Henrique Rocha é mais recente tenista português no top-100: “Quero pensar alto e subir ainda mais no ranking”
Henrique Rocha estava a jogar os quartos-final no Lisboa Bowl quando a Associação de Tenistas Profissionais (ATP) divulgou o ranking desta semana, na segunda-feira, 26 de outubro, e por isso acabou por não saber logo que tinha subido ao Top 100 mundial (precisamente para o 100.º posto). “Fiquei feliz, como é óbvio, mas triste também porque tinha acabado de perder o jogo. É bom fazer parte deste lote de jogadores, mas quero pensar mais alto e quero subir ainda mais no ranking. Por isso vou continuar a trabalhar para que isso seja uma realidade”, disse ao DN o tenista , que deseja apenas e só: “Ser a melhor versão de mim mesmo.”
Com um palmarés que inclui 11 títulos internacionais, cinco dos quais de categoria Challenger, e já com três troféus erguidos na presente temporada, Henrique juntou-se a Nuno Borges (53.º) e Jaime Faria (57.º) entre a elite e assim Portugal passou a ter três tenistas entre os 100 melhores do Mundo pela primeira vez na história. E sem esquecer Francisco Cabral, que é 27.º na hierarquia na variante de pares. Olhando para os países com a dimensão territorial e populacional de Portugal, só a República Checa tem mais de três tenistas nos 100 melhores.
“Feliz” por ter alcançado um dos “objetivos” que tinha para este ano, o jovem tenista admite que a entrada no Top 100 “ é um marco importante” na carreira de um tenistas e significa muito para o ténis nacional: “O ténis português tem evoluído bastante, e, falando de mim, é mais uma etapa. Sinto que posso chegar ainda mais longe. Estou entusiasmado. Estas pequenas etapas vão ajudar a ganhar confiança em todo o processo, mas sem dúvida que estou feliz”.
Aos 22 anos, 6 meses e 21 dias, Henrique é o terceiro português mais jovem a quebrar essa barreira, depois de Nuno Marques (20 anos, 11 meses e 23 dias) e de Jaime Faria (21 anos, 6 meses e 18 dias) e o nono português a entrar nesse restrito grupo, seguindo os passos de Nuno Marques (1991), Frederico Gil (2008), Rui Machado (2010), João Sousa (2012), Gastão Elias (2016), Pedro Sousa (2019), Nuno Borges (2022) e Jaime Faria (2025).
Segundo o novo número 100 do ranking, que se prepara pagar jogar alguns torneios no Brasil, “cada vez mais se nota esse respeito” para com o ténis e os tenistas portugueses. “Mesmo na Taça Davis sinto isso. Estamos destemidos para chegar ao nosso grupo mundial pela primeira vez e acho que temos a equipa certa e um bom ambiente. Isso nota-se também no circuito e toda a gente nos respeita, porque somos bons jogadores e com identidades fortes”.
De apanha bolas do irmão Francisco a tenista profissional
Nascido no Porto a 6 de abril de 2004, Henrique começou a praticar na Escola de Ténis da Maia com seis anos, seguindo os passos do irmão mais velho, Francisco Rocha (vice-campeão nacional absoluto, com 27 anos, e 373.º do ranking). “Gostava muito de ir vê-lo pela energia dos treinos e acabei por ir lá só a apanhar bolas durante alguns meses. Um dia disse, ‘também quero treinar, também quero fazer parte disso, também quero experimentar’. E comecei assim. O meu irmão sempre foi um exemplo para mim, no que toca ao ténis e espírito de trabalho. Foi muito gira a forma como tudo começou”, conta o tenista, recordando que aos 12/13 anos passou a treinar intensivamente com João Maio da Escola Ténis da Maia.
Nessa altura percebeu que, além de gostar de jogar, “tinha jeito” e apostou no sonho e na carreira de tenista. Aos 15 anos, mudou-se para o Centro de Alto Rendimento do Jamor. A mudança obrigou-o a sair de baixo da asa dos pais: “Não foi uma escolha fácil, nem para mim nem para os meus pais, mas estávamos todos de acordo que era para seguir o meu sonho de ser profissional. E estar agora onde estou faz valer a pena. Diria que foi mesmo o ponto de viragem.”
Treinado por André Lopes e Pedro Sousa, em 2023 tornou-se o português mais jovem de sempre a competir no Estoril Open. Confessa que “tremeu” ao entrar pela primeira vez no court central. Nesse ano festejou o primeiro título profissional no ITF de Vila Real de Santo António. Seguiu-se o circuito ATP Challenger e a conquista de mais três torneios (Múrcia, Perugia e Porto) antes de se mostrar ao Mundo.
Em setembro de 2024 conseguiu aquela que é a sua maior vitória da carreira, numa eliminatória da Taça Davis, em que venceu Casper Ruud, então n.º 9 ATP. Em maio de 2025 estreou-se num quadro principal de um Grand Slam, alcançando uma memorável terceira ronda em Roland Garros, ajudando Portugal a colocar três tenistas pela 1.ª vez na terceira ronda de um Major.
Roger Federer como ídolo e Casper Ruud como exemplo
Aos 22 anos, gosta de ir à praia e ficar até ao pôr do sol. E se for a jogar cartas com os amigos, ainda melhor. Isso dá-lhe sanidade mental, segundo ele, mas também o define: “O jovem Henrique é uma pessoa muito social, muito alegre e muito feliz graças ao desporto, à família e aos amigos que me ajudam a ter esta estabilidade.”
No court destaca-se pela sua maturidade competitiva e admite sem problemas que gosta dos grandes palcos, mas para lá chegar tem de competir nos Challengers a jogar como se fosse um Grand Slam. Identifica-se mais com o estilo de jogo de Casper Ruud, mas tem Roger Federer como ídolo: “É quase impossível tentar jogar como o Roger. Ele é único. Diria que sou um tenista com uma identidade muito forte, muito intenso, que joga com muita alegria, mas também muito sério, muito competitivo.”
Henrique Rocha adora viajar e jogar em “sítios incríveis”, mas confessa que o cansaço das grandes deslocações ao longo do ano impedem os tenistas de estar sempre no melhor nível. “Fazer 30 semanas de torneios fora cansa. Se reduzissem 4 ou 5 já era uma ajuda grande para a saúde física e mental dos atletas”, diz o portuense, que considera que Carlos Alcaraz e Jannick Sinner estão acima dos restantes, porque conseguem manter a regularidade ao longo do ano e jogar bem em todas as superfícies.
Numa entrevista à revista Clay, quando lhe perguntaram se gostaria de ser o melhor tenista português de todos os tempos, respondeu: “Sim, claro, mas não é algo em que pense todos os dias.” Se Henrique Rocha (22 anos), Jaime Faria (23 anos) ou Nuno Borges (29) podem superar o 28.º lugar de João Sousa, o melhor português de sempre no ranking ATP... é uma questão de esperar para ver.
isaura.almeida@dn.pt

