Uma embaixada vista por dentro: França abre ao público o Palácio de Santos

A partir desta terça-feira e uma vez por semana, o Palácio de Santos, que foi residência real, palácio aristocrático e há mais de cem anos Embaixada de França, abre as portas ao público. Por 12 euros, pode ver joias do património português como a Capela, a Sala das Porcelanas ou a mesa onde D. Sebastião terá tomado a última refeição antes de partir para Alcácer Quibir.

"Porquê abrir a embaixada ao público? Em primeiro lugar porque esta é uma joia do património português que o público passa a poder apreciar. E também porque queremos mostrar que a diplomacia não é opaca." Sentada a uma mesa instalada na Sala de Música, a embaixadora de França em Portugal, Florence Mangin, explica como a partir desta terça-feira, e uma vez por semana, vai ser possível visitar o Palácio de Santos, que já foi residência real, palácio aristocrático e desde 1909 funciona como embaixada e residência dos embaixadores de França em Lisboa.

Em francês e em português - alternadamente, uma semana um, uma semana o outro, pelo menos nestes tempos de pandemia -, em grupos de dez pessoas e por 12 euros (para os adultos; as crianças entre os 12 e os 18 anos pagam metade), vai passar a ser possível apreciar o jardim com vista para o Tejo, onde ainda hoje se pode ver a mesa de pedra onde, pelo menos assim reza a lenda, o rei D. Sebastião terá tomado a última refeição antes de partir para o norte de África e morrer na batalha de Alcácer Quibir, deixando a nação à espera de que regresse numa manhã de nevoeiro.

Também se pode ver o teto da Sala das Porcelanas, onde cada prato espreita de dentro do seu alvéolo de madeira, quase fazendo esquecer a tapeçaria de Maria Helena Vieira da Silva, artista que tão bem representa a ligação entre França e Portugal.

Ou ver a Capela, verdadeira caixa de surpresas, desde os azulejos da Sacristia de padrão no mínimo original à escultura do Cristo em ascensão que sai da pintura.

Mas há muito, muito mais para ver. E com as visitas já esgotadas até novembro - restam apenas algumas oportunidades em outubro mas em francês - cabe a Joel Moedas Miguel, CEO da Patrimonium, a empresa responsável por gerir esta abertura ao público do Palácio de Santos, mostrar algumas delas.

E, depois de agradecer à embaixadora Florence Mangin, "como português e como lisboeta" a oportunidade de dar a conhecer a todos um património como é o palácio, Joel Moedas Miguel começa por explicar porque é que o palácio tem o nome de Santos. "A origem remonta ao início da cidade de Lisboa, primeiro ainda no tempo dos romanos e depois com a conquista aos mouros por D. Afonso Henriques". Ora foi no século IV que três irmãos, Veríssimo, Máxima e Júlia foram martirizados por recusarem renegar a sua fé cristã. "São atirados ao rio com pesos, para afundarem, mas milagrosamente os corpos vêm dar à costa, aqui perto, na praia de Santos." As relíquias vão ser veneradas pelos cristãos da cidade de forma escondida e é com a reconquista cristã que passam a ser adoradas numa pequena ermida dedicada aos três santos, construída no lugar onde hoje fica a Igreja de Santos.

Mais tarde será a Ordem de Santiago a ter a sua sede neste local, prossegue o CEO da Patrimonium, antes de aqui nascer o Convento das Comendadeiras, as mulheres, viúvas ou filhas dos cavaleiros daquela ordem. Ao lado cresce um palácio a que o rei vai conceder ao seu feitor, o intendente Fernão Lourenço, da Casa da Índia, a possibilidade de viver aqui. Mas tarde, o próprio D. Manuel chegará a viver aqui algumas temporadas, tal como o seu bisneto D. Sebastião.

Mas o antigo paço real acabará por ser ocupado pelo ramo de Lancastre, encarregues de serem os mestres de Santiago e de Avis, sendo a família responsável pelas "campanhas decorativas" que embelezaram o palácio nos séculos XVII e XVIII.

E foi D. Pedro de Lencastre que escolheu o pintor Pedro Alexandrino de Carvalho, um dos grandes nomes portugueses da segunda metade do século XVIII, para decorar o Palácio de Santos. A inspiração na mitologia grega e nas alegorias é notória no teto da Sala da Musica, com uma representação da Eneida, o poema épico de Virgílio que inspirou Os Lusíadas a Camões. Nos quatro cantos, as quatro estações e, nas paredes, instrumentos musicais, ou não fosse esse o tema de uma divisão onde ainda hoje a embaixada organiza eventos musicais.

Os tapetes de Arraiolos contrastam com o mobiliário francês, tal como acontece no Salão Nobre. Ali reina a tapeçaria onde se vê Luís XIV, ou não tivesse ele sido um protetor dos artistas, "tal como protegeu o Estado, afirmando França como grande país e grande potência - política e cultural", continua Joel Moedas Miguel.

Ali ao lado fica "a joia" do palácio, como a descreve o CEO da Patrimonium: a Sala das Porcelanas. E é preciso olhar para cima para perceber porque se está diante de algo único no mundo, "não só pela forma de expor a coleção de porcelana da dinastia Ming - a mais antiga trazida pelos portugueses para a Europa". Ali está ela - todos os 263 pratos pendurados num "teto piramidal feito de madeira, com alvéolos onde cada peça encaixa perfeitamente". Pratos expostos ao melhor estilo barroco, que terão sido pendurados entre 1667 e 1687 pelo dono do Palácio de Santos, José Luís de Lancastre, e que sobreviveram ao terramoto de 1755, às Invasões Francesas, à queda da monarquia, à implantação da República e ao 25 de Abril.

Ao lado do Salão Nobre fica outra das estruturas mais antigas do Palácio de Santos: a Capela, tal como a Sala das Porcelanas do século XVII, altura em que o edifício foi construído na sua configuração moderna. Ali alia-se o gosto pela azulejaria azul e branca, o uso da madeira e da talha dourada e "uma combinação muito interessante entre mármores portugueses - a brecha da Arrábida - e o falso marmoreado - pintura sobre madeira", explica Joel Moedas Miguel.

A pintura é uma mistura de artistas espanhóis e portugueses, com Marcos da Cruz a distinguir-se no teto. O próprio altar prima pela originalidade com o Jesus Cristo em escultura, literalmente em ascensão diante do olhar espantado dos soldados, esses pintados. Na parede em frente à porta de entrada, destaca-se uma representação dos três santos mártires que deram nome a esta zona de Lisboa e ao palácio: Veríssimo, Máxima e Júlia.

Escondida atrás de uma pequena porta está a Sacristia, com o seu Anjo do Silêncio armado com uma espada. No interior, os azulejos do século XVII ornamentados com uma espécie de cordas azuis que representam as usadas pelos sacerdotes para apertar os paramentos. "Tem duas simbologias: a da união do homem a Deus e também a da fidelidade", segundo o CEO da Patrimonium, antes de destacar que no lugar das antigas pinturas religiosas foram colocados painéis de cerâmica de Vieira da Silva.

Além da Sala de Jantar - que só mais tarde terá ganho essa função -, Joel Moedas Miguel termina a visita no interior pela sala por onde os convidados dos Lancastre entravam - o Vestíbulo, que une os dois pisos do palácio e tem no teto as armas de Portugal.

Tempo ainda para uma visita ao jardim, onde como se fosse preciso mais algum motivo para o apreciar além da vista sobre o Tejo - hoje a uns bons metros de distância, mas que na altura chegava até aos muros da residência e permitia aos Lancastre ter um ancoradouro privativo -, a mesa de D. Sebastião vem dar uma pitada de mistério. Terá mesmo tomado ali a última refeição em solo português o rei que ganhou o cognome de O Desejado? Nunca vamos saber, mas é mais uma das joias que os portões verdes do Palácio de Santos escondiam e que agora estão ao alcance de todos.

As visitas podem ser agendadas AQUI.

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