Benfica tenta fintar a maldição europeia de Guttmann, agora nos juniores

Após duas finais perdidas, os sub-19 encarnados procuram sagrar-se campeões europeus frente ao Real Madrid. Se vencerem a final desta terça-feira sucedem ao FC Porto, vencedor na época passada.

Será que a famosa maldição de Béla Guttmann também atingiu a equipa de sub-19 do Benfica? Esta é uma dúvida que poderá ser desfeita esta terça-feira, a partir das 17.00 horas, quando os encarnados entrarem em campo para medirem forças com o Real Madrid na final da UEFA Youth League, também conhecida como a Liga dos Campeões dos juniores.

É a oportunidade de acabar com um mito que também se tem estendido a este escalão, depois de o Benfica ter perdido as finais de 2014 diante do Barcelona e de 2017 frente ao RB Salzburgo. À terceira será de vez?

Recorde-se que a lenda da maldição de Guttmann nasceu em 1962 quando o treinador húngaro, responsável pela conquista das duas Taças dos Campeões Europeus, abandonou o clube por lhe ter sido recusado um aumento de salário. Zangado deixou, alegadamente, uma profecia que se cumpriu até hoje: "Sem mim, nem em cem anos o Benfica vai conquistar outra taça europeia."

Esta frase nunca foi dada como verdadeira e aí nasceu uma espécie de lenda. O certo é que desde então os encarnados perderam cinco finais da Taça dos Campeões e três da Taça UEFA/Liga Europa, além, claro está, das duas finais da Youth League.

Portugueses na quarta final em sete edições

Independentemente do desfecho da final desta terça-feira, a verdade é que esta prova europeia destinada ao escalão de juniores vai na sua sétima edição e as equipas portuguesas têm dado cartas, uma vez que às duas finais perdidas pelo Benfica, é preciso juntar o título conquistado pelo FC Porto na época passada (3-1 ao Chelsea), com uma equipa treinada por Mário Silva e composta por alguns jogadores que na última época foram campeões nacionais pelos dragões, casos de Diogo Costa, Tomás Esteves, Diogo Leite, Fábio Vieira, Romário Baró, João Mário, Vítor Ferreira e Fábio Silva.

Este ano Portugal poderá ter o segundo campeão europeu consecutivo neste escalão, com um Benfica que tem dado cartas nesta edição com oito vitórias em nove jogos e um total de 27 golos marcados e apenas oito sofridos. A única derrota sofrida foi com o Lyon, no Seixal, logo à terceira jornada, mas isso não inviabilizou o apuramento em primeiro lugar num grupo onde também estavam RB Leipzig e Zenit, a quem aplicou uma goleada de 7-1 na Rússia. Na fase a eliminar venceu Liverpool (4-1), Dínamo Zagreb (3-1) e Ajax (3-0).

Curiosamente esta caminhada foi iniciada com Jorge Maciel como treinador, que após a vitória em Leipzig que confirmou o apuramento, anunciou a sua saída para ser treinador adjunto de Christophe Galtier no Lille. Para o seu lugar foi contratado Luís Castro, que estava como técnico principal dos gregos do Panetolikos e que tinha uma carreira com passado na formação, sobretudo pelo V. Guimarães.

Um talento de fora e outro em dúvida

O Benfica apresentou-se em Nyon para a fase final da UEFA Youth League após cinco meses de paragem devido à pandemia de covid-19, mas a comitiva foi desfalcada do extremo Tiago Gouveia, que se encontra a recuperar de lesão, e durante a competição perdeu ainda o defesa-central Pedro Álvaro, que se lesionou no jogo com o Dínamo Zagreb, no qual se tornou no futebolista com mais jogos realizados nesta competição, com um total de 28 partidas, superando Diogo Costa, guarda-redes do FC Porto.

Estas são duas baixas importantes para o jogo da final com o Real Madrid, à qual se junta, por castigo, a do médio Paulo Bernardo, que aos 18 anos é um dos mais talentosos (ao ponto de ser comparado a Rui Costa) e influentes desta equipa, que participou em todos os jogos desta prova e marcou dois golos.

Além disso, há ainda dúvidas em relação a outro grande talento, o também médio Ronaldo Camará, de 17 anos, que se encontra com problemas físicos que o impediram de estar no banco de suplentes no jogo com o Ajax. Se estiver bem, este luso-guineense será o maior candidato a entrar para o lugar do tecnicista Paulo Bernardo. Ronaldo Camará trocou o Sporting pelo Benfica aos 12 anos e sempre jogou um escalão acima da sua idade, tendo na última época jogado nos sub-23 e na equipa B apesar de ainda ser juvenil. É um médio versátil com excelente boa visão de jogo e capacidade de passe.

Baliza defendida por gigante japonês

Tendo em conta os habituais titulares nos dois jogos realizados em Nyon com o Dínamo e o Ajax, o Benfica tem exibido uma grande solidez defensiva assente no gigante guarda-redes Leo Kokubo, japonês de ascendência nigeriana com 1,91 m de altura, que no final da época passada treinou com o plantel principal. Sofreu apenas dois golos nos quatro jogos que fez nesta competição e mostra ser um guarda-redes seguro entre os postes e eficiente nas bolas altas.

O patrão da defesa tem sido o brasileiro Morato, contratado há um ano ao São Paulo por seis milhões de euros. Aos 19 anos, este central esquerdino tem uma maturidade fora do normal para a idade, destacando-se a sua capacidade de sair com a bola a jogar. Apesar da ausência de Pedro Álvaro, o eixo central do Benfica continuará estável com o brasileiro, que deve ter como parceiro Tomás Araújo.

Outro jogador importante nesta equipa é João Ferreira, defesa-direito (com a Ajax jogou à esquerda) que já foi suplente na equipa principal e no início da última época chegou a estar com um pé na Juventus.

A arte de Dantas e a frieza do goleador Gonçalo Ramos

No meio-campo Rafael Brito é o elemento mais recuado e aos 18 anos é considerado no Seixal como um jogador com grande futuro. Um dos seus trunfos é a simplicidade com que joga, sempre de forma discreta, mas muito eficaz graças à capacidade de antecipar as jogadas e de pressão sobre o adversário. Mais exuberante, pela grande capacidade técnica, é Tiago Dantas, de 19 anos, que apesar da sua baixa estatura (1,69m) é daqueles jogadores que pensam mais rápido que os outros e tem uma capacidade de decisão no passe muito evoluída. Contabiliza cinco golos na caminhada até à final, sendo que quatro foram de penálti.

No ataque está outro ponto forte desta equipa do Benfica. Na direita o luso-guineense Úmaro Embaló é um desequilibrador nato. Fã incondicional do argentino Angel Di María, está há muito referenciado pelos principais olheiros do futebol mundial. Faz do drible e da velocidade a sua principal arma, mas também remata muito bem como se viu no golo que marcou ao Ajax. Após uma lesão que o afastou da equipa durante alguns meses, Di María Embaló, como é tratado pelos colegas, reapareceu em grande estilo em Nyon.

Na esquerda, Tiago Araújo pode ser lateral ou extremo e dá à equipa velocidade e qualidade nos cruzamentos. Tem um estilo que muitos comparam a Paulo Futre porque, como a antiga estrela portuguesa, quando baixa a cabeça e arranca para cima dos adversários cria quase sempre perigo.

Finalmente, Gonçalo Ramos que pode jogar como ponta-de-lança ou segundo avançado. É o melhor marcador da equipa na Youth League com seis golos em oito jogos e será, provavelmente, o jogador mais mediático desta equipa, sobretudo por ter bisado na estreia na equipa principal num jogo com o Desp. Aves para a I Liga. Pela sua frieza em frente da baliza, capacidade de remate e de cabeceamento, este algarvio de 19 anos é apontado como uma das grandes promessas do Seixal.

São estes os jogadores do Benfica a ter em conta frente ao Real Madrid que vai disputar a primeira final desta competição. Os merengues são treinados por uma grande glória do clube, o antigo avançado e capitão Raúl, mas partem para esta partida sem Juan Latasa, o melhor marcador da equipa que, à semelhança de Paulo Bernardo, vai cumprir castigo.

Guedes, Félix e Rúben Dias perderam finais

O Benfica tem mantido uma regularidade assinalável na UEFA Youth League, pois de três em três anos tem chegado à final. Na primeira edição da prova, em 2014, perdeu com o Barcelona, por 3-0. E o azar bateu à porta quando Romário Baldé desperdiçou um penálti, que a ser transformado daria o 1-1.

Dessa equipa treinada por João Tralhão, Gonçalo Guedes foi aquele que até ao momento chegou mais longe no futebol, sendo mesmo internacional. Em 2017 foi vendido ao PSG por 30 milhões de euros e atualmente está no Valência.

De resto, essa equipa tinha ainda Rochinha, atualmente no V. Guimarães, Hildeberto Pereira, que representou o V. Setúbal na última época, e Nuno Santos que acabou de trocar o Rio Ave pelo Sporting. Dos jogadores que atuaram pelo Barça nessa final, apenas dois jogam ao mais alto nível: Munir El-Haddadi (Sevilha) e Adama Traoré (Wolverhampton).

Já em 2017, o Benfica foi derrotado pelo RB Salzburgo, por 2-1. E até esteve a vencer graças a um golo do ponta-de-lança José Gomes, mas os austríacos acabaram por dar a volta ao resultado na segunda parte. Os encarnados, treinados por João Tralhão, contavam com um tal de João Félix, que há pouco mais de um ano foi vendido ao Atlético de Madrid por 126 milhões de euros.

Destaque ainda para Rúben Dias, Florentino Luís, Jota, David Tavares e Diogo Gonçalves, que fazem agora parte do plantel principal orientado por Jorge Jesus. Outro jogador bem conhecido é Gedson Fernandes, que se encontra emprestado pelo Benfica ao Tottenham de José Mourinho. Curioso é que no banco estava Pedro Álvaro, o capitão da equipa que esta terça-feira vai tentar o primeiro título europeu de sub-19 para as águias.

Quanto aos austríacos, o médio kosovar Mergim Berisha e o avançado zambiano Patson Daka são os únicos que jogam na equipa principal do RB Salzburgo. Já o médio maliano Mohamed Haidara foi promovido ao RB Leipzig, a outra equipa da Red Bull, que este ano chegou às meias-finais da Liga dos Campeões.

Na prática, quem mais subiu na vida depois dessa final de 2017 foi o treinador alemão Marco Rose que, depois de dois títulos de campeão da Áustria, deu nas vistas na época passada ao serviço do Borussia Mönchegladbach, pelo qual alcançou um quarto lugar na Bundesliga, sendo já considerado um dos mais promissores treinadores da Alemanha.

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