"Theotónio Pereira foi implacável nas críticas a Salazar sobre a submissão de Portugal a Espanha"

Que Marcello Caetano era o autoproclamado delfim de Salazar é um facto conhecido, mas a exaustiva biografia do historiador Fernando Martins sobre Pedro Theotónio Pereira revela quem o ditador preferia.

O ministro e diplomata Pedro Theotónio Pereira (1902-1972) foi um dos mais ferrenhos defensores do Estado Novo, homem que esteve ao lado de Salazar na execução de políticas de um longo governo de 36 anos e também crítico das orientações quando assim era a sua opinião. Entre os membros da corte salazarista, Theotónio Pereira não é dos mais lembrados e só esse desconhecimento valeria a nova biografia que o historiador Fernando Martins está a lançar.

Só essa realidade justificava esta biografia é a primeira pergunta que se faz ao investigador, que garante não ter escrito "a biografia a pensar nessa situação". Considera que o desconhecimento não estava sobre a mesa "nem quando investigava para redação da tese, nem quando a escrevi, nem quando a transformei num livro que seja mais fácil para o grande público". Acrescenta que "em finais do século passado, quando comecei a minha investigação, Theotónio Pereira era bem menos conhecido do que é hoje, tanto dos historiadores do salazarismo, como do público que lê livros de história e em particular de história do salazarismo. Eu pretendia, com o meu trabalho, conhecer melhor o biografado e, claro, a sua circunstância política que, aliás, não se resume ao salazarismo".

O Theotónio Pereira que Fernando Martins retrata é alguém que se "interessou pela política muito novo e começou a 'fazer' política, ativamente, ainda durante a chamada Nova República Velha, com uns 19 ou 20 anos". O que encontra num primeiro momento é a resposta "a grande parte das perguntas que ia fazendo num determinado momento da historiografia sobre o salazarismo" e, após ser apreciada como tese pelos seus pares, "numa fase subsequente verifica-se a transformação de um trabalho académico num livro para um público com interesses e preocupações diferentes'. Espero que Pedro Theotónio Pereira passe a ser conhecido pelo público e saia da sombra onde se manteve apesar de boa parte da sua correspondência com Salazar ter sido publicada ou de historiadores como Fernando Rosas, Manuel de Lucena ou Manuel Braga da Cruz terem escrito e publicado textos importantes sobre Theotónio Pereira".

Ainda há figuras do século XX na sombra e que precisam de ser reveladas em investigações como a sua?
Há sempre. No caso do salazarismo destacaria figuras como Costa Leite (Lumbralles) ou Luís Supico Pinto ou Santos, já para não falar dos presidentes da República, Carmona, Craveiro Lopes e, sobretudo, Américo Thomaz. Por outro lado, nada impede que se escrevam mais biografias de Salazar, de Marcello Caetano e, claro, de Pedro Theotónio Pereira. Assim existam historiadores e, claro está, as chamadas "fontes" históricas sem as quais não há biografia histórica que se se sustente.

Salazar fica mais iluminado com a sua investigação?
Espero que sim. Mas a resposta a essa pergunta deve ser dada pelos leitores. De qualquer modo, penso que no meu livro sai reforçada a ideia de que a longevidade política de Salazar se deveu, talvez, a duas qualidades: ser capaz de manter as cartas da política quase sempre muito próximo do seu peito, escondendo o jogo; e ter sido um exímio maestro: o regime, o país, o governo, a política portuguesa e internacional eram uma enorme orquestra, sempre anárquica, imprevisível, com muitos "músicos" indispostos, mentirosos, dissimulados, mesquinhos, ambiciosos, mas por vezes também, com "músicos" competentes e leais, permanentemente a entrarem e a saírem pelas mais variadas razões. Ora Salazar conseguiu, entre abril de 1928 e setembro de 1968, com responsabilidades que iam crescendo e em circunstâncias muitas vezes bastante adversas, manter-se como maestro, ser visto e reconhecido como tal, e dar a ideia de que a orquestra não só existia como era competente naquilo que tocava, mesmo quando não tocava coisíssima nenhuma.

" Salazar, que obviamente não era Cavaco Silva - e vice versa -, reuniu sempre Conselhos de Ministros. Provavelmente não os reuniu como e quando alguns ministros desejavam que essas reuniões acontecessem."

Considera-se que a maioria dos ministros de Salazar eram apenas ajudantes do governante, que nem apreciava reuniões do Conselho de Ministros. Theotónio Pereira sobressaiu?
Penso que essa ideia era errada. Salazar, que obviamente não era Cavaco Silva - e vice-versa -, reuniu sempre Conselhos de Ministros. Provavelmente não os reuniu como e quando alguns ministros desejavam que essas reuniões acontecessem. O nosso problema em relação às reuniões dos Conselhos de Ministros está em não termos as atas das suas reuniões. Há, sobretudo, testemunhos parciais e parcelares daquilo que aconteceu em algumas dessas reuniões - havia ainda Conselhos de Ministros para tratarem temas específicos, mais políticos ou mais técnicos e nos quais Salazar não participava, como aqueles que os ministros da Presidência convocavam na década de 1950. É claro, no entanto, que um governo durante a vigência da Ditadura Militar ou do Estado Novo não funcionava da mesma que funciona com a Constituição atualmente vigente em Portugal. O Governo da Constituição de 1933 não era um governo colegial. Salazar, ou Marcello Caetano, não foram "primeiros-ministros", foram "presidentes do Conselho de Ministros". Visto isto, não sei dizer se Theotónio Pereira sobressaiu nas reuniões de Conselho de Ministros, embora fale de uma intervenção sua num que se realizou quando era ministro do Comércio e Indústria e em que se tratou o problema da criação em Portugal da Sacor e da primeira refinaria a laboral em território nacionais. Genericamente, porém, não existem fontes que confirmem ou desmintam a natureza, o alcance ou a importância das suas intervenções em reuniões do Conselho de Ministros. Que se destacou como membro do Governo entre 1933 e 1937, e, depois, entre 1958 e 1961, parece-me óbvio que sim.

Afirma que "Theotónio Pereira manteve-se sempre ao serviço do Estado Novo." É uma crítica ou apenas uma constatação?
É uma constatação que dá conta da sua fidelidade a Salazar e ao regime, apesar das "questões" e "questiúnculas" que teve com Carmona, Salazar, Marcello Caetano, Duarte Pacheco, Sarmento Rodrigues, etc.

Que discordâncias se lhe podem apontar em relação à governação salazarista ou foi sempre cordato?
Pedro Theotónio Pereira não era, politicamente, um homem cordato. E também não o foi muitas vezes com Salazar. Entre 1933 e 1936, quando foi subsecretário de Estado das Corporações e Previdência, teve muitas e, do seu ponto de vista, justificadas divergências políticas com Salazar. Considerava que o chefe do Governo, depois de aprovada logo em setembro de 1933 o grosso da legislação corporativa, se desinteressara politicamente do processo político e social que devia transformar substancial, senão mesmo radicalmente, um estado e uma sociedade que para Theotónio Pereira continuavam a ser liberais ou predominantemente liberais. Esta sua impaciência não esmoreceu quando foi nomeado ministro do Comércio e Indústria no início de 1936. Daí que Salazar tenha decidido "exilá-lo" em Espanha como agente especial junto do governo franquista, então ainda não reconhecido oficialmente pelo Estado português. A despedida de Theotónio Pereira, que os sindicatos nacionais organizaram quando a 18 de janeiro de 1938 o ex-subsecretário de Estado e ministro do Comércio partiu da estação do Rossio para Salamanca, não foi apenas uma grandiosa manifestação de apoio ao Estado Novo e aos "nacionais" no contexto da guerra civil espanhola.

Como caracteriza essa despedida?
Foi, sobretudo, uma manifestação de apoio, mais uma, e de desagravo ao político que parte mas que deixa para trás uma massa importante de apoiantes mobilizados e mobilizáveis. Mais tarde, quando esteve embaixador em Washington, e já não era, como fora durante a Segunda Guerra Mundial, um dos principais conselheiros de Salazar, Theotónio Pereira teve grandes discordâncias com Salazar, desta vez sobretudo por razões diplomáticas e de política externa. Criticou a forma como foi negociado o acordo luso-americano para o uso pelos norte-americanos da base militar nos Açores; criticou duramente a abordagem que a política externa portuguesa fez do funcionamento e dos objetivos subjacentes ao European Recovery Program (conhecido por Plano Marshall), ao considerar que teria havido, pelo menos, falta de ambição e de realismo do lado português na negociação da ajuda económica e financeira disponibilizada pela Administração Truman. Por fim, e ainda em Washington, foi implacável nas críticas que fez a Salazar e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros pela forma como fora tratado o problema da aceitação por Portugal do convite que fora feito para participar e assinar, como país fundador, o Tratado do Atlântico Norte. Ainda neste contexto criticou de forma veemente aquilo que lhe parecia ser a injustificada submissão de Portugal a Espanha que, como se sabe, não foi convidada para subscrever aquele tratado e, por isso, quis impedir que Portugal participasse na aliança saída da sua assinatura. Quando esteve em Madrid e, sobretudo, no Rio de Janeiro e em Londres, também manifestou não poucas vezes a sua discordância em relação a caminhos escolhidos por Salazar e a decisões por ele tomadas. Mas deixo o conhecimento destes detalhes para uma leitura do livro.

"Marcello Caetano era a solução possível. Por um lado não podia desfazer a cama que durante anos meticulosamente fizera para se deitar."

O título do seu livro é muito afirmativo: "O Outro Delfim de Salazar". Foi-lhe fácil provar essa situação?
Salazar, que se saiba, nunca se pronunciou, ou pelo menos nunca se pronunciou frontal e honestamente, acerca da questão da sua sucessão. Nesse sentido nunca houve nenhum delfim e, portanto, Theotónio Pereira não foi um delfim. Aliás, por motivos de doença, e a partir de 1963, nunca Theotónio Pereira poderia substituir Salazar. Porém, e até 1963, Theotónio Pereira era, entre a elite do salazarismo, uma das figuras, senão mesmo a figura, que em melhor posição se encontrava para suceder a Salazar na presidência do Conselho. Consideramos que o delfim era Marcello Caetano, mas em boa medida só é assim porque foi Marcello Caetano quem, de facto, sucedeu a Salazar. Porém, o currículo de Theotónio Pereira era, tanto em termos de política interna como externa, mas também no plano profissional, dificilmente equiparável e ainda menos superável por qualquer figura destacada do salazarismo. Depois devemos ter em conta o testemunho que o almirante Américo Thomaz deixou nas suas Memórias sobre o desejo que teria de que fosse Theotónio Pereira e não Marcello Caetano a substituir Salazar em setembro de 1968. É claro que esta confissão deve ser tratada e usada com alguma cautela. Mas a verdade é que não é descabida no contexto da história do salazarismo em setembro de 1968. Américo Thomaz conhecia muito bem Theotónio Pereira desde a década 1930 e, sobretudo, depois de ter sido eleito presidente em 1958 acompanhou de perto a sua passagem pelo Ministério da Presidência, onde substituiu Marcello Caetano e onde esteve muito ativo, por razões que detalho no livro, na gestão política do desvio do paquete Santa Maria. Por último, acompanhou o labor de Theotónio Pereira como embaixador em Washington entre 1961 e 1963. Há, claro, o testemunho que Virgínia Theotónio Pereira, irmã de Pedro, deixou nas suas Memórias acerca de uma conversa, ou desabafo, que com ela Salazar terá tido quando estava internado no Hospital da Cruz Vermelha. Não existe nada que confirme ou infirme a veracidade desta conversa, mas, sinceramente, tendo a considerá-la senão verdadeira, pelo menos verosímil. Digo isto porque apesar das Memórias de Virgínia Theotónio Pereira terem tanto de "pessoais" como de "políticas", não me sinto capaz de concluir que alguém como Virgínia Theotónio Pereira poderia mentir e iria mentir numa questão que estava absolutamente resolvida quando o testemunho foi escrito e publicado. Por fim, também Manuel Maria Múrias deixou algumas (in)confidências sobre o assunto da sucessão e nas quais se refere à real possibilidade que Theotónio Pereira teria de suceder a Salazar, caso a sua saúde o tivesse permitido (e já nada digo, porque está no livro, alguns comentários que diplomatas estrangeiros colocados em Lisboa fizeram acerca da possibilidade de Theotónio Pereira poder suceder a Salazar).

O "outro" além deste seria Marcello Caetano, ou mais não foi do que uma solução em tempos de crise?
Sim. De facto, o outro foi, era, Marcello Caetano. Caetano era a solução possível. Por um lado não podia desfazer a cama que durante anos meticulosamente fizera para se deitar (e que outros, aliás, tinham ajudado a fazer). Por outro, era a solução em tempos de crise porque de facto não havia mais ninguém com experiência política equiparável, o que não significa que outros, mais novos, não pudessem ter mais carisma e, sobretudo, mais qualidades políticas. No entanto, Marcello Caetano foi sempre o mínimo denominador comum numa situação em que não havia um máximo denominador comum.

Theotónio Pereira colaborou muito a nível legislativo com Marcello Caetano. Existia alguma rivalidade entre delfins?
Se essa rivalidade existiu não está documentada e nem tinha, sequer, que ser tornada pública porque a sua publicitação, ao menos até 1963, não era do interesse de nenhum dos dois. Marcello Caetano e Theotónio Pereira eram amigos, Marcello Caetano trabalhou na seguradora Fidelidade para onde foi levado por Theotónio Pereira (eram ambos muito novos, ainda na casa dos 20 anos). Tiveram divergências é claro. Falo de algumas no livro. Mas nenhuma tinha como questão de fundo o provável, ou improvável, "delfinato" de um deles. Porém, e nas suas Memórias de Salazar, Caetano mostrou-se, e repare-se que este testemunho foi escrito já na segunda metade da década de 1970, magoado no seu brio pelo facto de Salazar ter recorrido a Theotónio Pereira e não a ele, Marcello Caetano, no início de 1933, para fazer a revisão final do texto do projeto da nova Constituição que seria depois plebiscitada.

Aos 23 anos, foi convidado por Salazar para ser auditor jurídico no Ministério das Finanças. Como se destacara entre os vários técnicos à época?
O convite que Salazar fez a Marcello Caetano para ser auditor jurídico no Ministério das Finanças teve razões políticas, técnicas e pessoais, uma vez que foi Theotónio Pereira que, como colaborador do então ministro das Finanças, escolheu o seu amigo Marcello Caetano, também companheiro de várias lides políticas de juventude, para trabalhar na reforma de uma nova legislação que regulasse a atividade seguradora. No entanto, devemos ter em conta que havia uma enorme escassez de gente qualificada para desempenhar tarefas, exercer cargos como aquele para o qual Marcello Caetano foi escolhido, facto que reduzia muitíssimo o leque dos elegíveis para ocupar aquele posto. Mas Marcello Caetano tinha a seu favor a sua juventude, o conhecimento aprofundado da legislação existente sobre a atividade seguradora, porque trabalhava na Fidelidade, a sua ambição e a proximidade política e ideológica, ainda que mais relativa do que absoluta, com Salazar e a heteróclita família política (católica, nacionalista, corporativa) que encarnava no Governo.

"Quanto aos motivos que terão levado Salazar a ter com Virgínia Theotónio Pereira o desabafo por ela publicado, é possível que se sentisse emocional e fisicamente fragilizado."

"A partir da segunda metade da década de 1930, o nome de Theotónio Pereira começou a ser recorrentemente ventilado como sucessor de Salazar." A carreira de Theotónio Pereira foi também vítima da eternização de Salazar no poder?
A "eternização de Salazar no poder" provocou várias "vítimas". Theotónio Pereira foi uma delas, mas não foi a que mais se ressentiu dessa "eternização". Theotónio Pereira poderá não ter sucedido a Salazar quando fisicamente tal ainda poderia ter acontecer porque, de facto, Salazar se manteve mais de 40 anos no Governo, 36 deles como presidente do Conselho. Mas, apesar de tudo, Theotónio Pereira tinha uma margem de manobra política e uma liberdade de ação que lhe vinha do facto de ter um impressionante currículo político, ter uma situação económica muito desafogada e por ter passado quase vinte anos ao serviço do Estado Novo como diplomata. Alguns destes factos teriam aspetos negativos em termos políticos, e aos quais me refiro no livro, mas ao mesmo tempo, sobretudo os anos que viveu no estrangeiro, davam-lhe uma liberdade e uma perspetiva única na avaliação que ia fazendo da evolução da política e da sociedade portuguesa ao longo de várias décadas, umas vezes valorizando o modelo salazarista, outras percebendo os seus aspetos negativos. Provavelmente, e ainda que tenha ambicionado suceder a Salazar, podia ser muito mais estimulante do ponto de vista pessoal, e até político, estar como embaixador em Londres ou em Washington do que exercer o cargo de presidente do Conselho com residência oficial em São Bento.

Afirma-se que Salazar nunca se preocupou com quem se seguiria após a sua morte, no entanto logo à primeira linha desta biografia inverte esta premissa. Acredita no testemunho?
Salazar sempre se preocupou com quem lhe poderia suceder porque sempre se preocupou muitíssimo em manter-se no poder tanto tempo quanto fosse capaz ou quanto lhe fosse permitido. Quanto à minha "crença" no testemunho deixado por Virgínia Theotónio Pereira, diria, como expliquei anteriormente, que essa "crença" não é, nem pode ser, ilimitada. No entanto, e como também já afirmei, não vejo razões para que o testemunho não seja usado. Finalmente, e quanto aos motivos que terão levado Salazar a ter com Virgínia Theotónio Pereira o desabafo por ela publicado, apenas posso especular. É possível que se sentisse emocional e fisicamente fragilizado. Que efetivamente considerasse o futuro do regime em perigo após a deterioração do seu estado de saúde. Ou que esperasse que a (in)confidência feita a Virgínia Theotónio Pereira fosse por esta divulgada e, portanto, pudesse contribuir para influenciar a escolha do seu sucessor ou diminuir a autoridade e a legitimidade do escolhido.

A sua recolha de testemunhos é longa. São credíveis ou foi obrigado a confrontar os vários depoimentos para encontrar uma verdade plausível?
É essencial, mesmo vital, confrontar testemunhos, sejam eles quais forem. Se os consideramos verdadeiros ou verosímeis usamo-los na narrativa que construímos. Se os historiadores forem homens, ou mulheres de fé, poderão rezar na esperança de que nunca nenhum outro "testemunho" desdiga aquilo que foi afirmado a partir dos "testemunhos" usados. Note-se, porém, que para além da fiabilidade dos "testemunhos", e que é vital, há o problema da sua interpretação. Ora o interessante da história, enquanto disciplina do conhecimento, reside não apenas na forma como os factos são, digamos, compilados e avaliados quanto à sua veracidade mas, sobretudo, à forma como são interpretados. É na interpretação dos "testemunhos", na capacidade de ver mais e melhor através dos "testemunhos", que se diferencia, se avalia, a qualidade do trabalho do historiador e que o trabalho do historiador é mais ou menos valioso para quem o lê.

Acha que com o passar do tempo estas "confidências" têm sido reinterpretadas pelos que as fizeram ou estão sólidas no pensamento de quem as fez?
Penso que podem existir as duas situações: reinterpretação nuns casos, cristalização noutros. De qualquer modo, e apesar de haver sempre exceções, em história, ou na historiografia, quem costuma interpretar ou reinterpretar os testemunhos é quem faz o trabalho de historiador. Digo-o como constatação e não de forma arrogante por considerar que os historiadores são indivíduos especialmente iluminados.

"Procurei reforçar a ideia de que o salazarismo tem uma história política muito marcada pelo acaso e por uma confrontação política permanente, recorrentemente intensa e violenta, entre personalidades, corporações, sensibilidades ou famílias políticas."

Houve da parte dos descendentes colaboração na investigação?
Sem a colaboração de vários familiares e alguns amigos do embaixador Theotónio Pereira este trabalho não teria metade da qualidade e do interesse que eventualmente pode ter e suscitar. O meu agradecimento é infinito, a começar na ajuda que o sobrinho-neto do embaixador Theotónio Pereira, o Prof. Doutor Gonçalo Sampaio e Mello, me deu durante anos a fio.

Pode dizer-se que esta biografia acrescenta mais umas páginas à de Salazar?
Sinceramente preferia que essa pergunta fosse respondida pelos leitores do livro, embora não seja essa a razão principal que me levou a fazer esta investigação. Mas, e por outro lado, gostava que acrescentasse alguma coisa àquilo que sabemos, ou sabíamos, sobre Salazar, o salazarismo e um certo Portugal que existiu da I República praticamente até ao fim do Estado Novo. Este período da história de Portugal ainda é apresentado e visto por muitos de forma demasiado simples e simplista, maniqueísta, mesmo. Ora a realidade, sobretudo a realidade política, nunca é tão simples como por vezes parece e, sobretudo, muitos nos querem fazer crer que é.

O retrato de Salazar está feito ou necessita de ser retocado em alguns aspetos nos próximos anos?
Há vários retratos de Salazar e nenhum é definitivo. Confesso que gostava de ainda poder escrever e publicar o meu retrato de Salazar. Não em 1200 páginas mas, talvez, em 120. Um ensaio biográfico mais do que uma biografia. Veremos, mas está no último lugar dos trabalhos que ainda quero escrever e publicar em livro.

Se tivesse de escolher uma grande "novidade" nesta investigação qual destacaria?
Do ponto de vista factual penso que não tem grandes novidades. Já do ponto de vista interpretativo diria, e muito sucintamente, que procurei reforçar a ideia de que o salazarismo tem uma história política muito marcada pelo acaso e por uma confrontação política permanente, recorrentemente intensa e violenta, entre personalidades, corporações, sensibilidades ou famílias políticas - a maior das vezes pouco estáveis e nada duradouras -, e que é esta realidade, mais do que qualquer outra, que define o salazarismo e nos permite perceber a sua natureza, a sua longevidade, as suas luzes e as suas sombras. Penso ainda que consigo introduzir alguns elementos interpretativos novos no que respeita à história da política externa portuguesa durante a guerra civil espanhola, ou às relações com o Brasil, os EUA, o Reino Unido e as razões do comportamento português face ao convite feito por britânicos e norte-americanos para assinar o Tratado do Atlântico Norte na qualidade de estado cofundador. Finalmente, penso que a política externa e interna portuguesa no contexto da guerra civil de Espanha e a questão do papel de Theotónio Pereira, e do próprio Governo português, na crise de refugiados que envolveu o cônsul Aristides de Sousa Mendes, também são por mim reavaliadas e reinterpretadas.

Theotónio Pereira manteve-se impenetrável em alguma parte da sua vida?
É possível. Mas ainda não sou capaz de dizer qual.

As publicações de Theotónio Pereira ocupam-lhe uma página inteira nas fontes. Foram uma ajuda preciosa?
Para além da correspondência pessoal e oficial publicada em várias coletâneas de documentos, e que é e será sempre muito importante, as restantes publicações da autoria do biografado iluminam diferentes aspetos e fases distintas da sua vida. De qualquer modo, convém sublinhar que desde que saiu do Governo em finais de 1937, e até ao momento em que começou a escrever as suas Memórias, que não concluiu por ter falecido enquanto redigia aquele que foi o segundo volume de uma obra infelizmente incompleta, Theotónio Pereira escreveu e publicou muito pouco. Ou seja, se até à década de 1930 publicou vários escritos políticos porque se preocupava em publicitar com a sua assinatura aquilo que pensava e que ia fazendo politicamente, a partir de 1938 foi sobretudo, embora não exclusivamente, através de entrevistas concedidas à imprensa portuguesa e estrangeira que se pronunciou publicamente sobre questões políticas, económicas, sociais ou outras.

O trabalho resulta de uma tese. Foi complexo adaptar o texto académico para o leitor mais ou menos comum?
Não foi complicado, foi apenas trabalhoso transformar uma tese muito extensa num livro menos extenso mas, ainda assim, muito grande para os padrões normais da edição em Portugal e em qualquer parte do mundo. No entanto, penso que a tese não tinha em excesso aquilo que normalmente consideramos serem os chamados jargões académicos. Por aí, e só por aí, posso garantir que o trabalho de adaptação não foi complicado. É claro que também aqui a última palavra cabe ao leitor. Ele dirá se o livro ainda é muito académico em aspetos em que não deveria sê-lo.

Entre 2005, quando defendeu a tese, e a publicação agora a sua interpretação foi alterada?
Não foi minimamente alterada. Penso que foi apenas reforçada. Ou seja, penso que as minhas interpretações mais inovadoras, se me é permitida a falta de modéstia. estão muito mais sólidas, ou menos frágeis, nesta versão.

Porque levou tanto tempo a publicar este livro?
Fui revendo o texto de acordo com a minha disponibilidade e em função de leituras que ia fazendo ou conversas que mantinha com colegas e amigos desde, se bem me lembro, 2006. A revisão final para a D. Quixote terá durado talvez um ano, embora não tenha sido a única nem a principal tarefa que desenvolvi nesse espaço de tempo.

Opta por colocar frases nos títulos de cada capítulo. Estilo ou para enfatizar o tema?
Tentei ser um pouco "literário" e original na escolha dos títulos dos capítulos como, aliás, em toda a redação do trabalho. Ao mesmo tempo, as frases escolhidas pretendem ser elucidativas daquilo que sucede ao biografado em cada um dos capítulos, sendo que cada um deles corresponde a uma fase importante da sua biografia. Espero que tenha sido bem sucedido nas escolhas e no propósito.

Pedro Theotónio Pereira - O Outro Delfim de Salazar

Fernando Martins

Editora D. Quixote

1197 páginas

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