importante pela boa relação com Trump. Com possivelmente Xi Jinping, nos bastidores, com os seus diplomatas a enviar uma mensagem de moderação à liderança iraniana (um mistério desde a morte do guia supremo Ali Khamenei, apesar da eleição do filho Mojtaba como sucessor), porém, as possibilidades de sucesso multiplicaram-se, mesmo que uma solução para o conflito não esteja ao virar da esquina: afinal, qual o objetivo americano, eliminar as ambições nucleares iranianas ou também forçar a mudança de regime? E Israel, apesar de aceitar este cessar-fogo em relação ao Irão, mas não no caso do Líbano, alinhará a 100% com aquilo que Trump vier a decidir?Com interesses evidentes no Médio Oriente, ao ponto de em 2023 a sua diplomacia ter mediado entre o Irão e a Arábia Saudita um acordo de normalização de relações, a China até pode ter tirado alguma vantagem do desgaste de imagem dos Estados Unidos por causa de uma guerra que começa a ser enervante para Trump, mas o fim do conflito na região interessa-lhe e muito. A questão económica é importantíssima, pois o crescimento previsto do PIB chinês (pela primeira vez em décadas abaixo dos 5%) exige estabilidade dos mercados globais, mas também o é o realinhamento geopolítico de um Médio Oriente que nos últimos três anos assistiu ao ataque do Hamas a Israel e às guerras de retaliação israelitas contra os aliados do Irão, a começar pelo Hezbollah no Líbano, também à queda do regime da família Assad na Síria ou igualmente a ameaça dos houthis do Iémen sobre o estreito de Bab El-Mandel, outra passagem estratégica para o comércio mundial.A visita de Trump à China, que chegou a estar prevista para finais de março, foi adiada obviamente por causa da guerra no Irão, e deverá acontecer em maio. O presidente Xi terá muito que conversar com Trump, e o ambiente na cimeira, por ampla que seja a agenda de trabalhos (das terras raras a Taiwan), vai ser condicionado pelos desenvolvimentos no Médio Oriente. Fica também claro que além dos Estados Unidos, cada vez mais a China é a grande potência que conta no cenário internacional. Sexta-feira poderão começar negociações em Islamabad para tentar o fim da guerra, mas o preço do petróleo já está a baixar, mais uma boa notícia para a China, segunda economia mundial. .“Não há nenhuma hipótese, militarmente, de a China se envolver nesta guerra, tal como a Rússia também não”