"O espanhol é a língua com mais crescimento profissional no mundo"

Entrevista a Iñaki Abad Leguina, escritor espanhol que é atualmente o diretor do Instituto Cervantes de Lisboa.

Todos os anos aparecem portugueses interessados em estudar espanhol no Cervantes. O que é que procuram, uma vez que já entendem com facilidade a língua. O que é que querem mais?
Creio que os que vêm aqui para estudar espanhol é fundamentalmente porque querem melhorar as competências linguísticas, porque querem aperfeiçoar e não falar o "portiñol". A maioria vem motivada principalmente por uma razão profissional.

Gente que pensa ter, um dia, uma profissão em Espanha ou numa empresa espanhola?
Sim. Numa empresa espanhola ou numa empresa latino-americana, na América Latina. Muita gente estuda espanhol como uma competência profissional, como um instrumento para melhorar profissionalmente. É isso e o caso de pessoas que amam Espanha em todos os sentidos.

Estudantes que, mais do que pensar no aspeto profissional, gostam da língua, da cultura...
... Da gastronomia, das pessoas. Gostam de Espanha num todo. Mas esse é um grupo um pouco mais minoritário, pois, fundamentalmente, quem nos procura são jovens profissionais.

Quando fala desses dois públicos, não está a falar nunca de crianças, está a falar sempre de adultos, certo?
Sim, de adultos. Aqui não temos cursos para crianças. Noutros centros onde trabalhei, sim, havia procura para crianças. Creio que no futuro programaremos, mas a pandemia paralisou-nos um pouco.

Neste contexto de pandemia vão ter aulas presenciais ou somente online?
Vamos ter aulas só online. Inclusivamente, aumentámos o número de alunos porque podemos ter alunos no Porto, em Évora, na Guarda... Pessoas que não vivem em Lisboa, mas podem assistir aos cursos online do Cervantes. Nós somos presenciais, um centro cultural diminui a sua força sem a presença das pessoas. Voltaremos a fazer cursos presenciais em função das disposições sanitárias portuguesas e o cumprimento da legislação portuguesa, mas também vamos fazer mais cursos online, as duas ofertas vão conviver. É essa a ideia.

Em que outros países trabalhou para o Instituto Cervantes?
Com o Cervantes trabalhei em Itália - Nápoles e Milão -, em Praga, em Budapeste, em Manchester, em Madrid - na sede central - e agora em Lisboa.

Estamos a falar de países muito diferentes, países de cultura latina, mas também de países como a Hungria, que é magiar, República Checa, que é eslava, em países anglo-saxónicos. É comum a todos esses países o interesse pela língua espanhola?
Sim, sim. É um pouco diferente. Eu creio que a avaliação do espanhol, como a do português, mudou nos últimos anos. Ou seja, passou de ser uma língua graciosa, uma língua de que as pessoas gostavam, uma língua de sol, de praia, para uma língua de desenvolvimento profissional. Os ingleses, que são muito pragmáticos, distinguiram-na como a primeira língua de desenvolvimento profissional. O British Council fez um estudo e o espanhol é a língua com mais crescimento profissional atualmente no mundo.

Em termos de língua de expansão global, o que exclui para já o chinês, o espanhol é a segunda, depois do inglês. É também, cada vez mais, a segunda língua a ser ensinada nas escolas em todo o mundo. Nesses países onde trabalhou, o espanhol conseguia ser uma opção mais popular do que o francês?
Em Inglaterra, sim e em Itália também. Noutros, por exemplo, na República Checa e na Hungria, não. A mim, o que mais me surpreendeu foi no mundo anglo-saxónico.

Tem que ver também com a força do espanhol nos Estados Unidos?
Claro. Creio que é um reflexo que irradia de alguma forma dos Estados Unidos, um reflexo que é a importância da língua no mundo dos negócios.

Para um anglo-saxónico, cada vez mais a segunda língua tem de ser o espanhol?
Sim.

A sua língua materna é o espanhol. Sendo de Bilbau, fala também basco?
Não. Eu nasci em Bilbau, mas numa época um pouco particular em que o basco não se ensinava nas escolas. A minha irmã, que é cinco anos mais nova do que eu, já teve acesso à língua basca.

Quando vê a sua língua materna a ser falada por tantos países no mundo, creio que em mais de 20...
... São 23 que têm o espanhol como língua oficial, mas há mais dois ou três.

Sente que é sempre a mesma língua aquela que é falada em tantos países?
Não. São línguas que têm a mesma base comum muito forte, que é a base comum fundamentalmente gramatical e mais ou menos de pronunciação, mas lexicalmente são muitos espanhóis.

Se ouve um cubano ou um argentino a falar identifica o uso de outras palavras, não habituais em Espanha?
Se ouvimos um cubano, um mexicano, um colombiano ou um argentino entendemo-los perfeitamente, mas é um outro sotaque, outra música, algumas vezes com algumas expressões, mas o bom é que é uma língua muito homogénea. Ao contrário de outras línguas e não obstante ser falado por muitos milhões de pessoas em todo o mundo, o espanhol é homogéneo como língua.

Quantos milhões são agora de falantes? 500 milhões?
Sim, mais ou menos. Cerca de 480-500 milhões.

E com a demografia galopante de alguns países da América Latina vão ser muito mais...
São sempre mais. Há uma coisa em que eu creio que Portugal e Espanha coincidem: nem Portugal nem Espanha se consideram proprietários da língua - talvez no passado, mas agora já não. O espanhol de Espanha é falado por 40 milhões, o que não chega nem a 10% da comunidade da língua. A comunidade mexicana, por exemplo, é maior do que a espanhola. Assim, é uma língua muito polifónica, muito poliédrica, da qual nós, os espanhóis, não somos proprietários.

Há situações muito diferentes com o espanhol atualmente em Espanha. Por exemplo, na Galiza, as pessoas falam muito o galego em casa, mas na vida pública é sempre o castelhano. Porém, na Catalunha e no País Basco é diferente?
Completamente diferente.

Aí, o catalão e o basco podem estar muito presentes na vida pública?
Sim. Na Catalunha muitíssimo mais, no País Basco muito, mas não tanto como na Catalunha. No País Basco, as políticas linguísticas depois da morte de Franco deram muito a primazia ao uso da língua basca, não só na administração pública, mas também na rua. Há cidades, há áreas onde falar basco é a primeira opção.

No ensino público o espanhol é obrigatório, não é?
No ensino público, sim. Por lei, o espanhol é a língua oficial. Eu creio que, muitas vezes, o político suja um pouco o tema linguístico, que não é um tema político. Eu acredito que quantas mais línguas uma pessoa souber melhor. O multilinguismo é sempre mais aconselhável que o monolinguismo.

O Cervantes promove todas as línguas de Espanha?
Nós, por lei nacional, sendo um organismo público, temos de representar sempre a pluralidade linguística, que é uma característica do nosso sistema, e isso tem um valor. Nós temos línguas cooficiais, o basco, o galego e o catalão. E nós, Cervantes, não só por lei, mas também por vontade nossa, programamos cursos em basco, em catalão e em galego.

Em Portugal, neste momento, não há?
Neste momento, não há, mas eu trabalhei em centros onde havia cursos de catalão e cursos de basco. Havia cursos de basco em Budapeste, por exemplo, em colaboração com o organismo que tem como função difundir a língua basca no exterior, o Instituto Etxepare, com o qual temos muito boas relações. Enquanto estamos aqui a falar desse tema, em Berlim, o nosso diretor Luis García Montero vai participar nesta tarde num ato com as línguas cooficiais, onde vão estar escritores catalães, bascos, galegos, numa mesa-redonda, sobretudo para transmitir no Dia Europeu das Línguas, a importância das línguas cooficiais de Espanha.

Aqui, na biblioteca onde estamos a falar, posso encontrar livros em basco, em catalão e em galego?
Sim. Fazemos compras, fazemos questão de manter essa oferta. Por exemplo, em Budapeste havia uma coleção muito interessante de livros de línguas cooficiais e em Varsóvia a mesma coisa, havia uma grande coleção de livros em catalão.

Com a proximidade linguística que há entre Portugal e Espanha, o Cervantes e o Instituto Camões costumam fazer cooperação?
Eu creio que temos de avançar um pouco. A sensação que eu tenho é de que aqui se desenvolveram muito as relações transfronteiriças, mas há uma relação, que é a bilateral, que vai mais além do que são as linhas fronteiriças, para se desenvolverem projetos entre os dois países do ponto de vista linguístico. Creio que temos de estar conscientes de que estas duas línguas que são tão próximas - você está a falar comigo em português, eu estou a responder em castelhano e nós entendemo-nos - representam por isso um valor que mais ninguém tem na Europa, além de nós. Eu penso que isto tem uma projeção para se poder fazer um projeto e que tem, sobretudo, uma força política que é muito importante. Vai ser apresentado um livro publicado pelo Instituto Camões e pelo Instituto Cervantes que faz parte de um projeto começado há anos e que é um livro sobre Cervantes e Camões. Esta seria a segunda publicação das duas instituições que leva como título Projeção Internacional do Espanhol e do Português: o Potencial da Proximidade Linguística. É um livro, uma espécie de ensaio, em que participam os maiores linguistas, sociólogos, pensadores que abordam este projeto. A ideia é apresentá-lo quanto antes e aproveitar, se possível, algum encontro internacional para lhe dar o valor que tem. Eu creio que este é o caminho, procurar formas de colaboração em todos os países e apresentá-lo em muitos lugares como um projeto multilingue real, que se pode fazer.

Acha que diz muito sobre a cultura e a história de Portugal e de Espanha que os dois institutos que promovem a língua se chamem Camões e Cervantes, que foram homens de letras, mas também homens que viajaram, que combateram, que foram homens do mundo? O que é uma diferença enorme para Shakespeare, que foi um grande erudito mas que pouco ou nada saiu de Inglaterra...
Sim, eu creio que representam simbolicamente aquilo que somos com o povo, representam-nos. A mim, Cervantes representa-me e creio que a um português Camões também o representa. Porque nele [Cervantes] convive de tudo um pouco. Convive o aventureiro, convive o homem que vai procurar fortuna, convive o homem que não aceita o poder estabelecido e é um resistente. É um pouco o espírito espanhol e Cervantes, a mim particularmente, representa-me.

Se eu lhe pedisse que sugerisse três autores - sem ser Cervantes -, sem ser atuais, a alguém em Portugal que se interessa pela cultura espanhola, pela língua espanhola, pela literatura espanhola...
Saiu há dias um artigo sobre Unamuno no Diário de Notícias, e eu digo que ele é um escritor - não só porque é de Bilbau como eu - ao qual é necessário voltar de vez em quando. Vou falar de uma perspetiva talvez portuguesa: Ortega y Gasset é alguém a quem é importante voltar também, como pensador e como homem que nos pode dar chaves para interpretar o nosso presente. E a seguir, por outros motivos, diria Benito Pérez Gáldoz que veio para cá para viver a sua história de amor e adultério com Dona Emilia Pardo Bazán, mas, além disso, tem umas notas sobre uma viagem a Portugal que é uma aproximação a como um espanhol entra em Portugal. Eu penso que esses três autores, que estão um pouco a cavalo entre os séculos XIX e XX, são muito importantes.

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