César Araújo assumiu, no fim do ano passado, um novo mandato como presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário, Confecção e Moda (Anivec). Pela frente tem vários desafios, numa altura em que muitas empresas (algumas gigantes) tiveram que reestruturar o negócio. Em entrevista ao DN/DV, o também CEO da Calvelex, acusa a União Europeia (UE) de não proteger a indústria local e aponta o dedo à facilidade com que as plataformas de comércio eletrónico chinesas colocam os seus produtos no espaço comunitário, sem pagar IVA e taxas aduaneiras. A penalização de três euros que os consumidores terão de pagar a partir de julho por encomendas superiores a 150 euros “é areia para os olhos”. Na sua opinião, a UE está a pactuar com crimes de âmbito fiscal, ambiental e de propriedade. As exportações portuguesas estão em queda. Os acordos com o Mercosul e a Índia podem ser uma oportunidade, se abrirem também as portas às exportações europeias, diz. O têxtil e vestuário enfrentou, no ano passado, o fecho de várias unidades industriais - algumas de gigantes do setor -, centenas de despedimentos e pedidos de processos especiais de revitalização (PER). A que se deve este abalo?Estamos a viver tempos muito difíceis. Muito complexos. E tudo tem a ver com as políticas europeias. A Europa já viu que muitas das políticas feitas nos últimos dez anos não foram políticas boas, bem pelo contrário. A Europa deu-se conta disso quando olhou para os Estados Unidos e para a China, países altamente desenvolvidos. A Europa não foi amiga das suas empresas. Só temos pequenas e médias empresas. Temos algumas grandes, mas devíamos ter muito mais empresas com capacidade de competir globalmente. Promovemos uma Europa de agenciação, de subcontratação. O mecanismo não estava apropriado para que a Europa tivesse um desenvolvimento industrial robusto, sustentável, que pudesse dar resposta à realidade atual do mundo. E hoje somos confrontados com importações massivas, que não cumprem as regras que as empresas europeias têm de cumprir.A Europa nunca pensou que o mundo ia mudar. Meteu-se no seu território a pensar que bastava só financiar países terceiros e que isto ia tudo correr bem. Hoje, a China é um grande país, mas deve-o também à Europa, que foi - e continua a ser -, um grande comprador de produtos chineses. Mas nós vemo-nos confrontados com um facto: a China não compra nada a ninguém. Tirando alguns acordos, feitos por governos locais - na indústria automóvel, na aeronáutica -, não compra nada. E quando deixar de precisar, vai deixar de comprar. O ano de 2025 foi mau. O 2024 também foi mau. Agora, vamos ver quais são as políticas europeias para 2026.Está a dizer que as dificuldades vividas pelo setor têxtil e de vestuário devem-se à China?Nós estamos a importar produtos através do regime de minimis [instrumento que permite a entrada de encomendas de baixo valor no mercado europeu sem pagar taxas aduaneiras] e de SPG [Sistema de Preferências Generalizadas, política comercial da UE que permite que produtos importados de determinados países beneficiem de direitos aduaneiros reduzidos ou isenções]. Em 2024, entraram na Europa 4,7 mil milhões de euros de pequenas embalagens. 70% são vestuário. Em 2023, entraram 2,3 mil milhões. Em 2022, entraram 1,2 mil milhões. Em 2021, entraram 750 milhões. Como se pode verificar, o crescimento foi explosivo. No ano passado, deverão ter entrado qualquer coisa como oito mil milhões de embalagens. É esta a facilidade e a brutalidade dos números com que a Europa se está a confrontar. Vêm de plataformas eletrónicas como a Shien, Temu, AliExpress. A Europa diz que não há capacidade humana para controlar este movimento. Se não tem capacidade de controlo, então, controle-se. Não se descontrole. Porque o descontrolo permite que outros agentes económicos vejam uma oportunidade. Há dias entraram na Europa 1,2 mil milhões de notas e moedas falsas. Isto está a colocar em causa vários setores europeus e, entre eles, o vestuário. Estamos todos a sentir.A Anivec tem estado muito ativa nesta luta contra as plataformas eletrónicas de comércio. A UE está sensível às vossas preocupações?A Anivec foi para a Europa, foi para Bruxelas, marcar a sua posição em relação ao que está a acontecer. O que está a acontecer não faz sentido numa Europa que quer ser o exemplo da sustentabilidade e de uma economia circular. Mas importa, de ano para ano, uma brutalidade de produtos de países terceiros, que não cumprem os requisitos legais. Há muitos produtos que entram na Europa que contêm substâncias prejudiciais à saúde humana. Também não há capacidade para reciclar esta quantidade de produtos de baixa qualidade. Isto tem que acabar. Estamos a cometer três grandes crimes. O primeiro é a maior fraude fiscal do século XXI. Os produtos entram na Europa sem pagar taxas aduaneiras e IVA. O segundo crime é de natureza ambiental. Eu pergunto: O que é que nós vamos fazer com a quantidade de peças que é impossível reciclar? Vamos exportar para países africanos? Vamos mandar para aterro? Vamos queimar? Não. São três coisas que não se podem fazer. Por isso, temos um crime ambiental. E temos outro crime, que é a contrafação. Entra tudo que é copiado, não há respeito pela propriedade intelectual. E a Europa não consegue agir porque estas empresas estão muito longe. E, como o nosso tecido industrial é muito pequeno e também o retalho, não há capacidade financeira para ir contra uma empresa que está do outro lado do mundo.A UE decidiu cobrar, a partir de julho, uma taxa de três euros às encomendas provenientes de plataformas eletrónicas extra-comunitárias, com um valor até 150 euros. Esta medida é suficiente?É atirar areia para os olhos. E ainda vai ficar com o dinheiro, que seria mais bem alocado às empresas dos setores mais penalizados como este comércio, como o vestuário e o calçado. Ninguém vai deixar de comprar e mandar vir por causa da taxa. Porque a taxa é ridícula.O que propõe?O importante é que haja reciprocidade. Têm de pagar os impostos, ou seja, a taxa aduaneira e o IVA. Eu dou um exemplo: entra no mercado europeu uma peça que deveria pagar uma taxa aduaneira média de 12%. Mais IVA, numa média de 22%. Até nisto do IVA, cada país tem a sua taxinha. Estamos a falar de 34%. Numa peça que custa 151 euros, são mais ou menos 52 euros. Mas só vai pagar três. A taxa é ridícula. Já viu quantos milhões de IVA o nosso Estado deixou e está a deixar de arrecadar? Nenhum país europeu teve cuidado. É preciso ver também quanto é que nos vai custar reciclar esses produtos e quem vai pagar. A Europa tem este conhecimento. Nos últimos três anos, a dimensão da entrada de produtos asiáticos foi brutal, porque já não querem empresas de mil milhões, já querem empresas de 50 mil milhões. Eu não sou contra a faturação. Sou contra a forma como atuam no mercado. O modus operandi é aproveitar fugas na lei.Os minimis e o SPG são regimes instituídos na UE. Mas não tem que haver aqui abrigos. O artigo vem ao abrigo do SPG porquê? Queremos baixar o custo da roupa? Então vamos discutir o tipo de empregos que vamos ter. Se fabricamos produtos de valor acrescentado, os salários são bons. Não podem dizer que nós temos que pagar salários dignos e, depois, comprar tudo barato. Nós também não queremos um turismo só de sandes. Nós temos que ter produtos de valor acrescentado para termos uma economia equilibrada e empregos. As associações europeias estão unidas nesta matéria?A França é também uma das líderes destas iniciativas. A França está a ter problemas com as suas marcas e nas lojas de rua. Em Paris, abriu uma loja da Shein. Primeiro são as empresas industriais, depois são as lojas, e depois são as marcas. A França, apesar de já não ter muita indústria, está a ressentir-se nos três segmentos. Como nós não temos muitas marcas, estamos a levar mais pela parte industrial. E está também a atingir outros mercados, como o italiano e o espanhol.Os alemães estão distantes deste problema porque são fortemente importadores. Não são solidários com as nossas indústrias. São a favor dos minimis e do SPG, assim como os holandeses. Esquecem-se que as nossas indústrias de vestuário não são mais robustas por causa destes acordos batoteiros. Os compradores dessas plataformas não pagam impostos, como quando compram um carro.A UE fechou recentemente acordos comerciais com o Mercosul e a Índia. Há oportunidades para a indústria portuguesa de vestuário?A abertura do Mercosul é positiva para Portugal. 80% do Mercosul é o Brasil. Atualmente, uma empresa europeia que exporta para o Brasil paga uma taxa aduaneira superior a 100%. Se o Brasil exportar para a Europa só paga 12%.Vamos poder competir de igual para igual. O Mercosul é um grande mercado, tem 290 milhões de pessoas. A Europa tem 450 milhões. Podem dizer-me: A China tem mais de 1,2 mil milhões de habitantes. Pois tem, mas não compra nada. Consegue vender na Europa sem pagar taxa aduaneira e IVA e nós não temos nenhum benefício, A abertura do Mercosul vai tornar as marcas europeias mais competitivas nesse mercado, que gosta do que é europeu. Ninguém vai dizer para não comprar artigos europeus. Na China, o governo diz para não comprar e ninguém compra. E a Índia?A Índia já é outra questão. Um produto nosso paga 100% de taxa aduaneira para entrar na Índia. Mas a Índia exporta para a Europa ao abrigo do SPG e paga zero. A Europa não pensa em competitividade e reciprocidade. É um mercado aberto, mas só devia abrir as portas se os outros também abrissem as suas. O que estamos aqui a falar é de negócio. A partir do momento em que a balança fica equilibrada, concorre o mérito.No ano passado, qual foi o volume de exportações do têxtil e vestuário?Exportámos 5499 milhões de euros. Foi uma quebra de 0,8% relativamente a 2024. Mas este valor não reflete o rendimento. Se tivermos em conta o custo da matéria-prima, a quebra até é maior. E devemos associar o custo de mão de obra, o preço elevado da energia e os custos de contexto. As empresas estão a ganhar menos. A faturação é maior, porque tudo ficou mais caro. Nós não somos produtores de matérias-primas. Temos que importar tudo. Qual foi o impacto da guerra comercial dos Estados Unidos no setor?Foi um mau acordo para a Europa. Alguns códigos pautais, que pagavam uma tarifa aduaneira de 12% para entrarem nos Estados Unidos, passaram a 15%. Os produtos que pagavam mais de 15% mantiveram a taxa. Mas os americanos continuam a pagar 12%. No ano passado, houve uma retração nas exportações. Caíram 3,4%, para 420 milhões de euros.Os Estados Unidos é um grande mercado, mas tem de ser fiável. Para já, está complicado vender para os EUA e não é só por causa da taxa aduaneira. É também a taxa cambial. O dólar está fraco. No último ano, caiu mais de 10%. Os Estados Unidos querem promover as exportações e diminuir as importações.Nós só temos estes mercados: Europa, Estados Unidos e Canadá. Um pouco a Coreia do Sul e o Japão. Os outros mercados não nos compram. É importante ter atenção a isto. A UE está focada em investir no setor da defesa. Haverá negócio para as empresas de têxteis e vestuário nacionais?É importante que a Europa garanta a sua defesa. As guerras não são boas, correm sempre mal. Mas ninguém quer que aconteça na Europa o que aconteceu com a Ucrânia. Eu tenho muita dificuldade em entender como é que se vai conseguir falar a uma só voz. Temos de atuar como uns Estados Unidos da Europa. É esse o futuro. E os mercados a funcionar como um só mercado, uma defesa para todos os europeus. Precisamos saber que oportunidades vamos ter. Se continuarmos a comprar a países terceiros, porque o preço é mais baixo, que oportunidades vamos ter? Em teoria existem, mas vamos ver se essa teoria se materializa. Regressando um pouco atrás. As dificuldades sentidas em 2025 tiveram repercussão no emprego do setor?As empresas que meteram PER estão-se a reestruturar. Nós olhamos para os PER como alguém que está a morrer. E não é verdade. As empresas podem sair mais robustas no fim do processo e até voltar a contratar. Há uma redução de emprego no setor e nos próximos dois anos talvez seja superior a 10%. Nós empregamos cerca de 80 mil pessoas. É preciso ver que a redução dos trabalhadores não tem de significar uma situação de crise na indústria. Hoje, estamos a viver um fenómeno, que é a digitalização e a robotização, que vai reduzir a necessidade de trabalhadores. Quando falo de 10% ou mais não tem só a ver com a crise. As empresas estão a preparar-se para o futuro. Os trabalhadores reformam-se e não são substituídos. .Falta de mão de obra obriga empresas a olhar para trabalhadores seniores.Cruzeiros asseguram crescimento com 37,7 milhões de passageiros em 2025