E se o maior problema do vinho for a forma como falamos dele?

Francisco Fortuna Guilherme

Sommelier e Consultor Vínico

Publicado a

Há uma pergunta que me inquieta há vários anos: porque é que uma das bebidas mais prazerosas do mundo, continua a ser comunicada de uma forma que quase ninguém entende?

Pensemos nisto por um instante. O vinho existe há milhares de anos, atravessou civilizações, sobreviveu a impérios. Acompanhou guerras, celebrações e casamentos. Foi criado para ser bebido, partilhado, celebrado. E, ainda assim, em algum momento da sua história recente, alguém decidiu começar a comunicá-lo numa língua própria.

Uma língua que muitos consumidores não entendem e que alguns profissionais parecem ter orgulho em tornar ainda mais difícil.

Todos conhecemos o ritual - alguém prova um vinho, fecha os olhos, inclina ligeiramente a cabeça e começa: “Notas de grafite. Casca de citrino. Pólvora. Pedra molhada. Floresta após a chuva. Ervas alpinas. Casca de árvore. Tensão mineral. Energia. Verticalidade.”

E, por entre o meio de tal enxurrada de conceitos palato-incongruentes, um mero leigo está apenas a tentar perceber uma coisa: “Gosto ou não gosto disto?”

Mas, com tanto nevoeiro enochato, a resposta parece nunca chegar. E é aqui que começa o problema - o recente dialeto do vinho tem uma estranha capacidade para transformar algo simples numa experiência desnecessariamente complexa.

Imagine por um momento que entra numa pastelaria, pede um pastel de nata e quem o está a atender declama: “Este exemplar apresenta notas dominantes de proteína láctea caramelizada, suportadas por uma interessante tensão entre gordura animal e estrutura farinácea.”

Se depois disto não precisar de parar e garantir que não estávamos a ser alvo de alguma invasão alienígena, garantidamente está rodeado de pessoas peculiares.

No entanto, no mundo vínico, este tipo de comunicação tornou-se comum - ou antes, tornou-se desejável -, como se sinónimo de conhecimento isso se tratasse.

E talvez seja aqui que esta conversa se torna desconfortável para alguns: o vinho nem sempre precisou de linguagem complicada para que fosse explicado; mas muitas vezes a linguagem complicada é utilizada para o fazer parecer mais solene.

Quem realmente percebe de vinho consegue falar sobre ele sem mencionar grafite, hidrocarbonetos ou tensão mineral. Consegue explicá-lo através da emoção que provoca, do prazer que oferece, da ocasião em que faz sentido e da comida com que resulta.

Mas isso torna a conversa acessível a qualquer leigo e algo que todos conseguem compreender pode ser visto como banal.

Os melhores comunicadores sabem isso e talvez por esse motivo surgiu, no mundo do vinho, ao longo das últimas décadas, uma curiosa obsessão por um vocabulário próprio, que apenas o seu domínio permite a entrada numa comunidade exclusiva.

E até aqui tudo certo - dialetos existem em muitas classes profissionais. O problema agrava-se quando o dialeto deixa de permitir a comunicação com quem faz a roda mexer - o consumidor.

Quando o dialeto deixa de aproximar um produto das pessoas e começa a afastá-las, quando deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma barreira, é nesse momento que o vinho se torna menos acessível, menos convidativo e menos humano.

E isso deveria preocupar-nos - porque pouco provavelmente houve uma época tão favorável para o vinho.

Nunca tivemos tanta informação, tantos produtores interessantes e tanta diversidade, mas, ainda assim, uma parte significativa dos consumidores continua convencida de que não percebe nada de vinho, o que leva a um consumo confortável e pouco variado.

E o mais curioso?

Muitas dessas pessoas percebem mais do que imaginam: sabem distinguir aquilo de que gostam daquilo de que não gostam; sabem reconhecer qualidade; sabem identificar prazer; e sabem quando querem repetir a experiência.

E isso é muito mais importante do que identificar aromas de casca de toranja colhida numa manhã húmida de outubro.

Por isso, a pergunta que devemos trazer para cima da mesa não é o porquê de os consumidores não entenderem a linguagem do vinho, mas sim o porquê de insistirmos em falar de vinho numa linguagem diferente daquela em que os consumidores falam connosco.

Porque ninguém se apaixona por um vinho devido a uma nota de pólvora, ninguém abre uma garrafa para admirar a sua verticalidade e ninguém reúne amigos à volta de uma mesa para discutir a diferença de sabor de uma pedra seca ou molhada.

As pessoas abrem garrafas para celebrar, para conversar, para rir, para criar memórias.

E talvez seja precisamente por aí que o vinho deveria (re)começar a ser comunicado - menos como uma tese académica, mais como uma história. Menos como um código secreto e mais como um convite.

Porque, no final do dia, o melhor vinho do mundo continua a ser aquele que alguém tem vontade de voltar a beber. E, felizmente, essa continua a ser uma linguagem que toda a gente entende.

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