A pandemia em cinco atos: uma mão-cheia de medo, outra de esperança

O ano de 2020 chega ao fim como o primeiro da história da pandemia de covid-19, declarada pela OMS em março. Nestes últimos dias, milhares de pessoas estão a ser vacinadas em Portugal. O longo caminho está aberto. Há muita estrada para percorrer em 2021.

Quando há um ano preparávamos as festas de passagem de ano por todo o mundo, não podíamos adivinhar este cenário para os próximos dias: um recolher obrigatório quase generalizado, sem música nas ruas, nem bares abertos, nem discotecas, nem programas especiais nos hotéis, nem jantares numerosos, nem quase nada. Não podíamos adivinhar que as notícias que chegavam da China acerca de um novo coronavírus estavam para chegar à Europa, à América, a África, ao mundo inteiro, qual filme de ficção científica em que a realidade supera, afinal, a ficção.

Passou apenas um ano e, no entanto, parece uma década, um século. Uma eternidade em que um vírus nos obrigou a parar, a recolher obrigatoriamente, a confinar, em que uma crise sanitária arrasta consigo uma crise económica, de contornos que só agora começamos a vislumbrar. Uma poeira que ainda não assentou e que só 2021 vai começar a destapar.

O "vírus da China" a espalhar-se pelo mundo

Em dezembro de 2019, começavam a chegar notícias da China, em catadupa, sobre o número de infetados e de mortos, sobre a construção de hospitais especificamente para tratar a doença, do foro respiratório, com alguns sintomas similares aos da gripe, mas às vezes de muito maior gravidade.

O primeiro primeiro caso conhecido de covid-19 remonta a 17 de novembro do ano passado. De acordo com uma investigação do jornal de Hong Kong South China Morning Post, aconteceu na província chinesa de Hubei. Segundo o jornal, uma pessoa de 55 anos foi o primeiro caso identificado, informação que desafia a versão oficial, que aponta o aparecimento da doença em finais de dezembro, com vários casos de contaminação ligados a um mercado de marisco, situado nos subúrbios de Wuhan, a capital de Hubei.

O mesmo jornal cita dados do Governo chinês que apontam para a existência "entre uma e cinco infeções por dia até 15 de dezembro". A 20 já havia 60 infetados, segundo apurou a mesma fonte.

A verdade é que nenhuma das nove primeiras infeções - quatro homens e cinco mulheres - foi identificada como o paciente zero, segundo os dados citados pelo jornal. Essas nove pessoas tinham entre 39 e 79 anos e, embora não se saiba quantos eram moradores em Wuhan, foi aqui que o surto alastrou. E foi daqui que se foi espalhando pelo mundo inteiro, provocando até agora milhões de infetados e mais de 1,3 milhões de mortes. Não se conhecem ainda os efeitos que o vírus deixa em quem contraiu a covid-19 (provocada pelo SARS-CoV- 2, assim se designou este coronavírus) nem tão-pouco a duração da imunidade.

Declarada a pandemia

Nós, por cá, começámos a ouvir falar dele como hipótese remota, doença longínqua. Em janeiro, quando ainda não suspeitávamos que a Organização Mundial da Saúde (OMS) viesse a declarar a pandemia - justificada com "níveis alarmantes de propagação e inação" -, as notícias tornaram-se mais frequentes. Mas só em fevereiro chegariam a Portugal os primeiros 20 cidadãos nacionais repatriados da China, e que ficaram em isolamento profilático "voluntariamente", então duas vezes testados. Nessa altura, o vírus avançava, descontrolado, pelo mundo. Da Europa chegavam notícias preocupantes, sobretudo de Espanha e Itália, aqui tão perto.

Depois de meses com casos suspeitos e não confirmados, e do primeiro português a contrair a doença num navio onde trabalhava (Adriano Maranhão, natural da Nazaré), a notícia do primeiro caso em território nacional confirmou-se a 2 de março: um médico de 60 anos que estivera de férias em Itália. Logo a seguir, um homem de 33 anos, que se deslocara a Espanha em trabalho. Ambos eram oriundos do Norte do país, que desde então tem sido a região mais afetada em número de casos de infeção. Porém, a primeira morte em território nacional aconteceu em Lisboa, duas semanas depois, no Hospital de Santa Maria: Mário Veríssimo, 80 anos, antigo massagista do Estrela da Amadora, tinha outras patologias associadas e não resistiu às complicações da covid-19.

A 11 de março, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, declarava a pandemia. Aconteceu dois dias antes daquela sexta-feira 13 em que o primeiro-ministro António Costa falou ao país para anunciar o fecho das escolas, o teletrabalho, o início do confinamento. "Temos de nos preparar para o pior, desejando que aconteça o melhor", disse na altura, frase que viria a repetir muitas vezes ao longo do ano.

Desde então tem sido uma alucinante viagem de avanços e recuos. O mais emblemático prende-se com o uso da máscara, que demorou a ser recomendado, primeiro, e foi tornado obrigatório, depois, em muitos países - como o nosso. Graça Freitas, a diretora-geral da Saúde, chegou a considerar que "um bocado de pano a tapar a boca só dava uma falsa sensação de segurança", mas acabaria por recuar, alinhada com as orientações da OMS. E emitiu, entretanto, nova orientação sobre o uso de máscaras: aconselha uma utilização (ainda) mais ampla por todos e em todo o lado, mas com especial atenção para as unidades de saúde. Os especialistas destacam que deve ser usada em ambientes interiores ou exteriores, sempre que não seja possível manter um afastamento de pelo menos um metro.

A (terrível) segunda vaga

O verão permitiu, por cá, algum alívio (houve mesmo um dia sem nenhuma morte), mas desde outubro que a segunda vaga se faz sentir com maior incidência, à semelhança do que é observado lá fora, no resto da Europa e no mundo.
Quando acabaram as férias, em agosto, Portugal registava um gráfico cada vez mais ascendente. Atravessámos o outono com números de infetados a superar os seis mil por dia, atingindo o pico a 20 de novembro, e o número recorde de 95 mortes num só dia - a 11 de dezembro, exatamente nove meses depois de declarada a pandemia.

Mas, na Europa, os especialistas avisaram que a segunda vaga da pandemia de covid-19 poderia ser mais mortal do que a primeira. Em Portugal , tal como na maior parte dos países da União Europeia, foi isso mesmo que aconteceu. A progressão das primeiras duas mil foi bem mais lenta. Passaram 45 dias entre a primeira morte por covid-19 (17 de março) e as 1007 (1 de maio). A 4 de outubro, Portugal chegava aos 2005 mortos, depois de um período em que o número de infetados diminuíra bastante. Mas entre os dias 7 e 13 de dezembro o país registou o maior número de vítimas mortais.

Os óbitos quase duplicaram em pouco mais de quatro meses. Ainda assim, há países em que as mortes aumentaram de forma bem mais vincada nesta segunda vaga, como é o caso dos que ficam na Europa Central e na Europa de Leste. A meio de dezembro, a Itália tornou-se o país europeu com mais mortes associadas à covid-19, ultrapassando o Reino Unido, que desde o início registava mais óbitos.

Nestes últimos dias de dezembro, um e outro ombreiam com uma média de 300 mortes por dia, número que tem vindo a decrescer para metade. A meio do mês eram mais de 600 óbitos diários. Por cá, chegamos ao fim do ano a inverter a curva: há uma tendência para menos casos e menos óbitos.

A crise anunciada

À medida que os países foram confinando, a economia foi-se ressentindo. O turismo foi o primeiro setor atingido, com destaque para o universo das viagens e, consequentemente, da aviação, mas a restauração foi por arrasto.

No final de agosto, um estudo da Comissão Europeia antecipava para 2020 "uma quebra de turistas de 38% no melhor dos cenários", sendo certo que advertia para o pior: "Se houver novo fecho de fronteiras, pode ir aos 68%." Segundo o mesmo estudo, a crise no turismo europeu põe em risco até 11,7 milhões de empregos, e o Algarve é das regiões mais afetadas. O verão passado foi aliviado com algum turismo nacional, embora não passe de um punhado de migalhas para uma região (e um país, com Lisboa à cabeça) que nos últimos anos tinha crescido exponencialmente na área turística.

Em Portugal, depois de na primeira vaga da pandemia o layoff ter servido de analgésico para as dores da economia, são muitas as empresas que nos próximos tempos podem fechar definitivamente as portas.

A segunda vaga da pandemia deve empurrar a economia portuguesa para uma situação mais crítica do que se esperava em termos de emprego e salários. Segundo um artigo publicado recentemente pelo Dinheiro Vivo, há várias instituições que preveem que a retoma de Portugal seja três vezes mais lenta do que dizem o Governo e a Comissão Europeia.

Algumas análises recentes indicam mesmo que, por causa das novas medidas de confinamento, a economia está à beira de uma nova recessão - depois de ter recuperado no terceiro trimestre (período do verão). A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a que mais recentemente fez projeções para o país, mostrou-se bastante descrente na retoma. A economia portuguesa deve avançar apenas 1,7% no ano que vem (três vezes menos do que os 5,4% estimados pelo Governo e Bruxelas) e os trabalhadores vão ser apanhados na crise de forma violenta. Segundo os cálculos do Dinheiro Vivo, a partir de dados da OCDE, a pandemia (primeira e segunda vaga juntas) deve apagar dois terços do emprego criado durante os últimos governos PS: foram criados 364 mil empregos, mas a pandemia fará desaparecer 224 mil postos de trabalho, segundo contas da OCDE.

Um milagre chamado vacina

Nunca a comunidade científica se concentrara, toda ela, em torno de uma vacina. E nunca uma vacina fora aprovada tão rapidamente, muitos menos foi tão curto o tempo que mediou entre o anúncio da vacina e a chegada das primeiras doses ao terreno. Foi no final de outubro que começaram a surgir as primeiras certezas sobre esse fenómeno: em menos de um ano, a comunidade científica conseguiu a tão esperada vacina.

Na semana passada, a Agência Europeia do Medicamento (EMA) emitiu parecer científico favorável à vacina desenvolvida pela Pfizer e pela BioNTech. Seguiu-se a aprovação de Bruxelas. O Reino Unido - a braços com uma nova estirpe do vírus, 70% mais contagioso, o que levou ao fecho das fronteiras, de novo - já começara a vacinar no dia 9 de dezembro. Mas a esperança era universal: que fosse aquele o primeiro dia em que a pandemia entra em contagem decrescente. Cerca das 06.30, Margaret Keenan, 91 anos feitos dias depois, foi a primeira pessoa a receber a vacina da Pfizer e da BioNTech, no Hospital Universitário de Coventry, no centro de Inglaterra.

Em Portugal, foi o médico António Sarmento, 65 anos, diretor do serviço de Infecciologia do Hospital de São João, no Porto. Dezenas de fotógrafos captaram o momento em que a enfermeira Isabel Ribeiro administrou a vacina, ao som de aplausos, e com a presença da ministra da Saúde, Marta Temido, que acompanhou o arranque do plano de vacinação. Entre dezembro e o primeiro trimestre de 2021, que corresponde ao período da primeira fase definida pela task force responsável pelo plano de vacinação, Portugal espera receber 1,2 milhões de vacinas, distribuídas por três períodos: 312 975 doses no acumulado de dezembro e janeiro, 429 mil doses em fevereiro e 487 500 em março. Depois dos profissionais de saúde, a prioridade será para os lares de idosos, que se revelaram o ponto mais sensível durante a pandemia.

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