Andranik Mesropyan é o chef que lidera a cozinha do Ararate, onde o borrego é um dos produtos de referência
Andranik Mesropyan é o chef que lidera a cozinha do Ararate, onde o borrego é um dos produtos de referênciaLeonardo Negrão

Andranik Mesropyan: "Aqui os portugueses vão à Arménia sem bilhete de avião"

Responsável pela cozinha do primeiro restaurante arménio de Lisboa, o cozinheiro de português quase perfeito, recria pratos tradicionais do seu país-natal e sem esquecer Portugal nos sabores
Publicado a
Atualizado a

O desafio chegou há quase uma década, quando corria o ano de 2018. Andranik Mesropyan foi instado por Karine Sarkisyan, idealizadora e proprietária do Ararate, para liderar a cozinha daquele se se tornaria no primeiro restaurante arménio de Portugal. Porquê? Porque não há forma “mais fácil de fazer as pessoas viajarem. Aqui os portugueses vão à Arménia sem bilhete de avião, sem reservas de hotel, sem esperas”, resume o chef enquanto os olhos não para de vaguear pela sala e a esplanada do Ararate. Instalado em pleno centro da cidade de Lisboa, na Avenida Conde Valbom, o restaurante abriu portas quando da Arménia Portugal sabia ainda menos do que o pouco que se sabe hoje. Talvez não tenha sido por acaso a proximidade com a Fundação Calouste Gulbenkian, o arménio-otomano que se radicou em Portugal nos anos 1940, mas o que é certo é que o restaurante só viu a luz do dia quando “encontrámos o espaço certo”, garante Andranik. No meio da cidade, para os habitantes e não apenas para quem poderia querer passear por Lisboa.

Roubou o nome à montanha mais importante do país – ainda hoje considerada sagrada, mesmo que pertença à Turquia desde o início do século passado – e prima por uma decoração tradicional do país de origem. Há oito anos que, neste espaço, Mesropyan e a sua equipa cozinham pratos tradicionais arménios com técnicas autênticas, ingredientes importados e métodos de confeção típicos, como grelhadores rasos e uso intensivo de ervas e especiarias do Cáucaso. Mas não excluem os produtos nacionais.

“A nossa comida, na verdade, tem muitas semelhanças com a gastronomia portuguesa. Partilhamos a origem mediterrânica, utilizamos muitos produtos que são iguais ou parecidos e temos sabores que se cruzam, também.”

A beringela é outro dos produtos mais usados na cozinha do Ararate, graças à sua versatilidade
A beringela é outro dos produtos mais usados na cozinha do Ararate, graças à sua versatilidadeLeonardo Negrão

Na carta do Ararate, que durante a pandemia sofreu o seu primeiro embate – “continuámos a fazer entregas e as pessoas podiam vir cá buscar comida, porque não podíamos parar…tínhamos aberto há menos de dois anos! – destacam-se como ingredientes o borrego, a beringela, o pimento, o tomate ou a cebola. Ingredientes comuns em Portugal, mas que aqui ganham os contornos de outros mundos. “A comida arménia é uma grande mistura de culturas. Temos os temperos exóticos do Oriente, o grão da Ásia Central e os legumes e verduras da Europa. E usamos muitas ervas que os portugueses usam, como os coentros ou o manjericão”, continua Andranik. A história da gastronomia é, na verdade, a história de um país que há milénios é palco de disputas geopolíticas e que guarda na sua arquitetura, no seu território, na sua economia e na sua cultura todas as civilizações que, inevitavelmente, construíram o país que é hoje.

Se o início da refeição pode ser a oportunidade perfeita para experimentar uma série de combinações do tradicional pão da região – o lavash, pão ázimo – há também “vários pratos da Geórgia, país com quem fazemos fronteira e cuja comida é muito parecida”, nota Andranik.

Voltamos a olhar para a carta, onde as espetadas no carvão são um dos pratos mais pedidos, conta o chef, e ninguém costuma fugir ao borrego – “vocês, portugueses, também o comem muito no norte, não é? Nós usamos é mais estragão”, conta divertido. Grelhado, estufado ou em caldo, todo o animal é aproveitado para pratos que vão desde os pastéis com borrego (Kashapuri em que o queijo dá lugar à carne) ao Khinkali (saquinhos de massa, feitos à mão, recheados com carne e caldo aromático).

No mesmo sentido, também o camarão é ingrediente presente – “vocês têm o camarão al ajillo. Aqui, servimos camarão grelhado, ou frito, mas os sabores são relativamente parecidos” – acompanhado por legumes, em paté ou em molho Adjika – uma mistura de tomate, pimentos vermelhos, malaguetas, alho e especiarias.

O que não falta no Ararate, também, são os tradicionais Dolmá, que é um dos maiores símbolos gastronómicos da Arménia. O recheio de vitelão ou borrego picado com arroz é embrulhado em trouxinhas de folhas de videira, servido com matsoun e alho.

Os dolmás são rolinhos recheados de vitelão ou borrego e arroz, envolvidos em folha de videira
Os dolmás são rolinhos recheados de vitelão ou borrego e arroz, envolvidos em folha de videiraLeonardo Negrão

Nos peixes, Andranik destaca o esturjão – na Arménia não existe mar, portanto o peixe é de rio e é cozinhado de mil e uma formas. No Ararate, pode encontrá-lo em ensopados, espetadas ou no forno. As espetadas de batata assada são outro dos pratos preferidos pelos clientes, “70% a 80% dos quais são portugueses. Temos pessoas que são nossas clientes regulares há 5 anos”, revela o chef, orgulhoso.

Foi por isso que a decisão de abrir um outro Ararate não foi difícil para os proprietários. Desde 2023 que nas Colinas do Cruzeiro há um outro restaurante com o mesmo nome, a mesma carta e a mesma certeza de que a gastronomia arménia chegou a Portugal para ficar. “Os portugueses estão, hoje, e creio que sobretudo desde 2020, mais aberto à cozinha do mundo. Querem experimentar, têm curiosidade, estranham menos.”, adianta Andranik, lembrando que foi por sentir isso mesmo que o grupo decidiu, em 2025, inaugurar o Samarkand, que se assume como o único restaurante uzbeque de Lisboa. “A gastronomia destes países é muito parecida, partilha muitos ingredientes e sabores. Fazia-nos sentido esse movimento”, acrescenta antes de revelar que há ainda um outro projeto na manga. “Deverá inaugurar em 2027, mas ainda não podemos falar sobre isso”, conta, com um sorriso.

Andranik Mesropyan fez de Portugal casa há uma década, e é um dos rostos mais reconhecidos da gastronomia do Cáucaso, não apenas pela sua técnica aprimorada e pelas viagens que, diz, lhe permitem continuar a ter mundo sem perder os sabores tradicionais, mas sobretudo pelo dinamismo que imprime à cartas e aos pratos que apresenta.

Nota ainda para o sempre presente Gata, o doce que encima a seleção de sobremesas. Apesar de a doçaria arménia já integrar uma série de opções vindas de outros países, como o francês éclair ou as tartes merengadas, este bolo de massa folhada recheado com uma mistura de açúcar, manteiga e farinha é um prato tipicamente de festa e a sua qualidade e cuidado na preparação foi, desde sempre, símbolo do talento da mulher arménia.

Nos vinhos, o Ararate oferece uma interessante seleção de referências arménias – afinal, com seis mil anos de história vitivinícola seria difícil justificar a sua ausência – mas há várias opções portuguesas para quem não quer chegar tão longe na viagem gastronómica.

image-fallback
Naturais, Biológicos e Biodinâmicos: os vinhos de que todos falam, mas poucos sabem o que são
Andranik Mesropyan é o chef que lidera a cozinha do Ararate, onde o borrego é um dos produtos de referência
Guram Baghdoshvili. "O português hoje está muito mais aberto a descobrir outras culturas gastronómicas"
image-fallback
E se o maior problema do vinho for a forma como falamos dele?
Andranik Mesropyan é o chef que lidera a cozinha do Ararate, onde o borrego é um dos produtos de referência
Arménia: o país que tem a adega mais antiga do mundo ainda é um bebé na produção de vinho
Diário de Notícias
www.dn.pt