Guram Baghdoshvili é um dos protagonistas da gastronomia georgiana contemporânea e encontrou em Lisboa - sobretudo no Bairro Alto, que o conquistou nos anos 1990 - o lugar para contar a história do seu país através da comida. No Karater, restaurante que abriu em 2024 na Rua do Diário de Notícias, o chef tornou-se também um retrato de uma cidade em transformação, onde cozinhas de diferentes partes do mundo ajudam a desenhar uma Lisboa cada vez mais multicultural."Hoje eu tenho portugueses de setenta anos a vir comer comida georgiana aos domingos com um gosto que eu nunca imaginei. Pessoas que dizem: 'Olha, eu já não vinha ao Bairro Alto há trinta anos'", conta Guram em conversa com a reportagem do DN na qual diz-se orgulhoso de ver o público local se interessar por seu restaurante num lugar hoje tão turístico. "Foi uma surpresa enorme para mim: percebi que Portugal mudou muito. O português hoje está muito mais aberto, muito mais curioso e quer provar coisas novas, descobrir outras culturas gastronómicas. E isso acabou por ser uma das coisas mais bonitas do restaurante", complementa o chef responsável pelo Karater..A história de Guram com Lisboa, no entanto, começa muito antes deste projeto - e muito antes, também, dos anos que passou a construir o seu nome na Geórgia. Quando chegou à cidade nos anos 1990, o Bairro Alto ficou-lhe na memória de uma forma que ele próprio diz não saber bem explicar. O sobe e desce nas ruas, a luz que bate nas fachadas, a sensação de um bairro que, àquela época, parecia resistir ao tempo enquanto a cidade mudava à sua volta. Foi aí que Portugal entrou-lhe pela pele e, quando, anos mais tarde, decidiu regressar - desta vez para abrir seu negócio - não havia outra zona que fizesse sentido, mesmo já muito alterada. Neste meio tempo houve anos na Geórgia, onde Guram trabalhou intensamente na modernização da cozinha do seu país - uma cozinha que descreve como mais milenar do que medieval, ancorada em tradições de fermentação, pão, queijo, ervas aromáticas e especiarias que remontam a mais de oito mil anos de história. "Peguei em pratos milenares e dei-lhes um vestido novo", resume. O desafio era, ao mesmo tempo, não trair a essência, mas ajudar que esses sabores cruzarem-se com a modernidade e com o gosto europeu. O trabalho levou-o pelo mundo - China, Índia, Américas, outras partes da Europa -, a fazer festivais, feiras e eventos de promoção da gastronomia georgiana. Levou com ele o seu sócio Pedro Carvalho, português, que foi com ele para Tbilisi e regressou a Lisboa com a cultura georgiana dentro do próprio. Hoje os dois gerem o Karater em conjunto..O que Guram não esperava era que o restaurante viesse a ser frequentado, sobretudo, por portugueses. A aposta inicial era na zona turística como garantia de público pois "tínhamos medo que o português não adquirisse logo a cozinha georgiana", admite. Afinal, quando saiu de Lisboa tinha ficado com a ideia de um país muito ligado à sua própria tradição cultural gastronómica, ao "bacalhau, aos rissóis e outros pratos típicos". Mas o que encontrou ao regressar foi outra coisa: uma cidade mais curiosa e mais disposta a sentar-se à mesa com o desconhecido. Um reflexo evidente da transformação demográfica de Lisboa, que vem atingindo o seu ritmo mais acelerado de sempre - entre 2017 e 2024, a população estrangeira residente em Portugal quadruplicou, ultrapassando 1,5 milhão de pessoas.Para Guram, os vinhos georgianos no Karater são parte indissociável da experiência, produzidos em ânforas subterrâneas por fermentação natural, que o chef importa diretamente e que, apesar da complexidade logística, considera inegociáveis. "Às vezes perco quarenta dias com a importação, é muito trabalhoso, mas não há cozinha georgiana sem os seus vinhos". Passando por uma carta extensa "como em todos meus restaurantes", ressalta o chef, que mantém negócios e uma constante ponte aérea com sua terra-natal, Guram vê os clientes repetirem visitas por pratos como o Khinkali e Khachapuri, clássicos da casa. Nas sobremesas, o chef gaba-se, em tom de brincadeira, de ter as "Rainhas do Bairro Alto", com o Napoleão, um mil-folhas feito com massa e creme próprios, acabado com conhaque georgiano ou francês, e o bolo de mel..O sucesso tem sido tanto que Guram e Pedro já preparam o próximo capítulo, afinal, o espaço do Karater "tornou-se pequeno", dada a procura. Ainda este verão, previsto para entre o final de agosto e setembro, abre o Chveni - que em georgiano significa "nosso". O chef, no entanto, sublinha que este não será uma extensão do Karater. "Será um restaurante mais refinado, com cozinha aberta e outro tipo de arquitetura". No copo, promete vinhos portugueses e georgianos lado a lado e, no prato, uma visão ainda mais ampla, com pratos portugueses reinterpretados pela visão georgiana de Guram, e influências dos vizinhos da Geórgia - Ucrânia, Azerbaijão, Turquia, Cazaquistão. São dois restaurantes e dois conceitos distintos, mas a ideia é a mesma: a de que Lisboa é, cada vez mais, o lugar certo para contar histórias a partir de uma mesa. .E se o maior problema do vinho for a forma como falamos dele?.Almadrava: brasileiros apostam no marisco e em vinhos biológicos em novo restaurante com vista para o Tejo.Broto: sabores de infância e sazonalidade são pilares do novo projeto de Pedro Pena Bastos