Empresas do lazer com a vida suspensa

Não se celebraram casamentos, não houve congressos empresariais nem espetáculos para multidões. Os turistas esconderam-se em casa e as empresas de catering, decoração, hotelaria e de realização de eventos viram as faturações cair drasticamente. Mas os empresários reconhecem que o regresso ao normal não será neste ano.

Há o desejo expresso nos olhos dos rostos gravados com máscaras. Há uma vontade que ganha força na esperança da imunização pela vacina - regressar à vida. Os portugueses querem casar-se, dançar, celebrar, comemorar. E as empresas que ocupam os seus dias a pensar, organizar e concretizar esses instantes só anseiam por esse regresso. "2020 foi um ano terrível", diz Martins Alves, empresário com décadas de experiência na logística e decoração de eventos. "Péssimo", define Florbela Bem, administradora da Casa do Marquês, empresa com um savoir faire de mais de 30 anos no setor do catering e eventos.

Foi um ano marcado por lay-off totais e parciais, cancelamentos e reagendamentos de cerimónias que, afinal, não se concretizaram, reinvenções de atividade com impactos quase neutros nas quedas vertiginosas de faturação, reestruturações nas estruturas... A expectativa do regresso à vida como sempre a conhecemos está, agora, dependente de uma vacina, chame-se Pfizer/BioNTech, Moderna, AstraZeneca, ou outra que garanta imunidade contra a covid-19. Mas as empresas de eventos e lazer não têm muitas ilusões. Talvez em 2022 o mundo volte a viver, ou só mesmo em 2023.

Quebras de 90%


"Desenrascámos mais do que reinventámos, mas, apesar de todas as tentativas para encontrar uma solução para manter a atividade, a redução da faturação foi de 90%", revela Florbela Bem. A Casa do Marquês, uma das empresas que faz Protocolo de Estado e que já serviu personalidades como Barack Obama e Angela Merkel, "esteve quase três meses, entre março e maio, a zero", mas logo que foi possível arrancou em força, a possível. Já sem congressos e eventos corporativos, a larga maioria de grupos internacionais, que valiam cerca de 75% do volume de negócios, apostaram no home delivery, transformaram o Arriba, no Guincho, em restaurante, no Palácio Conde d"Óbidos baixaram os preços, adaptaram o Páteo Alfacinha para a realização de minieventos (a capacidade é de 900 pessoas) e no Natal lançaram-se nos cabazes. O objetivo foi "manter a marca viva".

Como realça Florbela Bem, "tem sido uma gestão muito difícil, tivemos vários meses em lay-off, totais e parciais, fizemos acordos de rescisão com funcionários, que levaram a uma redução de 25% no número de postos de trabalho [eram cerca de 70]. As grandes empresas sofrem mais, os custos fixos são maiores e a cada mês de pandemia é mais duro". Para este novo ano, a responsável não tem muitas ilusões. "O primeiro trimestre será complicado, talvez no segundo semestre se consiga trabalhar mais alguma coisa, mas a retoma a sério será só a partir de 2022", ano para que guarda a esperança de que "todos possamos mover-nos sem máscara e voltar a juntar-nos". A estratégia passa por apostar na organização de minifestas, apoiar celebrações em casa dos clientes com soluções mais elitistas e manter o home delivery.

Martins Alves, que detém a empresa homónima de decoração e organização de eventos, esperava que "2020 fosse o melhor ano dos últimos 48", quando foi criada. Na agenda estavam já assegurados 160 casamentos, dos quais seis indianos, que juntam várias centenas de pessoas e se celebram ao longo de três dias, muitas iniciativas para empresas, a decoração e aluguer de material para vários hotéis da região de Lisboa, para além dos banquetes de Estado que assegura com periodicidade. A tempestade sanitária trouxe uma quebra média mensal de 88% nas vendas, obrigou a colocar em lay-off grande parte da equipa de 60 pessoas e a refazer constantemente a agenda. Como revela, "houve casamentos que foram marcados quatro vezes e que agora estão agendados para este ano, se a vacina resultar". Na sua opinião, "não se pode antecipar o que vai acontecer em 2021, a situação está um bocado complicada e somos dos maiores deste ramo, estamos a viver de suprimentos, a tentar aguentar". Para já, tem a possibilidade de realizar neste ano 150 casamentos. Há dias pediram-lhe dois orçamentos para alugar plantas para a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia. Aguarda o que virá.

Florbela Bem e Martins Alves não têm dúvidas de que os apoios do Estado ao setor deveriam ter outra dimensão. A administradora da Casa do Marquês aponta a redução da taxa do IVA, uma medida que seria benéfica para o setor e que foi implementada por outros países europeus. Já Martins Alves lembra que é de "bom senso prolongar o lay-off" e que essa tem sido a pouca ajuda que tem recebido. "Tudo isto é traumatizante", conclui o empresário, que mantém uma equipa de dez pessoas para garantir a manutenção das flores e plantas.

Fechar, abrir, fechar


"Foi o ano [2020] mais complicado na história da Vila Galé", diz sem sombra de dúvida o administrador Gonçalo Rebelo de Almeida. Em março, o grupo hoteleiro viu-se obrigado a tomar a difícil e inédita decisão de fechar praticamente todas as unidades hoteleiras. "Deixámos apenas cinco a funcionar, sobretudo para apoiar os profissionais de saúde - e tivemos receitas muito próximas de zero. Todos os eventos foram cancelados e não havia clientes, porque não havia pessoas a circular devido à pandemia", recorda. Com a chegada do verão, regressou a esperança e 11 dos hotéis do grupo reabriram. O mercado interno deu uma boa resposta e o grupo atingiu, em agosto, uma ocupação média de 50%, apesar de grandes assimetrias a nível regional. A título de exemplo, Gonçalo Rebelo de Almeida aponta os hotéis de cidade em Lisboa, Porto e Madeira cujas taxas de ocupação "não passaram dos 20%, devido à inexistência de procura por parte dos mercados internacionais e do segmento de eventos".

Foi necessário reinventar. Com a chegada da segunda vaga, o grupo hoteleiro focou-se na procura interna e lançou propostas de fim de semana e escapadinhas. programas para teletrabalho num hotel e para estadas mais prolongadas. Aproveitou para modernizar e otimizar procedimentos internos, lançou a loja online com produtos alimentares e artigos para casa, entre outros, investiu na plataforma My Vila Galé para facilitar o contacto com os clientes e também em melhoramentos em vários hotéis. Teve também de ajustar a oferta à quebra da procura e, por isso, só mantém em operação dez hotéis. Ainda assim, as quebras nas receitas deverão atingir os 70%.

Para Gonçalo Rebelo de Almeida, este ano "vai ser extremamente desafiante". Como realça, será necessário restaurar a confiança dos turistas em viajar e em ficar em hotéis, há que contar com a redução da dimensão das companhias aéreas e eventuais restrições à circulação e com a conjuntura económica e social, com o desemprego a aumentar e o poder de compra a diminuir, que terá reflexos no turismo. Para já, o grupo vai focar-se na preparação do plano de atividades, continuar as renovações em alguns hotéis e gerir custos. A expectativa é que na Páscoa se verifique alguma retoma no mercado português e que os turistas estrangeiros comecem a regressar no segundo semestre, sabendo de antemão que o segmento de eventos deverá demorar a reagir. Mas estas previsões estão muito dependentes de como vai "correr a distribuição e aplicação das vacinas". Certo para Gonçalo Rebelo de Almeida é que o regresso do setor a níveis de 2019 só deverá acontecer em 2023 ou 2024.

Opinião semelhante tem Fernando Barrias, administrador do grupo que detém o emblemático café portuense Majestic , que a crise pandémica obrigou a encerrar portas no fim de novembro sem data para a reabertura. "Só mesmo a partir de 2023 é que Portugal vai recuperar lentamente e voltar ao tempo pré-covid", diz. O grupo Barrias, que detém quatro hotéis na Baixa do Porto (dois encerraram neste período e os trabalhadores estão em lay-off) e está a construir uma nova unidade na Avenida dos Aliados, admite que a faturação de 2020 represente apenas 20% da que foi registada em 2019. E 2021, diz, será um ano de "contenção", enquanto se aguarda pela "tão desejada imunidade de grupo".

Dar a volta

Com mais ou menos sucesso, as empresas ligadas ao lazer vão tentando contornar esta crise. O laboratório de arte digital Grandpa"s Lab não conseguiu em 2020 imprimir no seu portfólio espetáculos visuais como os já realizados no Terreiro do Paço e que chegaram a ser visionados por mais de 400 mil pessoas, nem produziu shows multimédia para congressos empresariais, onde se reuniam cinco mil participantes. Ainda o país não estava em confinamento e já chegava da Malásia o aviso de cancelamento do evento Thought for Food Summit. Pedro Castro e Tiago Pires, dois dos fundadores da Grandpa"s Lab, tiveram de enfrentar este novo ciclo e os inevitáveis adiamentos dos projetos.

A aposta foi criar novos produtos digitais e alargar a base de clientes. Como adiantam os empreendedores, "abrimos um novo capítulo e lançámo-nos na área do marketing experiencial". Nesta nova fase, estão a trabalhar na criação de showrooms virtuais para empresas do setor da moda, assegurando a apresentação dos produtos de forma segura em qualquer geografia e certame. Também ganharam um cliente de peso, a Sonae Sierra, para quem estão a criar conteúdos emocionais para alguns dos shoppings da empresa. Neste novo ano, vão estrear-se na televisão. Pedro e Tiago não abrem muito o jogo, mas vão adiantando que será um espetáculo de realidade aumentada para uma cerimónia de abertura. Para os dois jovens empresários, 2020 "podia ter sido um ano extraordinário, acabou por ser um ano mais ou menos mau. O negócio ficou seguro com as parcerias que vinham de 2019", mas a faturação caiu 50% e, ao contrário dos outros anos, não foi possível subir mais um degrau.

Agora, esperam que em 2021 seja já possível realizar espetáculos de videomapping, cumprindo regras de distanciamento e de número de espectadores, como noutros eventos culturais.
Margarida Botelho Rodrigues, fundadora da Bloom Flores & Eventos, decidiu manter as portas abertas de três das suas quatro lojas de flores e investir numa campanha de marketing nas redes sociais. "Reorganizámos a empresa, mudámos de fornecedores, que antes da pandemia eram estrangeiros e agora são nacionais, e reinventámos o negócio", diz. As encomendas para casamentos caíram drasticamente, estavam agendadas cerca de 200 cerimónias e só se concretizaram 15, o segmento empresarial também reduziu as compras, assim como diminuíram os trabalhos para hotéis. Mas a aposta, em março, nos canais digitais garantiu novos clientes.

"Como estivemos sempre abertos fomos muito procurados para responder a várias celebrações, como a Páscoa, o Dia da Mãe... e agora o Natal - os meses de novembro e dezembro foram muito bons -, sentimos também que as pessoas, que agora passam mais tempo em casa, procuram alegrar os espaços e compram mais flores", conta a fundadora da Bloom. Os ventos da fortuna também lhe chegaram via Douro Azul. A empresária já não contava com este cliente, quando a empresa de cruzeiros no Douro decidiu colocar no verão sete das 13 embarcações em operação. A Bloom, que explora lojas em Braga e no Porto, viu assim a composição da faturação invertida. Ao contrário do habitual, em 2020, 80% das vendas foram geradas pela área de retalho e os restantes 20% pela resposta a eventos, hotéis e empresas. Para este ano, Margarida Botelho Rodrigues tem o desafio de conseguir entregar flores frescas em todo o país, respondendo às solicitações que lhe foram chegando pelas redes sociais. O ano de 2021 apresenta-se florido: "Praticamente todos os casamentos foram reagendados para este ano e há uma grande base de novos clientes."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG