A Rússia convocou de imediato uma reunião no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Qual será a reação de Moscovo a esta guerra? O Irão é um aliado, mas não é um aliado que consiga levar a Rússia a intrometer-se numa guerra com os Estados Unidos?Não é bem um aliado, é um parceiro estratégico, mas, de facto, para Moscovo, é uma situação bastante delicada, porque na região do Médio Oriente é o segundo grande parceiro estratégico, a seguir a Bashar al-Assad na Síria, que a Rússia é incapaz de socorrer e cujo regime a Rússia é incapaz de sustentar. Veremos se o próprio regime iraniano resiste, mas, na Síria, a Rússia foi totalmente incapaz e até dispunha de bases para aguentar Bashar al-Assad. Agora, é uma parceria estratégica que se intensificou desde a invasão russa da Ucrânia, em 2022, desde logo pelo fornecimento iraniano de munições, mísseis e drones à Rússia. Eu recordo que, no ano passado, em janeiro de 2025, esta parceria foi formalizada por um novo tratado de 20 anos assinado em Moscovo e, em particular, nos domínios da segurança, da defesa e investimentos russos na energia e, obviamente, a pensar na mitigação das sanções que um e outro país sofrem. E em junho, já depois da Guerra dos 12 Dias de Israel contra o Irão e dos ataques norte-americanos ao Irão, o próprio Kremlin apoiou esta parceria estratégica como inquebrável. É evidente que esta parceria tem muito de cooperação militar e de segurança. Há relatos recentes, em dezembro, de o Irão adquirir um conjunto de lançadores de mísseis portáteis, aqueles que são lançados do ombro, até 2029, no valor de 500 milhões de euros. Além disso, recordo que não só fizeram exercícios militares perto do Estreito de Ormuz, no Índico, com Rússia, Irão e China, mas o Irão é, recentemente, membro de dois clubes de amigos da Rússia com a China, como são o BRICS+ e a Organização de Cooperação de Xangai. O Irão é membro da Organização de Cooperação de Xangai desde 2023 e do Grupo BRICS+ desde janeiro de 2024. A China é também, como diz, senão um aliado, um parceiro estratégico do Irão, mas também não há qualquer possibilidade de vir em socorro do Irão, a não ser, eventualmente, na ONU, onde irá criticar os Estados Unidos?Com certeza, não há nenhuma hipótese, militarmente, de a China se envolver nesta guerra, tal como a Rússia também não. Até porque, se é verdade que 80% a 90% das exportações de petróleo do Irão se destinaram à China em 2025, aquilo que é o comércio bilateral da China com o Irão é uma pequena fração daquilo que, por exemplo, tem a China com outtros países do Golfo Pérsico. Estamos a falar, no conjunto, em 2025, no comércio da China com países do Conselho de Cooperação do Golfo, por exemplo, a Arábia Saudita, de 257 mil milhões de dólares. Com o Irão, ficou abaixo dos 14 mil milhões. Portanto, desse ponto de vista, a China tem de gerir aquilo que é a sua parceria estratégica de 25 anos, assinada em 2021 com o Irão, no quadro de parcerias estratégicas com países que são rivais regionais do Irão. Penso que um dos objetivos estratégicos desta atuação do lado americano, não tanto do lado de Israel, é exatamente quebrar este triunvirato, esta parceria - são bilaterais, mas é quase um triunvirato, da China com a Rússia e o Irão. Portanto, é o alvo mais fraco, mais ostracizado, mas mesmo apesar da intensidade das relações, nos últimos anos, do Irão com a Rússia e com a China, não estou a ver nenhuma margem para, militarmente, haver qualquer envolvimento.Esta guerra pode afetar, de alguma forma, a evolução da guerra na Ucrânia? Não falo tanto do fornecimento de armamento iraniano, falo mais da questão da relação Estados Unidos-Rússia. Ou seja, a possibilidade de os Estados Unidos negociarem com Vladimir Putin uma solução para a Ucrânia fica afetada?Não creio. Há muita coisa que só saberemos no futuro, porque há sempre diplomacia secreta e a este nível ainda mais secreta é. Mas pode afetar por duas vias. Pode afetar porque, obviamente, aquilo que a Rússia poderia receber do Irão, deixa de o poder fazer. Aliás, houve uma redução significativa no último semestre de 2025 das remessas de mísseis e drones iranianos para a Rússia. Portanto, essa parcela, a Rússia deixa de receber e, por outro lado, deixa de ter um parceiro que a ajudava a furar sanções internacionais. Estamos a falar do país mais sancionado do mundo, a Rússia. Agora, pode ter um efeito contraproducente que é empurrar ainda mais a solidariedade da Rússia com a China e da Rússia com a Coreia do Norte, que é outro grande fornecedor, como sabemos - neste caso não é só de sistemas de armamento, é também de soldados. Portanto, eu não sei se não haverá negociações secretas da Rússia com os Estados Unidos para que a Rússia se modere na oposição àquilo que é esta vaga de pressão americana no Médio Oriente, tendo como contrapartida o aumento da pressão americana para levar Zelensky e a Ucrânia a ceder àquilo que são os objetivos maximalistas de Putin na Ucrânia.Esta guerra contra o Irão será tema obrigatório na cimeira China-Estados Unidos deste mês?Creio que Xi Jinping, politicamente, terá muita dificuldade em receber Donald Trump, como está previsto no final de março, se continuar a haver, nessa altura, uma campanha intensa contra o Irão. E, portanto, acho que nos próximos dias o que os Estados Unidos esperam é conseguir ter uma saída que possam proclamar como vitória, para depois irem negociar com Xi Jinping numa ampla agenda, também, o futuro do Irão e da recomposição do Médio Oriente. É muito delicado, politicamente, Xi Jinping simplesmente receber o presidente dos Estados Unidos, que lançou este ataque contra um parceiro estra-tégico, parte dos seus grupos de amigos. E, portanto, vamos ver o que é que se segue, porque esse pode ser, enfim, um sinal político para o mundo se Xi Jinping adiar a visita de Donald Trump caso persista a guerra no Irão..Análise: as três fragilidades do Irão explicam momento para a guerra