Se lhe perguntar quantas regiões de vinho existem em Portugal, quantas consegue enumerar?A pergunta é simples, e a resposta quase nunca passa de três nomes: Douro, Alentejo e, com sorte, Vinhos Verdes.No entanto, Portugal tem 14 regiões vitivinícolas, dezenas de DOC (Denominação de Origem Controlada) e IG (Indicação Geográfica) e mais de 250 castas autóctones.Um dos patrimónios vínicos mais diversos do mundo, num país tão pequeno em área. Então porque é que continuamos a beber sempre o mesmo? Antes de responder, convém dizer isto sem rodeios: este texto não é contra o Douro, nem contra o Alentejo. Seria absurdo - o Douro é uma das grandes regiões do mundo; o Alentejo construiu uma identidade sólida e aproximou o vinho de milhares de consumidores.O problema não está neles, está na zona de conforto que ocupam na nossa cabeça. Vou, por isso, lançar achas para uma fogueira que alguns poderão não gostar de ver ser atiçada: o maior concorrente da Beira Interior não é a Borgonha; o maior concorrente de Bucelas não é Chablis; o maior concorrente de Colares não é Barolo - são o Douro e o Alentejo. E não porque sejam melhores, mas porque quando pensamos em vinho português, são quase de certeza os primeiros a surgir na nossa cabeça. Só depois, se houver curiosidade, começamos a viajar pelo resto do país. E que viagem!Do Minho aos Açores, passando por Trás-os-Montes, Douro, Távora-Varosa, Dão, Bairrada, Beira Interior, Lisboa, Tejo, Setúbal, Algarve e Madeira, encontramos um país que muda constantemente em poucos quilómetros: Monção e Melgaço não sabem a Amarante; Bucelas não sabe a Colares; Portalegre não sabe a Reguengos; Pico não sabe a Biscoitos.É isso que torna Portugal tão raro: numa área tão pequena, mudam os solos, os climas, as castas, as pessoas e séculos de práticas agrícolas. O que não muda, é a inegável qualidade de vinhos produzida em qualquer região do país, cada um há sua maneira. No entanto, quando chega a hora de escolher uma garrafa, o mapa volta a encolher: Douro e Alentejo. .O vinho branco deixou de pedir licença e entrou na mesa principal. E não foi por acaso, foi por mérito..E se o maior problema do vinho for a forma como falamos dele?.Andranik Mesropyan: "Aqui os portugueses vão à Arménia sem bilhete de avião".La Matta: a pizzaria de ADN francês e italiano, que é um restaurante de bairro em plena Graça lisboeta.E porquê? Porque escolhemos aquilo que conhecemos e que, infelizmente, é aquilo que mais nos mostram: as cartas de vinho repetem nomes, as garrafeiras reforçam tendências, os supermercados simplificam escolhas, os concursos validam esta visibilidade. E os consumidores, naturalmente, seguem o caminho mais curto.Não por falta de interesse, mas por falta de contacto – porque ninguém procura o que nunca lhe foi apresentado. E nós por cá até bebemos Borgonhas, Riojas e Barolos. Viajar através do vinho nunca foi um problema em Portugal. O problema começa quando viajamos muito… sem conhecer a nossa própria casa. Não deixa de ser irónico, que há quem continue a dizer que Portugal é dos segredos mais bem guardados do mundo dos vinhos. Mas talvez o segredo esteja mais escondido de nós do que dos outros. Por isso agora pergunto-lhe, quando foi a última vez que pediu um vinho da Beira Interior ou de Távora-Varosa? Um de Bucelas ou de Colares? Já viajou até ao Pico, mesmo que só através de um vinho? Felizmente, algumas coisas estão a mudar: há consumidores mais curiosos, restaurantes a abrir espaço a regiões esquecidas, produtores a recuperar castas quase desaparecidas e uma nova geração que já não pergunta apenas pelo que é famoso, mas sim pelo que é diferente.Gosto de acreditar que isso esteja a redefinir o vinho português: não a notoriedade, mas sim a descoberta. Por isso, agora que Agosto chegou, metade do país vai de férias e os fins de tarde pedem um bom copo de vinho, deixo-lhe o desafio: parta à descoberta para uma região que não conhece, através de uma garrafa.No fim do Verão, as regiões de vinho que existem em Portugal vão continuar a ser catorze. Mas as primeiras a vir à sua cabeça podem já não ser as mesmas..Pet-Nat: a maior novidade do vinho… tem centenas de anos.E se o maior problema do vinho for a forma como falamos dele?.*Esta secção tem o patrocínio da Quinta da Biaia. Os textos são produzidos pelo DN com total independência editorial. Conheça as regras do DN relativas à elaboração de reportagens sobre restaurantes e artigos de crítica gastronómica.