As novas linhas de alta velocidade em Portugal serão construídas em bitola ibérica, mas com travessas polivalentes.
As novas linhas de alta velocidade em Portugal serão construídas em bitola ibérica, mas com travessas polivalentes.D.R.

Tribunal de Contas avisa que reforma do governo ao auditor da despesa pública pode ser "inconstitucional"

Proposta do governo “interfere de forma inadmissível" com mandato "constitucional" do auditor. Fiscalização prévia é “esvaziada”. Contratos inferiores a 10 milhões de euros fora do seu alcance.
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A reforma de grandes dimensões que o Governo do primeiro-ministro, Luís Montenegro, quer fazer do regime de controlo das finanças públicas e dos poderes atuais do Tribunal de Contas (TdC), representa uma rutura com o modelo constitucional vigente e fragiliza os mecanismos de fiscalização e responsabilização da despesa pública, levando a um aumento dos contratos públicos (e do respetivo valor contratado entre entidades públicas e privadas) que assim ficam sem controlo financeiro antes e à posteriori.

Segundo o parecer da Comissão Permanente do TdC, apresentado esta quinta-feira, em conferência de imprensa, pela presidente do auditor independente das contas públicas, Filipa Urbano Calvão, a iniciativa do governo e da tutela concreta do ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, "vem precisamente romper com o modelo constitucional de controlo externo das finanças públicas" que hoje existe.

Isto num momento em que se perfilam novos e grandes investimentos financiados com dinheiros públicos nacionais e fundos europeus, como a ferrovia de alta velocidade, novos investimentos e despesas correntes no sector militar, novas barragens e muitas outras obras públicas de dimensão importante.

Segundo o parecer citado por Filipa Calvão para sustentar a posição da sua instituição perante os vários ataques de que tem sido alvo nas últimas semanas, sobretudo da parte do ministro Gonçalo Matias, a proposta assenta numa “opção de fundo de extinguir a conceção integrada do controlo”, com efeitos transversais na organização e funcionamento do Tribunal, bem como nos seus poderes.

O TdC resume que a iniciativa do governo leva a "um claríssimo enfraquecimento do seu âmbito [do Tribunal]" e ao "esvaziamento das funções jurisdicionais de controlo prévio e de julgamento de responsabilidades financeiras".

Apesar de o Governo invocar objetivos de eficiência, especialização e alinhamento com boas práticas internacionais, o Tribunal entende que o efeito real é o oposto: a reforma gizada pelo Executivo na proposta ainda em discussão pública, mas que depois irá a votos no Parlamento, conduz a "uma segmentação interna do Tribunal" e a um sistema “mais rígido, menos moderno e menos integrado”.

Pior: segundo a comissão do Tribunal que analisou a proposta esta contraria "o modelo constitucionalmente consagrado" e contraria o governo, afirmando que não cumpre sequer "os padrões internacionais do controlo externo da gestão financeira pública".

Quase "extinção" da fiscalização prévia

Um dos principais pontos de crítica é a redução da função preventiva, do poder de fiscalização prévia.

O diploma prevê uma forte limitação dessa fiscalização prévia, que tem sido essencial para travar ilegalidades antes da despesa ser realizada.

Para o Tribunal, esta redução — que pode levar à “tendencial extinção” da referida função — compromete a capacidade de “prevenir ilegalidades na realização de despesa pública e no endividamento público” e de combater a corrupção, sobretudo “no contexto da utilização de fundos europeus”, por exemplo.

O parecer sublinha ainda que a proposta rompe a articulação entre os vários níveis de controlo — preventivo, concomitante e sucessivo —, enfraquecendo a coerência do sistema.

As recomendações do Tribunal poderão passar a ser vistas como “meras sugestões de comportamento”, retirando-lhes força vinculativa e impacto prático, antecipam os juízes auditores.

Governo quer desresponsabilizar os gestores públicos e mais liberdade para gastar fundos europeus

"Desresponsabilização" dos gestores públicos

No domínio da responsabilização pessoal de quem prevarica com intenção ou faz mal sem saber ou dominar os dossiês, o diagnóstico é igualmente severo. A proposta conjuga maior autonomia decisória dos gestores públicos com um quadro que o Tribunal considera “desresponsabilizador”.

Os critérios para sancionar infrações são restritivos, limitando a punição a casos de dolo ou “negligência grosseira”, o que “contribui para aumentar substancialmente o risco de falta de cuidado e rigor” na gestão dos recursos públicos.

Para o Tribunal de Contas, a reforma traduz-se, assim, numa “desintegração do modelo de controlo externo independente”, com consequências diretas: “enfraquecimento desse controlo” e aumento do risco para as finanças públicas, incluindo o “risco de incumprimento dos compromissos […] assumidos pelo Estado português perante a União Europeia”.

Entre as alterações mais sensíveis está a exclusão de certas entidades do controlo do Tribunal, nomeadamente empresas públicas com participação maioritária do Estado.

Esta opção é considerada grave, por criar “vazios de controlo, em que nenhum escrutínio é possível” e permitir subtrair a utilização de recursos públicos à fiscalização independente.

Bar aberto nos fundos europeus?

Ainda mais preocupante, segundo o parecer, é a ausência de normas claras sobre o controlo dos fundos europeus.

A proposta elimina referências explícitas à fiscalização desses recursos, o que pode comprometer a obrigação de garantir níveis adequados de controlo e proteção dos interesses financeiros da União.

Como referido, uma das traves da reforma desejada pelo governo de minoria de direita passa pelo esvaziamento da fiscalização prévia.

O novo regime restringe significativamente os contratos sujeitos a controlo, fixando limiares elevados — cerca de dez milhões de euros — e permitindo exceções decididas por membros do Governo.

Para o Tribunal, há aqui a “intenção […] de progressivamente extinguir o modelo de fiscalização preventiva”, sem assegurar alternativas eficazes.

Adicionalmente, o executivo pretende limitar o poder do Tribunal para recusar o visto a contratos ilegais, exigindo prova de prejuízo financeiro efetivo e não apenas potencial.

Para o auditor público, esta alteração pode impedir o bloqueio de contratos com "irregularidades graves" e aumentar “exponencialmente os riscos de ilegalidades”.

No plano da responsabilidade financeira, o Tribunal denuncia uma “opção radical de desresponsabilização”.

Por exemplo, a exclusão de responsabilidade por negligência, salvo prova de culpa grave, elimina a maioria dos casos atualmente sancionados e pode incentivar comportamentos menos rigorosos, defende o parecer emanado pela comissão especializada do auditor.

O parecer alerta ainda que a proposta “pretende que deixe de ser censurável o desconhecimento da lei pelo infrator”.

Pareceres privados podem livrar prevaricadores

E particularmente criticada é a possibilidade de poderem ocorrer decisões baseadas em pareceres, incluindo privados, que depois podem afastar a responsabilidade financeira.

Para o Tribunal é uma possibilidade que choca. Esta solução pode permitir que “a opinião de profissionais privados delimite o âmbito da responsabilidade”, o que o Tribunal considera “inadmissível, num Estado de Direito”.

O diploma é também acusado de reduzir o elenco de infrações e de dificultar a sua prova, nomeadamente em matéria de contratação pública.

Em vários casos, passa a exigir-se demonstração de impacto financeiro concreto, o que pode inviabilizar sanções mesmo quando há violação de regras fundamentais de transparência e concorrência.

Por fim, a proposta altera significativamente os prazos de prescrição, reduzindo-os e eliminando causas de suspensão, o que para o Tribunal contribui para ampliar os casos em que as infrações deixam de poder ser punidas.

O Tribunal de Contas conclui, através do novo parecer, que a proposta do “interfere de forma inadmissível com o mandato” constitucional da instituição e constitui “uma contradição estrutural com o quadro constitucional e com os standards internacionais”, além de representar um risco acrescido para a legalidade e sustentabilidade das finanças públicas.

Como referido, nas últimas semanas, o TdC tem sido alvo do ministro da Reforma do Estado, em várias ocasiões.

Gonçalo Matias tem subido o tom das críticas para defender a sua "reforma", dizendo que o TdC e as regras atuais da contratação pública são “bloqueios”, que é preciso desfazer este “nó górdio”, que “se desbloquearmos [o entrave TdC], muitas coisas vão começar a fluir”, tendo mesmo acusado o coletivo de auditores de estar a "imiscuir-se em funções governativas", indo além das suas competências.

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